Afinal, Quadrinhos São Cultura? E a Cultura, o Que é, Heinhê?

Você sabe que muita gente despreza os quadrinhos. Talvez até você seja um deles. Tem gente que acha que essa mídia é exclusiva de crianças; que acha que por ser um produto de massa, não deve ser valorizado como arte; que por conter personagens de fácil reconhecimento, pode não ser considerada cultura. Mas todos eles estão errados. Nesse artigo pretendo dizer o motivo.

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Em seu livro, A Cultura do Espetáculo, o escritor peruano, Mario Vargas Llosa, reafirma a tese de Nietzche de que Deus está morto. Ainda mais, ele diz que hoje cultuamos um “deus-mosaico”, um imbricado de imagens e conceitos que são o que chamamos hoje de cultura. É aquilo que valorizamos como entretenimento que ele chama de cultura e não mais a alta arte da alta cultura como eram conceituadas antes do século XX. Antes, a cultura era privilégio de uma elite e apenas aquela camada social podia ter acesso à ela. Isso era inerente ao que se associava à cultura. Ela não era entretenimento, mas sim, conhecimento, em primeiro lugar.

Vivemos hoje, na época que Marx denominava como da fetichização dos produtos comerciais. Uma coleção de quadrinhos nada mais é do que o epítome do capitalismo. Se por um lado, a coisificação do indivíduo avança, por outro lado, a leitura promove a aquisição do conhecimento, tão valoroso para o conceito antigo da cultura. Por outro lado, a moda, a publicidade e o cinema vão pressionando o indivíduo para que ele tenha um conhecimento — mesmo que básico — desses produtos manufaturados pela cultura pop. Se ao mesmo tempo o indivíduo se torna reificado, toda essa aquisição de conhecimento — ainda que supérfluo -, entretanto, ajuda no sentimento de pertencimento daquele que a consome. Cria-se assim uma comunidade de consumidores que divide a mesma cultura. Uma cultura altamente consumista, porém popular e agregadora.

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Esse pressuposto vai ao encontro da “cultura-mundo”, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, em que a cultura erudita, elitista e excludente se tornou uma genuína cultura de massas, quebrando barreiras não só sociais, mas de fronteiras, integrando todos os continentes em um compartilhamento de símbolos e significados ao alcance de todos. Contanto, é claro, que possa ser revertida em consumo de alguma forma.

“Sua intenção é divertir, é dar prazer, possibilitar e evasão fácil e acessível para todos, sem necessidade de formação alguma, sem referentes culturais concretos e eruditos. O que as indústrias culturais inventam, não é nada mais que a cultura erudita transformada em cultura de massa. (LIPOVETSKY e SERROY, 2010, pg. 79

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Por mais que os quadrinhos estejam enterrados sob uma poderosa camada de cultura de massa, se você cavoucar e peneirar bem vai encontrar muitas referências à cultura erudita. Ora, Edgar Morin já disse que os super-heróis são os mitos modernos. Para Vargas Llosa, cultura é diversão e o que não é divertido, não é cultura.

Ele ainda diz que o cinema light e a literatura light — e aqui eu adiciono os quadrinhos light, como os dos premiados Alan Moore e Neil Gaiman — dão a impressão ao público de que ele é culto. Quando sabemos, claro, que isso não é verdade. Por isso quase sempre temos discussões bastante rasas em fórums de quadrinhos e nas redes sociais. De certa forma, quem se acostuma com esse tipo de arte e não a utiliza como trampolim para buscar outros tipos de arte, dá margem à uma “cultura da complacência”, aumentando a busca pela autossatisfação.

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Os quadrinhos passaram, durante os anos 90, logo após a cultura light dos quadrinhos ter se tornado erudita aos olhos do público, por uma grande coisificação. As edições número um passaram a valer milhões e os quadrinhos sofreram o tal “banho de imagens”, pressuposto por Walter Benjamin. Naquela época, belos desenhos sobrepujavam o bom roteiro. Hoje se entendeu que um equilíbrio deveria existir entre a qualidade do desenho e do texto. Esse equilíbrio também deveria ser buscado entre a erudição e a acessibilidade na cultura dos quadrinhos. Algo que ao mesmo tempo iluminasse e divertisse o leitor. Como uma boa parte dos quadrinhos — que quem conhece — fazem.

O importante para a arte e para a arte de massas que se diz cultura é fazer aquilo que a arte têm feito desde que o homem a criou: refletir a vida. Não apenas diversão e catarse, mas também os dramas e reveses da vida, de uma forma que um ser humano possa aprender e crescer com ajuda do outro. Isso é arte. Isso é cultura. Não só a nossa noção de quadrinhos deve mudar, mas principalmente a nossa noção de cultura e de arte também.

Artigo publicado originalmente na revista TrendR, do medium:
https://trendr.com.br/afinal-quadrinhos-sao-cultura-e636e35770e7#.dovjitg01

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