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Que Tal os Super-Heróis Órfãos Crescerem?

[ESSE ARTIGO PODE CONTER SPOILERS]

Na onda dos filmes de super heróis em que eles quase se matam se enfrentando e depois se unem para enfrentar uma ameaça em comum, um elemento se destacou. Tanto em Batman v Superman: A Origem da Justiça, como em Capitão América: Guerra Civil, um dos pontos de reviravolta das películas é o que tange à morte de seus pais. Vamos discutir um pouco isso.

SUPmartha

Todos sabemos que a motivação para o Batman ter se tornado um combatente do crime é por ele ter perdido o pai e a mãe, assassinados na sua frente, durante um assalto. Isso é o que motiva Bruce Wayne e o faz um impulsivo e, ao mesmo tempo, um calculista perseguidor de criminosos. No filme Batman v Superman, o momento em que os dois heróis se unem é quando Clark Kent suplica por sua mãe, Martha Kent. Por acaso, esse também era o nome de Martha Wayne, a mãe de Bruce Wayne, o Batman. A coincidência dos nomes faz com que Batman desista de matar Superman e os dois se tornam amiguinhos. Tra-la-la!

Já em Guerra Civil, tudo parece bem quando Tony Stark, o Homem de Ferro, que depois de um baita pega pra capar com os amigos do Capitão América, finalmente reconhece que está errado. Mas eis que Zemo, apresenta um vídeo mostrando que Bucky Barnes, o Soldado Invernal foi o verdadeiro responsável pelo assassinato de seus pais, Howard e Maria Stark. Isso o toma de uma fúria que, mesmo sabendo que foi feita uma lavagem cerebral no cérebro de Bucky, ele ataque tanto o Soldado como o Capitão.

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Ótimas sacadas. Ótimas guinadas na narrativa. Mas pouco reais.

Quero apresentar um personagem que não tem nada a ver com superpoderes: eu. O que eu tenho em comum com essa história? Perdi meu pai há dez anos atrás e esse ano ele completaria sessenta anos, se não fosse um acidente de carro enquanto ele ia para a praia. O que acontece com um “super-herói” que perde um ente querido em um mundo em que ninguém tem superpoderes?

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Primeiro ele se choca. Ele chora. Ele grita “não é justo!”. Ele recebe condolências e as pessoas dizem que “ele te amava muito”. O tempo passa. Ele aceita. Ele sonha que na verdade seu pai não morreu, mas seu pai era um agente secreto que forjou sua morte para proteger informações secretas e agora estava de volta para defender o bem e a justiça, mas quando acorda, se lembra que, não, o pai continua morto. Ele faz terapia e conversa com outras pessoas que tiveram o mesmo acontecimento na vida. E, por fim, supera como pode. E cresce no processo.

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Coisas como essas apresentadas nestes recentes filmes de super-heróis me revoltam muito. É como uma piada para as pessoas que perderam alguém importante. Por mais que os quadrinhos de super-heróis tenham avançado em conteúdo, as motivações de cada um deles é absurdamente infantil. Batman sai numa caçada para por Joe Chill atrás das grades. Tony Stark quer matar o Soldado Invernal. E eu? O que posso fazer? Por acaso eu tenho acesso aos arquivos da SHIELD sobre o cara que ultrapassou meu pai e fez com que ele tivesse que colidir numa árvore que ladeava a pista? E se eu soubesse quem foi que fez isso, eu iria tentar matar o cara que provocou a morte do meu pai? Talvez no momento em que eu soubesse da morte. Mas passados dez anos, amadurecido, tendo absorvido tudo o que passou, a única coisa que eu poderia fazer é usar uma máquina do tempo e impedir meu pai de ir viajar. Mas não temos máquinas do tempo no nosso mundo. No de Batman e Homem de Ferro elas existem. E eles não usam. E eles continuam com sua vingança e busca infantis.

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Super-heróis já foram sinônimos de pais na psicologia infantil, mas como se mirar em personagens que protegem às outras pessoas, mas que não são capazes de superar coisas invitáveis da vida, como a dor da perda? O mito de Édipo, um dos mais antigos da sociedade moderna, diz que para um homem se tornar adulto ele deve matar o pai que existe dentro dele. Isto está na psicanálise. De certa forma, o Batman e o Homem de Ferro dos filmes ainda não conseguiram suprimir essa figura de autoridade dentro de suas psiques por ela ter sido tomada deles em uma idade jovem. Talvez isso tenha afetado seu crescimento e assim são milionários excêntricos que compram tudo o que o dinheiro permite, mas não o amor de seus pais.

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Os roteiristas desses filmes e da maioria dos quadrinhos se esquecem da grande capacidade humana de superar as situações traumáticas. Como falei acima, eu sonho quase todas as noites que meu pai está vivo, para acordar e perceber que não, ele está em algum outro lugar que eu não possa mais abraçá-lo. Essa é uma forma da natureza nos fazer aceitar a perda. Batman e Homem de Ferro construíram, com seu dinheiro, um mundo de sonhos e fantasias em que seus alter-egos são os pais que eles não têm mais. Os dois heróis vivem numa eterna depressão da qual eles não querem acordar, nem superar, nem crescer. Pois se Wayne ou Stark acordarem desse idílio vão perceber que a autoridade que eles representam se estilhaça na realidade da perda.

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4 comentários

  1. João Matheus diz

    Olha cara, primeiramente meus pêsames pela morte do seu pai, e parabéns pelo artigo, mas discordo dele.

    Veja bem, vc está usando o seu caso como parâmetro pra indicar que tanto o Bruce quanto o Tony são imaturos e inconsequentes mas é necessário entender que, embora hajam pessoas seguras e com auto-controle quando lidam com a perda de um ente querido, também existem pessoas que não souberam ou não sabem lidar emocionalmente com isso.

    Os dois super-heróis citados na notícia são do segundo tipo. Não conseguiram superar a dor de perder seus familiares e utilizaram essa dor como pretexto pra virar justiceiros ou quaisquer outras coisas.

    O que fizeram/fazem é errado? Vai do ponto de vista de cada um. Mas imagina o que aconteceria se Bruce Wayne após ver seus pais morrerem ficasse de luto por sete dias e depois seguisse sua vida normalmente? Será que ainda teríamos um Batman?

    E se o Homem de Ferro simplesmente chamasse todo mundo pra tomar um cafezinho e resolvesse tudo numa boa na metade do filme, será que ainda teríamos a outra metade pra assistir? (rs,rs,rs)

    Curtir

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