Eu, o Hulk: Quando a Represa se Rompe

De vez em quando, seja na vida ou nas telas de cinema ou TV, nos deparamos com aquela cena, onde, em um ato de fúria insana, o personagem arremessa um copo na parede, destrói um objeto valioso, quebra um espelho ou desconta sua ira no ambiente a sua volta. Isso, amigos, é o Hulk. Um hulkinho pessoal que vive dentro deles.

Tudo bem, eu joguei você numa conversa sem pé nem cabeça, vamos com mais calma.

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Hulk Ex-Maga!

Todos nós temos um Hulk dormindo lá dentro de nós. Sim, não posso adivinhar como o seu Hulk age nem de que cor ele é, mas o fato é que a sociedade não aceita o nosso Hulk, não aceita o que não tem regras e é só desejo instintivo. Na verdade é esse tipo de coisa que nos faz ser uma sociedade, tivemos que criar regras não documentadas que nos fazem viver em harmonia. É um sentimento comum, ou um sentido comum que denominamos de bom-senso, ou melhor sentir o que é agradável, sentir o que é bom, saber automaticamente, sem recorrer a qualquer lugar ou pessoa o que é aceitável ou não. O Hulk é desprovido de bom-senso. O Hulk, seja o Hulk de quem quer que seja, não é aceitável.

Nosso Hulk pode ser uma mania, uma tara, uma fobia… ele está lá, mas a gente o controla porque se formos o Hulk, se expormos nosso Hulk, as pessoas nos verão como loucos, seremos afastados do convívio social. Por isso a cena proposta lá em cima é tão comum na TV mas pouco comum na vida real. Uma pessoa muito explosiva, facilmente é rejeitada pelos semelhantes, uma pessoa com hábitos desagradáveis (como esmagar homenzinhos) também é rapidamente afastada da sociedade.

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RRROOOAAAARRR!

Então eu procurei ajuda profissional para entender o Hulk. Apesar de explicado na fantasiosa física dos quadrinhos, como ele funcionaria no nosso mundo? Descobri que por aqui, ele não vai ganhar dimensões titânicas, nem aquele verde musgo assustador, mas vai ganhar traços humanos e características sombrias, vamos tentar entendê-lo na nossa ciência.

Antes de mais nada vamos esclarecer que não há como um homem dobrar de massa e se tornar incrivelmente forte apenas canalizando energia de sua ira, vamos pular essa parte e nos ater ao que podemos (?!) explicar.

Conversando com alguns psicólogos tive alguns pareceres sobre nosso gigante esmeralda.

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Conta tudo pra sua mãe, Quico!

Alguns me disseram que o Hulk é a representação do ID e é simplesmente o lado instintivo de Banner que assume o controle por alguma disfunção social. Nesse caso, Banner seria um sociopata que não pode ser contrariado, um homem que nunca cresceu e ainda acredita que seus arroubos de criança mimada podem lhe trazer resultados. Ele é egoísta e muito sensível e precisa de um tratamento seríssimo.

Onde já se viu, ficar grande e verde e sair destruindo tudo só porque as coisas não saem como ele esperava?

Achei interessante essa explicação, mas insisti e descobri outras coisas.

Outros psicólogos acham que Banner sofre de dupla personalidade e que queria mesmo ser como o Hulk: Sem limites, sem linhas, sem leis sociais. Os anos de nerd na escola e as frustrações sexuais o contiveram numa carcaça pequena e frágil. Ele quer ser forte, ele quer se libertar, ele precisa ser o maioral. Ele poderia tê-lo sido se escolhesse outro caminho na vida, mas como escolheu estudar e ser um “cara esperto”, em sua cabeça ele se deu mal. Então ele cria o Hulk na sua fantasia e exterioriza sua ideia de macho alfa perfeito. Grosseiro, rude, animalesco. Ele quer mesmo é mulheres e um corpo sarado. Reparem como ele fica bem melhor na presença de Betty, ela lhe dando atenção o faz esquecer por alguns momentos de suas frustrações sexuais.

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Fierce, uniqueness, nerve and charisma!

Agora a grande maioria concorda na seguinte hipótese. E eu, mesmo não sendo psicólogo, sigo mais por essa linha também, primeiro por fazer mais sentido na minha cabeça e segundo por ser muitíssimo mais interessante.

Todos nós, quando nos relacionamos e vivemos em sociedade passamos por momentos difíceis e frustrantes, quando não podemos encarar essas situações de frente, usamos alguns mecanismos de defesa que nos permitem amenizar a situação, é um eufemismo automático que nem nos damos conta de que estamos fazendo. Na verdade é algo mais complexo que isso, eu só tentei fazê-lo inteligível e simples, afinal não vamos virar psicólogos, certo?

Existe um desses mecanismos de defesa chamado repressão. Por sabermos como vamos agir em determinada situação e por medo de sermos reprovados nessas mesmas ações, nós reprimimos sentimentos que consideramos ruins e negativos. Banner reprime sua raiva, por medo de que tal raiva seja o suficiente para aflorar o Hulk, que é algo inerente a sua pessoa. Reprimindo essa raiva, mal sabe ele que só está acumulando água numa represa e quanto mais raiva acumula, maior vai ser o estrago quando sua força for insuficiente para contê-la, então tal qual uma represa se rompendo, a raiva inunda seus sentidos e ele assume o hulk por completo. No fim, por medo do Hulk e por reprimir o Hulk, ele facilita o caminho para que Hulk venha à tona.

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Freud diria que é tudo culpa da sua mãe!

 

MAS O QUE EXATAMENTE É O HULK?

Banner saltou para salvar o Rick Jones da morte certa e com isso ele acredita que foi condenado à sina do Hulk, mas imaginemos que ele já tivesse esse Hulk lá dentro (como discutimos lá no início da matéria). Com o acidente ele, mesmo de forma inconsciente inventou uma desculpa para deixar o Hulk aflorar e então se culpa pois na verdade se não tivesse saltado, acredita ele, Rick Jones teria de se virar com o Hulk e ele seria feliz com a Betty e sua vidinha. Ele não consegue lidar com a decisão de ter saltado para salvar o outro, afinal, ele poderia ser feliz agora e isso gerou um Trauma, esse trauma gera um ciclo interminável de culpa e frustração. Ele põe no acidente a culpa do Hulk, assim se livra dessa culpa de tê-lo dentro de si, isso é a racionalização e culpa Rick Jones por tê-lo obrigado a pular e assumir um fardo que poderia ser de outro. A racionalização o obriga a transferir de si a culpa para outras pessoas ou fatos.

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Hulk odeia monocromáticos!

Tendo de conviver com a possibilidade do Hulk, Banner se reprime, como já discutimos. Mas chega um momento em que a represa se rompe e o Hulk toma o controle. O Hulk odeia o Banner, pelo menos ele exterioriza esse sentimento, mas o que ele sente é inveja. Hulk/Banner só deseja ser normal. Ele queria não estar ali. Reparem como Hulk clama por paz. “Deixem Hulk em Paz”. Ele só deseja não estar ali, apesar de ser desprovido de controle o Hulk não quer ser o Hulk. Ele diz odiar Banner, mas ele busca a paz e a paz, para o Hulk, significa a volta de Banner. Ele busca então, nada mais que o Banner.

Ele só deseja voltar a ser o Banner.

Mas o Hulk não controla essa situação, ele está perdido, ele então assume que o Banner é o causador de tudo, mas Banner é ele mesmo, então ele se culpa e quer exprimir sua raiva contra  si mesmo, mas é impossível, então ele se utiliza de outro mecanismo chamado deslocamento. Ele desloca essa raiva para as coisas a sua volta, ele destrói paredes e, por ter uma força descomunal, derruba prédios, mas na verdade ele está socando a si mesmo, destruindo a si mesmo e agredindo a si mesmo (inconscientemente).

Esse é também um processo regressivo. Uma estudante de psicologia com quem conversei disse que o Hulk age como uma criança mimada, talvez seja isso mesmo, ele regride para não ter que enfrentar a situação real, ele se faz de tonto, se passa por infantil para não ser visto como adulto e não ter de enfrentar as coisas como um homem. Isso também é um mecanismo de defesa, chamado regressão. Reparem como Hulk é visto como inocente, como infantil mesmo e notem que algumas vezes ele age de maneira muito adulta.

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Sempre com um Hulk por trás!

Nos lembramos em seguida da frase mais famosa do gigante esmeralda “Hulk Esmaga Homenzinho”. Notaram como é pejorativo nessa frase o termo homenzinho? Hulk não sabe lidar com o fato de ser Hulk, como já vimos, apesar do Banner querer ser o Hulk, o próprio Hulk, em si, quer apenas voltar a ser Banner. Então vem a inveja. Sabe aquele garoto de escola de filme americano, lutador e jogador de futebol quando encontra o Nerd e o espanca? Em sua cabeça passa-se algo mais ou menos assim “queria ser inteligente como ele, queria tirar altas notas e talvez ter um futuro mais garantido, mas não posso… porém eu sou mais forte, então vou mostrar pra ele e pros outros que sou melhor do que ele em alguma coisa e talvez todos me vejam como melhor de verdade e ninguém note que na verdade eu só queria ser esse fracote esperto”. Imaginemos agora o que se passa na cabeça do Hulk: você se tornou um gigante horrível e verde, forte e poderoso, mas que todos o odeiam, que fogem de você… então você os vê, aqueles homens, do jeito que você queira ser. Eles comem num restaurante, se divertem conversando, eles passeiam felizes à sua volta. Eles são melhores que você, mas você… ahhh.. você é infinitamente mais forte que eles, você pode derrubar um prédio… eles estão felizes dirigindo um carrinho? Você pode pegar aquele carro e erguer sobre a cabeça, mostre pra eles, mostre quem é melhor! Mostre como eles são pequenininhos e fracos, esses homenzinhos!

Então, voltamos ao início de nossa conversa. Todos nós temos um Hulk descansando lá dentro, o controlamos com mecanismos especiais de defesa e torcemos para que eles não escapem. O que vão pensar de nós? No Caso do Banner, esses mesmos mecanismos que tentam proteger ele do Hulk é o que o fazem aflorar e o que acabam causando toda a destruição que ele promove. A verdade é que se o Doutor Bruce Banner soubesse lidar com sua decisão traumática, soubesse lidar com a questão de ter tentado salvar Rick Jones. Afinal o que ele pensa é que tomou uma decisão inútil: “Se nada tivesse feito, Rick estaria tão bem quanto ele está agora”. Mas ele não sabe lidar com isso e acaba gerando muito mais problemas do que teria.

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Superego mostrando ao id o que é bom!

Se Bruce soubesse lidar com sua raiva e explodisse um pouco de vez em quando poderia haver mais sucesso em lidar com o resultado, mas o medo do Hulk é exatamente o que traz o Hulk à tona, ele reprime e explode, se deixasse vazar o gás pouco a pouco talvez nunca mais veríamos o gigantão… mas convenhamos, não teria a menor graça.

Ele deveria procurar o Dr. Estranho, ou alguém mais parecido com um psicólogo. Xavier, talvez. Conversar um pouco, se resolver melhor. Quando o Banner se livrou do Hulk e vice-versa, eles se tornaram muito mais maduros e estruturados, mas lembrem-se como o Banner dependia do Hulk, como ele sentia a falta de ter onde extravasar sua raiva reprimida. Freud faz falta lá no mundo dos quadrinhos.

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