Somos Apenas Personagens: Homem-Animal: Deus Ex Machina, de Grant Morrison, Chaz Truog, Doug Hazlewood e Outros

Encontro com o criador é o que dizem quando uma pessoa parte dessa para uma melhor. De de certa forma é isso que acontece com o Homem-Animal, Buddy Baker, nesse terceiro volume da sua série pela Vertigo. Ele se encontra com o criador. Mas no caso se trata de Grant Morrison, que é ao mesmo tempo, personagem e escritor do que é narrado. Vamos falar um pouco mais sobre isso nesse artigo.

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Alguns fãs também querem fazer isso com o Senhor Grant.

Já falei neste artigo que personagens normais não tem história. O que Morrison fala nesse encadernado é que aos personagens tudo é permitido, pois eles são só ficção. Quando comparados, o mundo real e cinzento do roteirista e o mundo colorido dos super-heróis da DC Comics, causam espanto em Buddy. Morrison explica que no mundo de Buddy, o bem sempre vence no final. Já no nosso, as coisas não são tão fáceis assim.

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Wow! Que reviravolta, Senhor Morrison!

Claro que assim como sua Patrulha do Destino, a run de Morrison no Homem-Animal serviu de laboratório para a inserção de elementos que iriam caracterizar sua obra até os dias de hoje. Estão lá o embate entre a realidade e a ficção, os quadrinhos influenciando o mundo real, a metalinguagem, os reflexos, entre outros. O que toca, entretanto, nessa run, e, mais precisamente no último número dessa fase, é a análise e discussão do poder da narrativa e do narrador. Morrison tenta resumir para Buddy Baker que “O poder faz o direito”.

Morrison perpetua a morte dos integrantes da família de Buddy, explicando que isso converteria a história em algo “realista” e que realismo era o que os quadrinhos daquela época, a agora distante década de 80, pediam. “Você existe desde muito antes de eu escrever sobre você e, com sorte, ainda será jovem quando eu estiver velho ou morto”, diz o roteirista comprovando a vitalidade da indústria do entretenimento e seus personagens consumíveis mas não consumados. “Acho que você nunca reparou como é fácil se deslocar por meio de cortes de cena entre quadrinhos. Vai ver que é por isso que super-heróis não envelhecem… não gastam tempo de vida em percursos quando dá pra cortar de um lugar para o outro”.

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“Eu vejo pessoas vivas!”

Aqui Morrison se justifica em “violentar” o personagem dizendo que todos os baques que Buddy e sua família sofreram “foram toques dramáticos. Toda história precisa de drama. E é fácil dar choques emocionais baratos matando personagens queridos”. O roteirista então alfineta a tendência marketeira e de grim’n’gritty que viria a se popularizar nos anos 90. Buddy reclama que não é justo. E Morrison então engata um verborrágico discurso vegano.

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Somos feitos de histórias. Alguns mais, outros menos.

Morrison ao mesmo tempo se critica e se venera ao mostrar que escritores podem fazer de tudo com os personagens. Isso é verdade. Personagens são feitos para serem usados e abusados, contanto que essas transformações seja justificadas e usadas em favor da história. Quando digo história não quero dizer vender revistas, quero dizer que acabe por provocar alguma mudança de valores na mente do leitor, que é o que Morrison faz com o subterfúgio que ele mesmo justifica da morte de sua gata e a razão por ter se tornado vegetariano.

Se por um lado personagens são feitos para serem violentados pelos autores, algumas vezes essa violência pode se voltar contra o escritor. Assim, através do clima nefasto e sombrio de suas histórias, pode transformar suas vidas em caos, como Morrison já afirmou várias vezes, inclusive no seu filme biográfico Falando com Deuses. Fica a sensação de que o Homem-Animal de Morrison é o broto da sua essência que discute a natureza da narrativa e as influência da mídia quadrinhos e sua história dentro da própria mídia. Homem-Animal não é uma leitura tão narcótica como trabalhos como Flex Mentallo, Patrulha do Destino ou Os Invisíveis, mas pode fazer você mudar sua percepção das coisas.

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5 Comments

    1. Oi Alex. Depende. O Homem-Animal é mais uma homenagem aos gibis antigos e uma reconstrução de personagens. A Patrulha é uma HQ mais ousada com conceitos bem loucos. Porém o HA são 3 encadernados em couchê e a Patrulha são 6 encadernados em pisa brite. Eu te recomendaria comprar o primeiro de cada e ver o que tu se agrada mais. Até porque depois mais tarde vai ser difícil de encontrar. Então, a hora é agora. Abraços!

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