A Causa Negra nos Quadrinhos, por Denys Cowan

Entrevista dada pelo incrível artista negro Denys Cowan, na época em que desenhava o Questão, em 1986. Destacamos a parte em que ele fala da questão dos negros nos quadrinhos. Podemos reparar que pouca coisa mudou de lá para cá.

“Sempre houve um número expressivo de artistas negros na área dos quadrinhos e uma proporção equilibrada de personagens negros ou de personagens bons. Esta é uma questão importante. O problema nos quadrinhos é que o leitor nunca está ciente de como os criadores se parecem. Isto é bom e mau. É bom porque desta forma não se tem ideias preconcebidas de como o desenho vai ser, a partir de como a pessoa se parece. É bom se manter anônimo. por outro lado, por não podermos ver como são os que trabalham quadrinhos, acabamos também tendo ideias preconcebidas. Eu, por exemplo, imaginava que todo mundo que pertencia à área de quadrinhos era branco. Não sabia que Billy Graham e Ron Wilson eram negros até entrar para a área. Então comecei a achar que tinha uma chance.

Já aconteceu, em convenções, de muitas pessoas admirarem que eu seja negro ao me conhecer. Alguns até achavam que eu era mulher por causa do jeito que se soletra meu nome. Uma moça branca, imagine só! Agora sou razoavelmente conhecido e até sirvo de inspiração para algumas pessoas. Mas, quando descobrem que eu sou de cor, principalmente os negros, não conseguem esconder a admiração e alegria de que ‘um de nós’ tenha dado certo. Isso me faz sentir ótimo. E é isso que me dá prazer de estar mudando as coisas nos quadrinhos.

Fiquei consciente de outras situações que nem sabia que existiam. As pessoas eram gentis comigo, mas depois descobria que adoraria botar uma cruz de fogo no meu jardim. Era meio chocante. Houve uma vez, quando tinha 17 anos e começava a entrar nos quadrinhos: fui à DC Comics e o diretor de arte olhou para meus desenhos e comentou que  eram bons, mas que  ‘já tinham um rapaz de cor trabalhando para eles’. Era o Trevor Von Eeeden a quem ele se referia. Mas demorei um ano para entender o insulto racial que o cara tinha me feito.

Não, não me sinto confinado a uma comunidade branca, anglo-saxônica e protestante. Tenho bastante liberdade para fazer o que quero. No passado, as coisas eram diferentes. Ficava preso num canto, fazendo um personagem de quadrinhos negro não porque era bom desenhista, mas principalmente porque era negro. Não que naquela época a área fosse totalmente dominada por preconceitos. Havia muitos artistas negros. Alguns aceitavam seus empregos e punham-se ‘no seu lugar’ e não incomodavam ninguém. Mas eu me recusei desde o início a me submeter a isso e não evitei pisar nos calos de algumas pessoas”.

E dá-lhe Denys Cowan!

COWcapa

 

 

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