Quadrinhos com Minorias: Representatividade ou Modinha?

A ficção sempre foi o caminho mais fácil pelo qual a sociedade discutiu ideias e conceitos complicados demais para serem simplesmente expostos em uma conversa qualquer. Ainda que arriscando receberem rótulos de hereges, loucos, depravados, artistas de renome (ou não) sempre exploraram mundos fictícios para tentar colocar em pauta tabus que necessitam serem explorados com olhares mais atentos.

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A reação a isso nem sempre é das melhores e é obvio que muitos usam essa carta branca que a arte dá como desculpa para falarem de suas pequenas – ou grandes – perversões. E, ainda que eu respeite o direito deles de fazer com a arte o que querem, não é o assunto em questão aqui. A contrapartida são artistas tão bem intencionados que criam obra panfletárias que mais afastam o público do cerne da discussão do que aproximam.

Então ao tentar discutir homossexualismo, feminismo, direitos humanos, a mudança do paradigma pai/mãe com os novos stay-home-dads, preconceito racial, entre tantos outros, trazê-los à tona por um viés ficcional nos permite mostrar, aprender e ver nuances que dificilmente conseguiríamos se colocados à ótica da realidade. É mais fácil imaginar o que aconteceria em vez de ter que lidar com a realidade do que vai ser.

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Vamos colocar em pratos mais claros: Como eu faço as pessoas pensarem e falarem sobre feminismo? Posso ser panfletário ao ponto de incluir uma personagem feminista na trama que grita palavras de ordem a cada ataque socialmente machista ou posso simplesmente começar a ter personagens mulheres melhor trabalhadas e mais “fortes” e importantes. Posso pensar em uma história em que isso seja o tema focal ou posso tornar isso um tema bem subjetivo em uma outra história qualquer.

DIREITOS HUMANOS GOURMET

Mas isso se tornou uma moeda para “acalmar minorias” ou “pagar de antenado”. No mundo de hoje muita gente é consciente e sustentável para pagar de cool. Vamos comer no restaurante de feijão e arroz gourmet. Hoje vou sair de bicicleta e todo acessorizado. Eu corri 500 quilômetros segundo meu aplicativo da Nike que posta no Facebook. Direitos humanos também passaram a serem defendidos por gente que quer tentar ser “in”, não por realmente se identificar com os movimentos. Outra coisa também é clamar diversidade sem entender o que os movimentos apregoam.

REPobamaNa cultura popular, os movimentos de minoria só querem ser representados em filmes, gibis e séries. Isso é muito difícil para as grandes empresas? Não. Contanto que gere lucro. Desde a campanha eleitoral de Obama, as grandes empresas de entretenimento estão de olho nas minorias. Foram os negros, os latinos e os gays que elegeram o primeiro presidente negro dos EUA e não a elite branca.

Obama virou cartaz como Che Guevara antes era o símbolo do esquerdista modinha, mas todo por dentro da cultura de consumo.  Tendo isso em mente, Disney e Warner (donas da Marvel e DC, respectivamente, começaram a investir na representatividade). Mais de 50% da população americana é de latinos e os gays têm um poder de compra 30% maior que os heteros. As grandes empresas foram espertas e abraçaram esse mercado. E esse dinheiro. Não pense que elas são boazinhas. Elas querem a sua grana.

POR QUE A REPRESENTATIVIDADE É IMPORTANTE?

Mas para além da grana. Por que a representatividade é importante? Muitos amigos meus que são negros vieram me dizer que gostavam de personagens como Pantera Negra e Falcão porque foi o primeiro super-herói que eles puderam dizer. “Olha! Ele é da minha cor! E ele pode ser super-herói sendo negro! Então eu também posso!”. Representatividade significa empoderamento, dar forças a quem aparentemente não as tem. Se uma criança vê um presidente negro ela vai crescer se esforçando para ser o melhor possível para chegar a ser um Obama. Se ela sabe que não existe lugar para um presidente negro, nem vai tentar. Se alguém sabe que vai falhar, por que razão ela vai tentar?

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Através destes modelos, como Falcão, o Pantera Negra, ou mais recentemente o Super-Choque, os super-heróis conferem às marcas, bem como às suas revistas, uma identidade, vendendo ao consumidor uma emoção autêntica do produto que está comprando. A identificação e a projeção do leitor e do consumidor com os personagens geram diferenciação, fidelidade e uma personalidade para a marca. Conforme José Martins, em seu livro A Natureza Emocional da Marca (1999, p.197), como todos têm um sentimento a respeito das marcas, a estratégia emocional abrange todos os grupos sociais e acaba por romper as barreiras sócio-culturais e transnacionais.

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Quando isso vai bem e quando vai mal? Miles Morales, o novo Homem-Aranha é um negro filho de latinos de Porto Rico e é lindamente bem representado. Um personagem protagonista que gera identificação com todo mundo, seja de que etnia você for. Por outro lado o Kid Flash, Wally West, que foi tornado negro na iniciativa dos novos 52 é retratado como um filho de criminosos, que, necessariamente tem de ser tratado como um trombadinha e um trombadinha ele se tornará.  A caracterização deu tão errado que agora, como Rebirth, a DC Comics trouxe de volta o antigo Wally, branco e ruivo, de olhos verdes.

QUANDO ALGUMA COISA IMPORTA?

A etnia importa? A identidade sexual importa? Quando alguma coisa importa? A resposta é bem simples, e que muitos escritores, editores e diretores de grandes empresas deveriam ter em mente é: IMPORTA QUANDO FUNCIONA PRA HISTÓRIA! Nunca se deve escrever uma história pensando apenas que o personagem é mulher, negro ou gay, ou cadeirante ou asiático, mas pensando nele como uma pessoa complexa e cheia de nuances em que essa é apenas uma característica que faz um pedaço dele e não o seu todo. “O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita freqüência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor”, diz Vincent Jouve no livro L’effet-personnage.

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REPtempsPara concluir quero deixar a reflexão de Paul Auster, em seu conto O Quarto Fechado inserido no livro A Trilogia de Nova York: “Todos queremos ouvir histórias e as ouvimos do mesmo modo que fazíamos quando éramos pequenos. Imaginamos a história verdadeira por dentro das palavras e, para fazê-lo, tomamos o lugar do personagem da história, fingindo que podemos compreendê-lo porque compreendemos a nós mesmos. Isso é um embuste. Existimos para nós mesmos, talvez, e às vezes chegamos até a ter um vislumbre de quem somos realmente, mas no final nunca conseguimos ter certeza e, à medida que nossas vidas se desenrolam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós mesmos, cada vez mais conscientes de nossa própria incoerência. Ninguém pode cruzar a fronteira que separa uma pessoa da outra – pela simples razão de que ninguém pode ter acesso a si mesmo”.

É a diferença, não a semelhança que permite descobrir-se. E talvez seja por essa razão que para muitos sejam mais fácil se identificar com os X-Men. Eles representam a diferença, aquilo que não é comum, mas que permite descobrir que a diversidade é algo mais normal que a semelhança. Essa é a moral da nossa história.

Este artigo foi escrito em conjunto por Vitor Coelho e Guilherme Smee

 

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2 Comments

  1. Ótimo texto mesmo, sabe o que percebi e me corrijam se eu estiver errado, que é mais fácil dar certo quando criam um personagem novo, como o Miles, Pantera e etc, por que já “nascem “nascem” negros e poderosos, eu particularmente gosto muito deles e do Falcão, mas quando tentam mudar um personagem que já existe como o Wally, aí complica mais, não tem pq fazer isso, é muito mais legal quando criam um personagem como o Super Choque que eu por sinal adorava tbem!!

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