Assustar Crianças é Mais Fácil que Esclarecer Adultos

Muito se discute o que colocar na frente dos olhos das crianças, mas o perigo mora mesmo nos adultos que se comportam como crianças: sem filtros. Enquanto são crianças, elas não tem o poder de ação e o entendimento do mundo. Entretanto, quando se tornam adultos e começam a se transformarem em cidadãos atuantes da sociedade é onde está o x da questão.

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Adultos que não sabem interpretar texto são um perigo para a sociedade. Eles não se questionam e são alimentados com discursos rasos e de ódio, o que os leva a tomar atitudes extremas. Hoje em dia qualquer discurso massificado e pasteurizado é engolido pelos adultos sem filtro sem nem olhar para o aspecto do que estão ingerindo, deglutindo, digerindo e, por que não dizer, em tempos de apoio ao terrorismo e à ditadura nas redes sociais, defecando.

Começar a se questionar desde cedo, ser curioso, buscar o “por quê”, entender a razão em um personagem de uma história se comportar do jeito que se comporta e não apenas aceitar aquele comportamento como normal. Isso é estabelecer filtros. Numa geração que foi criada pela televisão, quanto mais se lê e mais se é exposto a comportamentos e histórias de vida diferenciados mais se entende o mundo e as motivações dos mundanos.

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Faz mais ou menos um ano que participei de um bate-papo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre sobre Super-Heróis. Uma das questões que levantei era se os heróis tendo seu papel como uma espécie de “pais” da sociedade, os vilões não sofriam de uma espécie de complexo de édipo, querendo matar esses pais para ficar com a mãe, no caso, a humanidade. Mas temos de lembrar que a sociedade está mudando e os heróis que ela demanda não são os mesmo de antigamente, o que talvez explicaria essa manifestações de heróis porra-louca como o Deadpool ou de filmes glorificando os vilões como o do Esquadrão Suicida e o Coringa.

Alan Moore, um dos mais importantes escritores de quadrinhos, criador de Watchmen, V de Vingança (da famosa máscara dos protestos de junho de 2013) e a Liga Extraordinária, teve divulgada uma carta que enviou para um garoto de 9 anos chamado Joshua. O menino havia mandado uma carta para o escritor para elogiar seus quadrinhos tidos como para leitores maduros. Muitos iriam dizer que esse tipo de leitura não foi feita para uma criança dessa idade. Eu discordo. É preciso que as crianças sejam apresentadas a leituras mais maduras para aprenderem a se questionar sobre o mundo podre em que vivem. Para viverem menos ilusões desde cedo e evitarem frustrações tardias. E acho que Moore concorda com isso. Veja o que ele diz em resposta a Joshua:

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“Livros como Watchmen, V de Vingança e Monstro do Pântano foram feitos quando eu ainda estava começando a minha carreira, nos anos 80, quando estava nos meus vinte e poucos ou trinta anos. Fico feliz que eles ainda sejam divertidos hoje em dia e em relação a como foram escritos… Bem, acho que devo dizer que comecei quando tinha a sua idade ou até menos, por apenas ser apaixonado por quadrinhos ou livros que fossem cheios de ideias brilhantes que colocassem a minha imaginação em chamas. Desde muito novo eu tentava emular pessoas que estava lendo ao escrever pequenas histórias, poemas ou mesmo pequenos quadrinhos desenhados e coloridos com canetas esferográficas em páginas de cadernos e depois grampeados. Não estou dizendo que essas coisas eram boas, mas que me divertia bastante enquanto fazia e que eles pelo menos me ensinaram um pouco das habilidades que eu precisaria ter em outros momentos da minha vida.

Além de escrever e desenhar, eu também lia o máximo que podia de coisas que me interessavam… e por isso bibliotecas são tão importantes… fossem livros, quadrinhos ou qualquer outra coisa que eu pudesse colocar as minhas mãos. Enquanto eu lia, parte de mim (provavelmente a maior parte) apenas se divertia com a história por ela ser emocionante, assustadora, engraçada ou qualquer outra coisa, enquanto outra parte estava trabalhando para compreender o motivo de eu ter gostado tanto daquilo. Eu tentei entender o que o autor havia feito que tinha um efeito tão poderoso em mim. Talvez seja um efeito esperto de storytelling que mexeu com o meu cérebro ou talvez fosse o uso poderoso de um simbolismo que acertou em cheio e movimentou um acorde desconhecido dentro de mim, mas o que quer que fosse eu queria entender porque eu pensava que caso compreendesse essas coisas, eu provavelmente seria um escritor melhor do que caso não tivesse entendido.

A medida que fiquei mais velho, enquanto percebia que ainda gostava de vários desses livros e quadrinhos que cresci lendo, descobri que passei a apreciar todas formas de escrita e arte com as quais antes eu não conseguia me ligar, e passei a aplicar lições aprendidas com essas diferentes fontes à minha escrita. Finalmente, quando entrei no ramo dos quadrinhos já nos meus vinte e tantos anos, eu provavelmente tinha bagagem de influências muito mais vasta do que a maioria dos outros escritores do meio nesse mesmo período e era capaz de produzir trabalhos muito diferentes do que havia sido visto até então. Eu gostava de experimentar com as coisas (e ainda gosto, diga-se de passagem), e tentar pensar um forma diferente de escrita para uma cena ou uma história específica. Eu acho que uma das coisas mais importantes para qualquer artista ou escritor é que eles devem estar sempre progredindo e buscando coisas novas, porque é isso que vai fazer seu trabalho continuar sendo jovial e empolgante para seus leitores mesmo após os seus 20 ou 30 anos. Sim, isso significa que você vai precisar trabalhar ainda mais pesado, refletir ainda mais e sempre se desafiar e testar seus limites, mas na minha opinião o resultado final sempre vale a pena”.

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Me perguntavam no bate-papo da Psicanalítica se as crianças saberiam interpretar uma história como V de Vingança, Watchmen ou até mesmo Batman — O Cavaleiro das Trevas. Mas o problema não são as crianças, que não tem poder de ação, mas os adultos que as leem, não as interpretam e acham que matar como o Coringa faz é bonito. Ou depredar como faz V é uma solução para uma sociedade em crise. Ou pior ainda, a repressão totalitária, direitista e massacrante de um Capitão Nascimento que quer se impor doa a quem doer.

Como chegamos à conclusão no encontro da Psicanalítica, os quadrinhos evoluem com a sociedade e nada mais são do que um reflexo da mesma. Se as histórias em quadrinhos estão cada vez mais refletindo homens com a psique dilacerada, gente doente que perdeu seu centro de moral e ética, é porque a sociedade atual não é nada mais que isso. Num tempo em que as ansiedades são tantas e as demandas de cada um se tornam maiores ainda, porque não escapar para um filme ou revista em quadrinhos em que a solução é sair metralhando geral como alívio das pulsões mais secretas? Quando nos exigem demais, num mundo cada vez mais perfeccionista, em que quem não atende o que lhe é pedido tem que cair fora do sistema, tem de usar como catarse a violência e o não cumprimento das leis?

Adultos sem filtros agem como crianças. Quando perdem o jogo, recolhem tudo e não querem brincar mais. Ou seja, é melhor parar de brincar tanto e começar a ler mais.

A notícia da carta de Joshua a Alan Moore foi tirada do blog Vitralizando.

Publicado originalmente na revista TrendR do Medium:  https://medium.com/@guilhermesmee/assustar-crianças-é-mais-fácil-que-esclarecer-adultos-18a66d8197c7#.9fs6lz7rg

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