Não Existe Filme de Super-Heróis Bem Dirigido?

Depois de fracassos com filmes de super-heróis como Batman V Superman, dirigido por Zack Snyder e de Quarteto Fantástico, dirigido por Josh Trank, somos levados a nos perguntar se existem ou não filmes de super-heróis bem dirigidos. Será que os estúdios estão impondo demais a sua vontade sobre os diretores? Seriam os super-heróis apenas produtos de um grande comercial? É o que vamos discutir.

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Para começar eu gostaria de chamar a atenção para a Teoria do Autheur. A Teoria do Auteur (autor, em francês), surgiu por volta de 1954 e tem como principal defensor François Truffaut. Esse método de análise de filmes foi originalmente associado à Nouvelle Vague e aos críticos que escreviam na revista Cahiers du Cinéma. Esse pressuposto diz que uma única pessoa é dona de um determinado filme, ou seja, esse filme é considerado “seu”, por isso muitos associam filmes de determinados diretores como filmes de estilo e marcas autorais próprias. “Este é um filme do Truffaut. Do Tarantino. Do Woody Allen”. O diretor é considerado autor do filme inteiro, sem se preocupar com toda a equipe envolvida.

Para ler mais sobre a Teoria do Autheur nos Quadrinhos, clique aqui.

Entretanto, por mais que filmes de super-heróis possuam filmes com autheurs, como Tim Burton, por exemplo, nos filmes do Batman, a vontade do estúdio sempre é superior. Isso impede que o cinema super-herói gere um filme-arte ou ainda um filme de assinatura. Os personagens não são propriedades dos diretores para que eles façam o que quiserem com eles e adicionem seu toque pessoal. Personagens de quadrinhos de super-heróis são, essencialmente, produtos. Houve um tempo em que nem mesmo os estúdios e as companhias detentoras do copyright dos personagens era a mesma e isso gerava ainda mais atrito de ideias.

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Você pode discutir que, ah não, mas o Ang Lee fez um filme de assinatura com o filme do Hulk. Entretanto, diferente de Allen ou Tarantino, por exemplo, o roteiro já foi entregue a Lee antes de ele começar os trabalhos em Hulk. Ou que a cena dos tentáculos do Doutor Octopus que Sam Raimi colocou em Homem-Aranha 2 nunca teria passado por um estúdio e que ele tinha liberdade total. Mas passou. E se formos analisar a cena não tem nada de mais. É tudo sugerido. E por sugestão o Batman também teria matado o Coringa em A Piada Mortal. Ou não?

Talvez a pessoa que mais tenha chegado perto de um filme  de assinatura com os super-heróis tenha sido Frank Miller. Primeiramente com o Spirit, personagem de Will Eisner, que boa parte do fandom concorda que Miller estragou nos cinemas. Mas principalmente com os dois filmes de Sin City que foram co-dirigidos com Robert Rodriguez e que, sim, foram as melhores transições de um quadrinho para as telonas. Entretanto, Miller cuidou dos quadrinhos desde o começo, em que roteirizou, desenhou, coloriu, letreirou e editou. Sua influência na transição para o cinema foi essencial.

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A teoria do Autheur foi usada pelos cineastas da Nouvelle Vague como justificativa de seus filmes cada vez mais pessoais e idiossincráticos. Hoje em dia, a teoria do auteur tem grande impacto no público e na hora de criticar um filme para a audiência em geral. Foi graças a ela que hoje categorizamos esses tipos de filmes, de estéticas e estilo semelhantes como “filmes do diretor x”, mesmo que o diretor não tenha escrito os roteiros para aquele filme.

Não existem filmes de super-heróis pessoais e idiossincráticos, pois eles passam pelo dedo do estúdio e de uma centena de pessoas antes de chegar a nós, o público. Zack Snyder mesmo reclamou que seu filme, para ser entendido, teria de ser visto pela versão estendida. São esses cortes que machucam a assinatura de um diretor e a pessoalidade de um filme. A censura de certas marcas que tornariam o filme mais palatável, mas menos comercial. Aqui o que importa é vender e não a expressão das ideias. Vender bonequinhos com uniformes diferentes e 45 personagens diferentes aparecendo na tela e não discussão de ideias de personagens.

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Tim Burton, um diretor que tem o potencial para deixar uma marca nos cinemas, acabou se vendendo para os estúdios. Tudo começou com o musical de horror Sweeney Todd em que ele começou a deixar de marcar com seus filmes e que filmes com Johnny Depp passaram a parecer cada vez mais e se tornarem sinônimo de filmes de Burton. Assim foi até chegarmos ao filme da Disney, Alice, em que de burtoniano só existe a direção de arte de Dante Ferreti. E ainda assim.

Agora peguemos o já citado Josh Trank, que realizou um incrível filme de super-heróis mesmo não usando personagens consagrados. Esse filme foi Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), um dos meus filmes preferidos de super-heróis – mas que não tem super-heróis. Essa liberdade cortada se espelhou quando Trank foi fazer o filme do Quarteto Fantástico da Fox, que poderia ter sido incrível, mas foi um fracasso enorme. As pessoas costumam criticar a Fox por ela não saber fazer filmes de super-heróis. O fato é que os filmes da Fox são, essencialmente, filmes de estúdio, que raramente possuem características próprias, atitude, personalidade e diálogos que fazem a diferença. Com a honrosa exceção do filme do Deadpool.

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Por fim, acredito que não existe filme de super-herói bem dirigido, pois segundo a teoria do autheur, o papel do diretor é dar uma visão de mundo, comunicar uma ideia, buscar uma compreensão das coisas que estão além do filme. Películas de super-heróis são rasas e não buscam nada mais do que renda e um entretenimento fugido. Não fazem pensar como o bom cinema e a boa arte faz. E sim, até grande parte dos gibis de super-heróis consegue fazer pensar mais do que os filmes e a maioria é muito menos comercial cara de pau que seus primos das telonas. Filmes de estúdio não vendem ideia, vendem produtos.

Tanto o cinema quanto os quadrinhos querem contar uma história ou pelo menos passar uma experiência para o leitor. Isso depende do domínio de storytelling, ou, em bom português, da narrativa. Os melhores e mais venerados autheurs são aqueles capazes de moldar, reverter, inverter e perverter uma narrativa, mesmo que seja, como faz Alan Moore, prestando homenagens à outras narrativas mais antigas e mais cultuadas. Por mais que, por exemplo um Christopher Nolan seja um diretor bom, vemos que seu trabalho é muito melhor e mais auoral em filmes desatrelados como O Grande Truque e A Origem. Ainda não temos um Alan Moore, um Neil Gaiman, ou até mesmo um Frank Miller (apesar de termos) nos cinemas de super-heróis. E não teremos enquanto os estúdios não abrirem mão do controle extensivo sobre seus filmes.

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10 Comments

  1. Parabéns pelo excelente texto, realmente os estúdios tem uma grande influência sobre os filmes de heróis, mas existe a questão de quanto eles influenciam. Homem-Aranha 2 teve muito mais a mão do Sam Raimi e foi ótimo, já o 3 teve e os dois Espetaculares Homem-Aranha tinham a mão do estúdio e fracassaram.
    O diretor só tem a chance de colocar sua cara num filme de super-herói quando os personagens são desconhecidos do grande público, vide os exemplos de Hellboy e Guardiões da Galáxia, concordo que enquanto isso não mudar teremos filmes ruins e bons, mas que sabemos que poderiam ter sido muito melhores.

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  2. Acho que existem filmes de super-heróis que deixam suas marcas além de bonequinhos de ação: Superman do Richard Donner (Mark Waid agradece), X-Men 2, com uma puta mensagem contra o preconceito, Homem-Aranha 2 que tem diálogos afiadíssimos e traduz muito bem as HQs dos anos 60, O Cavaleiro das Trevas que é bem melhor que O Grande Truque e A Origem e até o recente Capitão América Guerra Civil que além de vender muito boneco, pegou muito bem o Zeitgeist do mundo atual.

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  3. Excelente post, Guilherme! Mas vamos lá, às discordâncias. E lá vem textão:
    Em primeiro lugar, acho a teoria do autor bem limitante e injusta. Dizer que um filme pertence a uma pessoa é prepotente e arrogante. O que Truffaut na Cahiers (e esse ponto é importante, já que nem todos os nouvelle vagueanos defendiam a teoria do autor, que, como você disse no texto, era forte nos membros da revista) foi tentar aproximar o cinema da literatura (e o cinema não precisa e nem deve se limitar a se aproximar da literatura, mas afirmar identidade própria). O problema é que o cinema é uma produção coletiva e, por mais que um diretor tenha uma assinatura específica e liberdade de criação absoluta, um filme não “pertence” uma só pessoa, como Truffaut arrogantemente defendia. As impressões vêm também de outros profissionais, de assistentes de produção a diretores de fotografia.
    Os filmes fotografados pelo Walter Carvalho, por exemplo, possuem uma assinatura muito própria dele, chegando ao ponto de um grande diretor como Walter Lima Jr. dizer, em tom de brincadeira, que ele é um “ladrão de filmes”. O próprio Walter Lima já disse que “esse negócio de autor é coisa de francês”. Pode ter se espalhado, claro, mas ainda é. E Rogério Sganzerla já disse que, pelo menos aqui no Brasil, “temos que evitar essa capa de França”.
    Em segundo lugar, também é complicado associar (como os cahiers fizeram) a figura de autor (se a considerarmos válida) necessariamente ao diretor. Existem filmes onde a impressão e a visão são provindas quase ou exclusivamente da montagem, por exemplo. Harun Farocki é um realizador que trabalha muito com a ideia de filme de arquivo. Aqui podemos separar a figura do “diretor” em metteur en scène (o que faz a mise en scène) e réalisateur (a grosso modo, o realizador, idealizador). Essa tamém é uma teoria provinda da Cahiers que separa dois tipos de diretores. Mas o segundo tipo pode muito bem ser aplicado a outros cargos que não a direção. Dessa forma, um filme pode se aproximar da ideia de autoria, mas ainda acho injusto com outros membros da produção.
    Nesse caso, podemos aproximar Ang Lee, por exemplo, da figura de realizador – ou autor, caso prefira (diferente de mim) -, por mais que exista um forte dedo do estúdio: a visão hegemônica do filme é, afinal, dele, mesmo que podada. Além disso, não é porque um filme é comercial e moldado para um público específico que ele não terá uma assinatura própria. Aqui dá pra enquadrar até Zack Snyder que, por mais que seja um analfabeto cinematográfico (e digo isso enfaticamente), possui uma assinatura própria, visual e bem marcante (independente de qualidade).
    Agora, sobre os citados Irmãos Russo: Na Marvel Estúdios é mais difícil ter uma mão firme na direção. Muitos diretores que passaram por lá, como o Peyton Reed, do Homem Formiga, já afirmaram o quanto é difícil dirigir um filme sem a tesoura podadora do estúdio. Mas não é de todo impossível. Tem uma cena que gosto muito no Guerra Civil (uma das poucas, inclusive), em que o Homem de Ferro chega no centro da prisão com seus companheiros heróis encarcerados. E tem dois fatos distintos e beeeem sutis, mas estão lá e acredito firmemente que tenha sido dedo dos Russo: A prisão é circular com todas as celas voltadas para o centro. Há câmeras de vigilância apontando para cada prisioneiro. Quando chega na prisão, Tony Stark está no centro de um panóptico. E um dos primeiros comentários que o Falcão tece é chamando Stark de “futurista”. Pra muita gente esse adjetivo pode ser bobeira, já que Tony usa uma tecnologia que não existe em massa (ou de forma alguma) no presente. Mas quem conhece os futuristas italianos sabe que, em seu manifesto, há muitas sementinhas de fascismo. Futurista é a forma mais clara que um herói da Marvel/Disney pode ser chamado de fascista em tela.
    Bem, muita gente costuma dizer que os problemas pra falar dos filmes de heróis é ter os gibis como parâmetro. Digo isso por ter lido comentários do gênero na publicação deste post lá no facebook. E esse parágrafo é uma resposta não para o post, mas para esse tipo de pensamento: o parâmetro para falar de cinema é (ou ao menos deveria ser) o próprio cinema. A linguagem cinematográfica (a qual pessoas como Snyder não se propõe a explorar). É fato que grandes produções não costumam experimentar tanto com essa linguagem quanto cinemas marginais, mas também não acho que tais produções sejam completamente isentas de assinatura. Só são mais engessadas. Mesmo os diretores que se apropriam do sistema e trabalham bem seu próprio estilo dentro dele, estão sujeitas às relações de poder do próprio sistema. E não dá pra ser subversivo por dentro.
    Acho que existem filmes de heróis bem dirigidos sim, mesmo que podados pelos estúdios. A forma como os diretores dão a volta para contar o que querem da maneira como querem pode ser bem interessante também. As vezes restrições exaltam enormemente a criatividade.
    E cinema não é sobre contar uma história, o importante é como contar. O cinema nem precisa contar uma história, na verdade, e se contar, não é preciso que seja necessariamente fechada ou compreensível. Como disse Abbas Kiarostami, “se considerarmos que ele [o cinema] tem o dever de contar histórias, parece-me que o romance o faz muito melhor. As peças radiofônicas e as telenovelas também cumprem bem esse papel”. “O que” está sendo contado é, num filme, menos importante do que “como” aquilo está sendo contado.
    Bem, pra fechar eu não poderia deixar de dizer: morte à ideologia do autor e viva ao cinema como processo coletivo!

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    1. Gustavo, adorei teu comentário! Foi quase um outro post, discordou comigo, mas foi bem embasado, argumentou bem, e principalmente, foi respeitoso. Bem diferente de muitos comentários que temos por aí nas redes. Por mais discordâncias saudáveis, embasadas e argumentadas! Valeu! Abraços!

      Curtido por 1 pessoa

  4. Meus parabéns, Guilherme, por mais um excelente texto. Ótima fundamentação teórica, ainda por cima. Assim como o colega acima, discordo em um pequeno ponto. Por mais que o diretor esteja limitado às amarras de um estúdio, é possível imprimir, ainda que timidamente, marcas autorais num filme. E ainda que o Cinema seja uma arte coletiva, o diretor trabalha como um maestro lida com a orquestra. A sinfonia já está pronta, mas os contornos, as passagens com maior brilho, o tempo, a intensidade e a escolha dos solistas está ao cargo do regente. No cinema, embora o roteiro e até o casting esteja decidido pelos produtores, é o diretor que dará vida ao filme já na pré-produção. Retoques no roteiro, minuciosa construção das cenas mais difíceis em storyboards e as decisões de estilo tomadas com o diretor de arte e o diretor de fotografia podem salvar um roteiro mais ou menos. E depois de tudo, a mão telentosa de um bom montador pode tornar tudo melhor. Como bem mostra a história, Richard Donner teve que lutar contra o estúdio (mais precisamente o produtor Salkind) para colocar nas telas o Superman que ele imaginara a partir do roteiro de Mario Puzzo. Perdida a batalha, o segundo filme não foi o primor como se esperava após o primeiro. E muito disso se deve também à entrada de Richard Lester. Superman II traz pequenas doses de estilo de Os Reis do Ié Ié Ié, o humor quase caricato, inclusive. O resultado só não foi pior porque os trechos dirigidos por Donner também estão lá. No terceiro filme, podemos ver como Lester destruiu a obra e não podemos atribuir apenas ao estúdio o fracasso. Mais recentemente, Batman vs Superman tem como grande parcela de culpa as decisões equivocadas de seu diretor. Zack Snyder já provou com Watchmen e O Homem de Aço que é um diretor limitado e seu poder criativo no estúdio não é pequeno, já que está ao seu cargo quatro grandes filmes. Embora ele não tenha o corte final (quase nenhum diretor tem) e tenha que lidar com decisões corporativas e limitações dos produtores, Batman Vs Superman evidência tropeços em inúmeros aspectos de atribuição apenas à direção. Estou falando desse filme em específico, mas o mesmo vale para Quarteto Fantástico, Demolidor, Lanterna Verde e tantos outros.
    Felizmente há diretores que sabem contornar as limitações dos estúdios e entregam ótimas obras. Batman Begins e O Soldado Invernal estão aí para provar.
    Meu ponto de vista jamais vem a desmerecer seu ótimo texto, Guilherme, concordo com tudo a respeito da dificuldade em se imprimir um trabalho autoral num grande estúdio. Não entanto, é possível, em doses homeopáticas, um bom diretor empregar estilo, contornar problemas e entregar um bom filme. Tudo bem que Christopher Nolan trabalhou o roteiro com seu irmão e Richard Donner estava ao lado de Mario Puzzo, mas outros casos de bons diretores que deram vida a bons filmes com roteiros in spec de terceiros.

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