Análises, quadrinhos, Quadrinhos Comparados, Sobre Roteiros, Teoria dos Quadrinhos
Deixe um comentário

Por Que a Ficção Nos Comove Mais Que a Realidade?

Muitas vezes a gente chora vendo o filme de uma mãe procurando a filha, mas ao ver uma mãe gritando pela filha na rua, o mesmo não acontece. Também nos preocupamos com o que vai acontecer com a Katniss, de Jogos Vorazes, se ela vai conseguir alimentar seu distrito, mas ao ver os refugiados africanos e da Síria morrendo em meio a uma travessia do Mediterrâneo, as lágrimas não sobem aos nossos olhos com a mesma facilidade. Mas por que isso acontece? É o poder da ficção de nos envolver e nos fazer identificar com o personagem que ele se torna parte da gente.

FICcapa

Vou dar um exemplo. Certa vez escrevi um post no meu blog sobre quadrinhos, o Splash Pages, e discorria sobre os dez casais gays mais famosos dos comics. A imagem que ilustrava o post e foi divulgada nas redes sociais, trazia o Superman beijando o Batman. Era apenas uma piada. Mas as pessoas sem filtro da rede social levaram tão a sério o post que chegaram a me ameaçar de morte por ter brincado com a sexualidade de dois ícones dos quadrinhos. As pessoas acabam amando tanto o Batman que se importam com ele como se fosse uma pessoa de verdade, e não levam desaforo aos seus amados heróis para casa. (Bem, no caso não era desaforo, mas se a pessoa tem a capacidade de ameaçar alguém de morte por duvidar da masculinidade de um personagem é porque ela está mais envolvida com ele do que o Superman que o beijava na imagem).

Em um ensaio em seu livro Confissões de um Jovem Romancista, Umberto Eco dá o nome de “personagens flutuantes” a pessoas ficcionais que adquiriram um espaço tão grande no imaginário popular que possuem, de certa maneira, “vida própria” na cabeça de seus leitores. Eles habitam uma dimensão de mitos e arquétipos, que talvez poderia ser o inconsciente coletivo, pressuposto por Jung.

FICsuper

“Muitos personagens de ficção ‘vivem’ fora da partitura que lhes deu existência, e se mudam para uma zona do universo que achamos muito difícil delimitar. Alguns até mesmo migram de texto para texto, porque a imaginação coletiva, ao longo dos séculos, fez um investimento emocional nele, e os transformou em indivíduos ‘flutuantes’. Muitos vêm de obras de artes ou mitos, mas certamente não todos. Assim, nossa comunidade de entidades flutuantes inclui Hamlet, Robin Hood, Heathcliff, Milady, Leopold Bloom e o Superman”. (ECO, Umberto, 2013, p.87).

Quando os personagens se tornam “flutuantes”, também mais dispersas são suas características específicas, pois existirão diferentes versões deles tanto nas mídias tradicionais e inovadoras, quanto nas mentes de fãs e público em geral. Essa identificação com o personagem também torna ele como uma coisa. “Se eu posso comprar coisas com o personagem, logo, ele é meu”. E essa individualização de personagens do imaginário coletivo os torna universais e míticos. Ao mesmo tempo que permite com que quem o consome, o possua.

FICup

Talvez a forma como nosso emocional funciona, não seja apenas através do envolvimento com os personagens, mas com o que aprendemos com eles. Ao ver um mendigo no sinal, nosso cérebro não processa toda a história que tem por trás da condição do mendigo, mas sim, de sua aparência. Ao vermos uma reportagem, documentário ou história sobre mendigos no sinal, somos cativados e nos importamos muito mais, pois com essas formas de expressão estamos aprendendo algo sobre o mendigo. Estamos captando algo dele muito mais que uma simples visão.

“O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita frequência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor”, diz Vincent Jouve no livro L’effet-personnage.

FICrefugees

Esse é o poder das histórias, de mudar nossa perspectiva de mundo. De ver a realidade pelos olhos de pessoas tão diferentes da gente como um mendigo ou um refugiado, que, a “olho nu”, poderia não provocar nenhuma reação além de desprezo. Volto a citar Eco e seu livro quando denotam o efeito dos personagens e da ficção na nossa vida: “A ficção sugere que nossa perspectiva de mundo verdadeiro talvez seja tão imperfeita quanto a visão que os personagens têm de seu mundo. É por isso que os personagens de ficção bem sucedidos se tornam exemplos supremos da condição humana ‘real’”.

Texto publicado originalmente na revista TRENDR:
https://trendr.com.br/por-que-a-ficcao-nos-comove-mais-que-a-realidade-5ea41c1486b7#.2i262p62c

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s