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Miss Marvel e o Conflito de Gerações

O segundo volume de Miss Marvel, intitulado Questões Mil no nosso pais e Generation Why, lá nos states, trata disso mesmo que o título diz: o conflito entre gerações. Nada mais justo, uma vez que Kamala Khan, a Miss Marvel, pertence à mais novíssima geração. A geração Z – a geração zapping – que nasceu a partir do novo século. Mas vem comigo que eu te explico tudo isso.

Estávamos conversando esse final de semana, eu e meus amigos, sobre conflitos de gerações. Eu afirmei que a nova geração seria melhor do que todas até então. Ao que os meninos me apoiaram e as meninas discordaram – sim, foi um debate bem sexista. O meu apoio foi baseado na ação de um menino de 15 anos na padaria que abriu a porta para uma senhora e disse: “por favor”, ao que a senhora não respondeu nem um “obrigado” sequer. Claro, que tudo varia de pessoa para pessoa, mas os estudiosos costumam separar a humanidade do pós-guerra em gerações. Vou explicar pra vocês.

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Depois da Segunda Guerra Mundial, os soldados estavam muito afoitos para voltar ao seu lar e produziram uma explosão de bebês – a chamada geração dos baby boomers. São pessoas que hoje tem por volta de 60 anos, como meus pais. A geração que veio depois, foi a geração X, filhos de Woodstock, o verão do amor, quando tudo era permitido. Era a primeira vez que a mídia e a publicidade se voltavam para a juventude. Os filhos dessa geração – e à qual eu pertenço – são a geração Y, para a qual a mídia e a publicidade promoveram a infância perfeita, pois era a primeira vez que existiam programas e produtos voltados exclusivamente para as crianças. A geração Z – ou os millennials – são aqueles que estão plugados à internet desde que nasceram, com um raciocínio muito mais rápido do que qualquer geração e mais preparada para enfrentar e aceitar as mudanças do mundo. Eles estão plugados a um novo tipo de mídia difícil de ser aceito para as velhas gerações: os youtubers.

O segundo encadernado de Miss Marvel possui dois arcos. O primeiro em que ela briga com crocodilos gigantes ao lado de Wolverine e, com ele, aprende várias lições. O segundo arco é o mais interessantes, adolescentes da geração z estão sacrificando seus impulsos elétricos cerebrais para produzir energia elétrica para um mundo que, dilapidado pelas gerações anteriores, está sem recursos para a continuidade da vida humana.

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O roteiro, escrito pela americana convertida ao islã, G. Willow Wilson, e desenhado por Adrian Alphona, mostra que Kamala tem de ler um artigo de um escritor de uma revista chamada O Pedante Mensal que afirma que “adolescentes são apenas parasitas viciados em seus smartphones e que não contribuem com a sociedade”. Ao que Kamala responde que desistir da próxima geração é desistir do futuro e que a próxima geração sempre tem de lidar com os problemas que a anterior deixou.

Ela questiona aos adolescentes: “Devemos cair fora para os adultos poderem torrar seus ares-condicionados e cartões de créditos sem esquentar como futuro?”. E então Kamala convence os amigos a não se sacrificarem e a se tornarem cidadãos atuantes, estudando e se tornando gente de valor, que pode mudar esse rumo. “A mídia nos odeia porque a gente lê nos nossos smartphones. Os economistas nos odeiam porque a gente troca as coisa em vez de comprar. Não foi a gente que bagunçou a economia ou o planeta”.

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E o vilão, o Inventor, um homem com cabeça de passarinho – literalmente – ainda ressoa esse discurso dizendo que os adolescentes ouvem que suas vidas são baratas desde o momento em que nasceram. E ele? Bem, ele só deu um jeito de darem valor por suas vidas. Isso é realmente o que nossos pais e as pessoas das gerações anteriores à nossa nos querem – e nos fazem pensar – que nós não valemos nada e que só aquilo que eles gostam e pensam é importante e válido. Mas é pura balela. E é papo de supervilão. Desrespeitar uma geração é tão feio como ser racista, homofóbico ou machista.

Ou, nas palavra do vilão: “Os jovens são vistos como um fardo político, um incômodo público. Eles não são considerados de serem educados ou protegidos. São chamados de parasitas, sanguessugas, pirralhos, pestes… Se você usasse essas palavras para descrever qualquer outra minoria que não crianças, seria considerado muito compreensivamente discurso de ódio. Estamos simplesmente levando esse discurso à sua conclusão lógica”. Ou seja, preconceito com gerações é discurso de supervilões, viram, seus caquéticos? Oooopa… Rá!

MSSquestionsRespeito é bom e todo mundo gosta. Sejam novos, sejam velhos, seja o que for. As opiniões devem ser respeitadas. Principalmente esse pessoal dos quadrinhos que diz que hoje em dia não tem histórias boas. Existem histórias boas sim, só que, amigo e amiga, na época em que vocês descobriam os gibis tudo era mais fascinante pois você estava descobrindo-os. Dê uma chance aos da nova geração terem o mesmo maravilhamento que você teve nas coisas do seu tempo. Pois nem todas HQs dos anos 80 e muito menos dos anos 90 eram uma virtuose. Mais respeito, por favor. Mais amor, por favor.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

10 comentários

  1. Mauricio Martins diz

    Muuuuuuito bom Guilherme!
    É exatamente isso ai que eu penso, essa coisa de “na minha época era melhor” é um pensamento muito limitado. Se nos atermos somente ao passado, nós nunca iremos iremos pra frente!

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  2. Eu tenho 22 anos e sigo aquela máxima: Respeite o passado, abrace o futuro. É muito bom conversar com meus amigos da minha época porque eles sabem exatamente o que eu sentia. Mas também gosto de ver pessoas mais velhas do que eu falarem sobre as épocas de suas infâncias e adolescências, assim como gosto de acompanhar o crescimento dessa geração de hoje em dia. E em alguns casos, como quando eu li esse arco da Kamala, sinto como se tivesse voltado a ter 15 anos, só que dessa vez fazendo parte da geração z.

    Curtido por 1 pessoa

    • Guilherme Smee diz

      Claro, Will! O importante é não menosprezar ninguém por nenhuma razão! E claro, abraçar o futuro, porque, né, se nós não fizermos isso, quem vai fazer? Abs!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Cara, eu não tinha pensado nisso. É bem verdade, eu estava beirando o preconceito, já que cheguei a muitas conclusões “vilanescas” sobre a nova geração. Obrigado por abrir meus olhos. Se eu for um vilão, quero ser um vilão por opção, não por natureza rabugenta.

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  4. Interessante a abordagem dos conflitos e diferenças de gerações. Ainda não terminei de ler as hqs da Ms Marvel até antes dela se unir aos Vingadores. Mesmo com esses poderes que lembram um mix de Mulher Elástica (a dos Incríveis, que se estica) com o Homem-Meteoro (aquele do Galaxy Trio, que aumenta de tamanho), gostei dela… e acho uma gracinha. ^_^

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    • Guilherme Smee diz

      Oi Anderson! O que me parece é que a Miss Marvel veio substituir o Senhor Fantástico enquanto ele fica no limbo editorial, pois ela é bem semelhante mas com possibilidades de poderes muito além das do Reed. Adoro ela também! Abs!

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