Diálogos e Reflexões nos Quadrinhos

Como sabemos, mas talvez não notemos, os quadrinhos são uma mídia feita essencialmente por diálogos. É através deles que a história transcorre. Com eles, os personagens se apresentam e mostram seu mundo. Mas como aproveitar melhor esse recurso em favor do leitor?

Doctor, Who?
Doctor, Who?

A NATURALIDADE ARTIFICIAL DO DIÁLOGO DE QUADRINHOS

Os diálogos devem, em primeiro lugar soar naturais. Mas como alcançar uma naturalidade e obedecer a gramática e ortografia ao mesmo tempo? Ninguém fala estritamente correto o tempo todo. Existem entonações na nossa fala que não podem ser passadas pelo diálogo escrito. Por isso os diálogos devem obedecer a uma naturalidade artificial. Não serem nem demais rebuscados, nem serem chulos demais.

Os diálogos devem funcionar em função da história. O personagem A possui um objetivo e o personagem B possui outro. Construir bem esses personagens é que vai criar o diálogo perfeito. O autor deve entender bem as vontades, necessidades e horrores do personagem. Ao confrontar duas opiniões e personalidades, os personagens, em seus diálogos vão produzindo os Beats – uma acepção de Robert McKee – batidas nos diálogos que imprimem o ritmo da história ao mesmo tempo em que vão evoluindo a trama, levando-as em direção a um conflito e a um desfecho.

Quem conduz bem diálogos com naturalidade é Brian Michael Bendis. Ele vem da escola do diretor e dramaturgo David Mamet, que crê que as “batidas” dos diálogos devem ser mais suaves e a transição entre elas ser mais lenta. Talvez para os dois a condução da história deva ser sacrificada pela naturalidade dos diálogos. Um escritor que conduz bem as histórias usando os diálogos a seu favor é Brian K. Vaughan. As conversas de seus personagens trabalham a favor da história, ajudando a evolui-la e passar para o estágio seguinte.

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Rose Walker, de Sandman

NA PARTE EM QUE GAIMAN E ENNIS USAM DO MESMO RECURSO

Nas oficinas literárias é ensinado que tudo que não for usado em favor da história deve ser cortado. Coisas como digressões de personagens. Para que não sabem digressões são momentos em que os personagens “pensam em voz alta”, ou “filosofam”, ou “fazem reflexões”. Isso, na cátedra literária, é considerado “gordura”, algo que não acrescenta em nada e só serve para encher linguiça, segundo as oficinas de conto9s e prosa.

Eu acho que as oficinas literárias estão erradas. É exatamente no momento da digressão que conhecemos mais tanto o autor quanto os personagens. Seja numa metáfora, ou numa analogia do mundo da história com o mundo real é onde se encontram os diálogos mais memoráveis de todos. Principalmente no mundo dos quadrinhos, a digressão não é gordura, mas uma forma de buscarmos as marcas autorais numa história e uma forma de ela falar mais alto para os leitores.

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Que início, senhores, que início!

Neil Gaiman e Garth Ennis são dois nomes que são exegeses na digressão. Gaiman, por exemplo, produz diálogos elevados, que nos fazem compreender a vida, o mundo e tudo mais. Em Sandman ele nos faz pensar “é verdade, já passei por isso, isso realmente me toca e me faz pensar melhor como vou agir na próxima vez”. Por outro lado, temos Garth Ennis. que revolve o lixo do mundo e a fazer isso acabamos vendo todos os pedaços que compõe os dejetos. Ao ler Preacher ou ainda a sua fase em Hellblazer, ele nos faz pensar “puta que pariu, esse cara tá falando que é assim e é assim mesmo, por que eu nunca parei pra pensar nisso? Que mundo de merda!”. Mas são através delas que entendemos melhor os personagens porque eles acabam se aproximando da gente. Entendemos o drama de Rose Wilson e seu amigo que está morrendo com HIV. Entendemos porquê Constantine, depois de perder pra sempre seu maior amor preferiu viver nas ruas como um mendigo.

ALAN MOORE E O TERCEIRO SIGNIFICADO

Já nos quadrinhos de Alan Moore, ele usa uma fórmula que tem funcionado por anos em anos em suas obras. Alan Moore casa as imagens com as palavras. Mas não da forma que estamos acostumados a ver. Nas suas HQs, geralmente um texto digressivo corre nas legendas como uma narração em off, enquanto a narrativa visual percorre um outro espaço e uma outra ação. Mas se lermos as duas ao mesmo tempo, elas acabam criando um terceiro significado.

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Agora tente reler sabendo tudo o que você sabe sobre Watchmen. 😉

Segundo ele, essa é a forma de trabalhar o lado esquerdo e o lado direito do cérebro ao mesmo tempo. O lado esquerdo, racional, cuida das palavras escritas. O lado direito, intuitivo, cuida das imagens. Ao cruzar os dois lados do cérebro, o efeito é incrível. Por isso os quadrinhos de Moore são tão cultuados.

Diálogos podem parecer difíceis, mas eles não são tão difíceis quanto se pensa. Talvez para as pessoas que não saibam se colocar no lugar das outras. Ao fazer esse exercício, você pode sair com um diálogo muito bom. Por exemplo, imagine-se batendo um papo com um amigo na internet. Um chat no Messenger ou no Whatsapp já é um exercício de diálogo.

Tente estudar como você conversa com seus amigos e tente se fazer o mais claro ao conversar com eles. A comunicação intermediada pela internet é capaz de muitos desentendimentos, mas quando você se comunica claramente, pontua as frases ou delonga as palavras consegue até simular a entonação de voz. Dessa forma estará treinando para escrever diálogos de quadrinhos. Essas são as maravilhas e os percalços da comunicação escrita que tanto amamos.


 

Agradeço ao amigo Carlos Macedo por passar a madrugada sentado no chão comigo discutindo sobre roteiros de quadrinhos.

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2 Comments

  1. “É exatamente no momento da digressão que conhecemos mais tanto o autor quanto os personagens.”
    Não poderíamos concordar mais, Guilherme!!!
    Apesar de que sou suspeita, Sandman é meu quadrinho favorito!!!

    Curtir

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