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Martelando o Bife. Garota Siririca, de Lovelove6

Sim, no Brasil, hoje, temos quadrinhos sobre tudo. Então por que não um sobre a masturbação feminina falada abertamente e sem tabus, num quadrinho vanguardista e bem-humorado? É por isso que agora vamos falar de Garota Siririca, da lovelove6!

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Na Bienal de Quadrinhos de Curitiba havia um baita painel com vulvas desenhadas, vulvas de vários tipos, com as inscrições “colora com os dedos”, uma referência à masturbação feminina. “Siririca” é como se chama a masturbação feminina, assim como a masculina é chamada “punheta” ou “bronha”. (desculpe, mas preciso explicar). Mas o fato é que a masturbação feminina, diferente da masculina, sempre foi um tabu. Muitas mulheres não conseguem atingir o orgasmo por não terem tido uma “cultura da masturbação” durante a adolescência.

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Os homens, pelo contrário, aprendem a se tocar e se explorar desde que são pequenos. Existem revistas que exploram essa cultura, como a Playboy, a Sexy, a Penthouse, apenas para citar algumas. Foi apenas com o advento da internet, que as mulheres puderam ter acesso aos seus prazeres e entender como o sexo – e o seu sexo – funciona. Ainda, a série de TV Sex and The City ajudou – ou prejudicou – a popularizar a sexualidade feminina – esse mito – em que as protagonistas conversam sobre suas vidas sexuais, parceiros, e, claro, os vibradores, como o bunny, que estimula não só a região vaginal, mas também a anal.

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Lovelove6, ao abordar esse tema, sem papas na língua, presta um serviço imenso para as mulheres, sejam elas heterossexuais ou homossexuais. A personagem, Siri, do livro é uma garota viciada em pornografia que só quer passar os dias em casa se masturbando, por isso é apelidada de Garota Siririca pelas amigas. A narrativa é contada em páginas, com cada uma delas fechando um cena, mas é uma história contínua.

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A história mostra a nossa protagonista sendo apresentada aos Sex Toys de uma Sex Shop onde sua amiga Xoxana trabalha. Ao se deparar com um vibrador raro, Siri acaba descobrindo a deusa hindu Prexeva, cuja missão é espalhar o prazer ao encarnar em um objeto masturbatório. Ela faz isso para honrar um marajá que tinha um harém, porém amava um escravo. Quando a mãe do marajá soube do relacionamento, mandou matar o escravo. Assim, o marajá mandou construir um consolo na forma do pênis de seu amado. Além de usar o consolo, ele também ganhou uma enorme flexibilidade que lhe permitia praticar a autofelação.

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E assim começa a aventura de Siri, até descobrir que pode, sim, conseguir prazer com outras pessoas, para além da masturbação. A HQ tem suas partes loucas, piradas, conscientes e educativas. mas também tem partes hilárias que eu gargalhei muitas e muitas vezes ao ler o quadrinho. Conheci a lovelove6 também na Bienal de Quadrinhos de Curitiba e ela é muito querida e legal.

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É muito bom saber que no Brasil são produzidos bons quadrinhos. Mas é muito melhor saber que são produzidos também quadrinhos de contracultura como esses, que arejam a cabeça das pessoas que acham que a masturbação – feminina ou masculina – seja um tabu ou um pecado. Não deixa ninguém cego, não cria pelo na mão e, apesar do que o livro diz e muitos apregoam, não deixa ninguém dependente. Senão, sexo também deixaria. E alguns padres, algumas freiras, alguns sacerdotes de religiões desconhecidas, os “preferi esperar” e as tiazonas encalhadas já estariam mortos. Palmas para a lovelove6, para os quadrinhos brasileiros e para as pessoas que falam de sexo abertamente e não transformam tudo num bicho de sete cabeças nas cabeças dos outros.

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por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Possui o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

4 comentários

  1. boa, amigo. gosto dos seus textos sobre gibis Marvel e DC, mas mais legal ainda é ver o espaço que você abre pra analisar quadrinhos independentes brasileiros, ainda mais como o Garota Siririca, que mesmo entre as obras da cena não é das mais populares. Espero que o site continue mantendo essa linha!

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    • Guilherme Smee diz

      Valeu V! Sempre que surge a oportunidade estou falando sobre os indies também. Pois a maior força dos quadrinhos está neles. É lá onde começa tudo. Pena que Marvel e DC tenham mais audiência, então a gente fica meio preso a eles. Abraços e valeu pelos elogios!

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  2. Pingback: Melhores e Piores Leituras de Setembro de 2016 – Splash Pages

  3. Pingback: Os Melhores Quadrinhos Brasileiros Que Li em 2016 | Splash Pages

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