A Arte de Frank Miller Versus a Estética Image dos Anos 90

Titio Miller voltou aos trending topics da esfera nerd-quadrinística, primeiro com preocupações com a sua saúde e mais recentemente com algumas de suas artes sendo comentadas pela opinosfera mundial. Na verdade, seria mais correto dizer que teve sua arte ridicularizada nessa internet de meu Deus.  Posts, reclamações, xingamentos no twitter… Miller foi alvo de críticas até mesmo retroativas, ferindo não apenas o que fazia hoje, mas o legado de um homem que ajudou a reinventar a narrativa dos quadrinhos comerciais.

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Hunter S. Thompson por  Ralph Steadman

É inegável que, à primeira vista, os resultados pareceram mesmo desastrosos. Porém, vale a lembrança de que arte de Frank Miller, sempre teve, quando autoral, uma veia… humm.. cubista? Talvez não no sentido estrito, mas certamente com alguma influência, ainda que involuntária, dessa escola como Ralph Steadman

OS PILARES DA INFERIORIDADE MILLERIANA

Enquanto se discutia se sua doença estava interferindo no seu julgamento artístico ou na sua capacidade motora, mantive minha reserva de achar que ele o fazia propositalmente. E eu sei que parece leviano dizer isso, na verdade parece ingênuo da minha parte quando claramente e comparativamente a arte dele parece essencialmente inferior ao que ele mesmo já produziu. Mas eu sustentava essa ideia em 3 argumentos:

  1. Ele sempre foi experimentalista na anatomia, na composição e no traço. (estranhamente sempre foi muito tradicional na diagramação);
  2. Sua arte mudou gradativamente, e por mais que as últimas tenham parecido chocantes, não foi como uma grande surpresa apresentada repentinamente;
  3. Quanto às artes mais recentes, do Cavaleiro das Trevas 3, não achei uma arte ruim, achei diferente, sim, achei incômoda, sim. Mas não achei ruim. Havia elementos interessantes em todas elas como equilíbrio, tensão, forma, uso do espaço negativo.
  4. Ok, eu tinha 3 argumentos, mas pintou um agora. Eu não acho que o Frank Miller tenha esquecido de como se desenha e se faz arte, e, a não ser que seu pensamento cognitivo tenha sido comprometido, ele certamente olhou para o resultado final e o aprovou.
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Frank Krueger

Então, encontrei o texto que deu origem a esse artigo, nas páginas do blog de Harvey James intitulado “O trabalho recente de Frank Miller é bom, mas não recebe o tratamento de cor adequado”. Nele, o autor defende um pouco da história de Miller, de como sua obra é sinérgica com o colorista. Diferente de seu trabalho, por exemplo, em Sin City, onde está sozinho e então preenche luz e sombras e cinzas e hachuras e “brinca” com o único tom de vermelho em algumas páginas, quando faz dupla com um colorista, ele dá um passo atrás e permite que o artista faça sua mágica. Um dos exemplos é essa página de O Cavaleiro das Trevas, onde Lynn Varley preenche não apenas os espaços, mas inclusive um quadro completamente em branco.

O quadro 6 é apenas um espaço vazio antes do colorista finalizar a página.
O quadro 6 é apenas um espaço vazio antes do colorista finalizar a página.

PADRÃO ESTÉTICO

Se depende, então, apenas de uma boa escolha de artista, cores e “estilo”, porque isso não aconteceu na arte de Miller? A resposta é simples: Porque a fórmula oitentista/noventista deflagrada pela Image Comics se tornou o padrão a ser seguido e, mesmo hoje é difícil que um editor aprove (ou decida por) uma arte que fuja desse padrão. Por isso, mesmo uma arte como a de Miller, acaba sendo entregue com um pedido de cor “padrão”. Isso não se restringe a cor, mas é o assunto aqui né?

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Qual é sua Image da Image?

Há excelentes exceções, como o Gavião Arqueiro de David Aja e o Demolidor de Chris Samnee (inclusive o brasileiro Marcelo Maiolo, em Arqueiro Verde, cujas cores o editor do blog Guilherme Smee considera uma espécie de narrativa cromática). Esses títulos receberam tratamentos adequados e é irônico que hoje, a editora responsável pelo uso “correto” das cores para “o novo milênio” seja a própria Image Comics, que se reinventou. A mais experimente em arte e cor  acaba sendo a própria e infame Imagem dos anos 90, que conseguiu revitalizar sua “image”- na verdade isso se deve ao fato da Image ser muito mais autoral que suas irmãs mais velhas.

O que vale para nós aqui é: Esse conceito de padrão forçado desfavorece artistas que trabalham com conceitos que vão além do desenho. Não chamamos isso de arte à toa. Há que se quebrar algumas barreiras, padrões, estilos e inovar. E inovar é, ainda que não se goste do resultado, o que eu acho que o Frank Miller fez.

PARCERIA DE ARTE

Quando Frank e o Colorista trabalham com a mesma mente e objetivos os resultados são muito mais positivos. Partindo desse pressuposto, Harvey James recoloriu as artes recentes de Miller e, devo dizer que conseguiu resultados muito bacanas. Ao menos na ótica dele e na minha.

Então vamos ver o que ele quer mostrar:

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É evidente que o “over-render” desfavorece o trabalho de Frank Miller, aqui, mesmo o colorista oficial da série Dark Knigth renderizou rostos com volumes e sombras… é notório como a arte mais limpa ficou muito melhor e criou um conjunto visual muito mais bacana.
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Nem sempre o bom render define um bom resultado. Mesmo as sombras e luzes em todos os lugares certos não representam a arte de Miller tão bem quando uma boa escolha de cores e texturas.
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Essa talvez tenha sido a mais díficil de “defender” mas repare como os traços ganham outro significado com um tratamento artístico diferente. e repare como a renderização “realista” diminui todo o conceito que havia no desenho.
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Não apenas os traços, mas mesmo conceitos de composição ganham força e o que antes parecia apenas grosseiro e agressivo se torna fluido e dinâmico.

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A arte de Miller foi mesmo descaracterizada pela escolha de colorização? Talvez. Mas certamente perderam critério, mensagem e estilo o que é não culpa do colorista (que certamente  seguia direções), mas do editor que tomou as decisões e, certamente dessa tradição de seguir sempre a mesma fórmula que, no caso, é algo que perpetua desde os anos 90.

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3 Comments

  1. “mas o legado de um homem que ajudou a reinventar a narrativa dos quadrinhos comerciais.”

    Não mas não mesmo ele não reinventou nada, ele apenas lia coisa boa como Spirit e trouxe aquilo a tona no Mainstream, certo seria o cara que trouxe a narrativa de Spirit aos quadrinhos dos anos 70’s e 80’s.

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    1. Bem, inspirar-se nos melhores não é demérito nenhum. A Narrativa dele é bem diferente do Eisner. Ou melhor, suficientemente diferente para ser considerada própria. E, usando essa narrativa própria (ou mesmo que ele tenha resgatado algo do Spirit), não dá pra negar a influência que teve no mercado.

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