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Eu Odeio Quando Noticiam Que Um Personagem É Queer

Calma! Este não é um artigo de ódio contra os LGBTs, não. É apenas uma constatação sobre uma expressão que está virando moda no mundo da internet. E isso está afetando também os quadrinhos como uma forma de suavizar as mudanças de personagens LGBTs.

Pra começar queria chamar a atenção de vocês para duas notícias que saíram na mídia internacional. A primeira era a que Greg Rucka, o atual escritor da Mulher-Maravilha afirmar que ela era queer. A segunda, um review da revista Superwoman #3, por Phil Jimenez, que revela que Natasha Irons, a sobrinha do super-herói Aço, também era queer.

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Ao que podemos ver nesta página do lindo quadrinho de Alison Bechdel, Fun Home, queer significa “uma coisa que sai do normal ou do usual”. Mas o termo queer vem da Teoria Queer, que é muito usada nas pesquisas de humanidades, ao mesmo tempo que temos a Teoria Feminista, temos a Marxista e a Psicanalítica. Enquanto usado para definir uma teoria, ou ainda um grupo de pessoas, como por exemplo o termo LGBT (que está virando a sopa de letrinhas LGBTQI, onde o Q é queer), eu acho legal. Entretanto no momento em que se classifica alguém ou algum personagem como queer, realmente me causa indignação.

quenatasha

Taxar um personagem ou uma pessoa como queer é sair pela tangente. É ficar em cima do muro. É tornar invisível o que deveria ser mostrado. Afinal, se a Mulher-Maravilha se relaciona com mulheres e com homens, logo ela é bissexual. O mesmo vale para Natasha Irons. A palavra bissexual causa tanto medo nos articulistas que eles e elas preferem recorrer a uma palavra amena?

Este artigo no Medium fala que a palavra queer pode soar ambígua demais. E explica como o uso da queerness pode estar apagando a bissexualidade. Mas diferente do que a articulista diz, não é o termo bissexual que parece apolítico, evasivo, songo-mongo, binário e como uma desculpa para escapar da gayzice, mas sim se  identificar como queer que acaba desfazendo a luta e a identidade de cada letra do enorme LGBTQI. E uso a mesma citação que ela usou para justificar:

“Nós vivemos num mundo onde é mais fácil optar entre branco e preto, entre um ou outro, entre o binário. Mas verdade é que não foi assim que Deus nos criou. Nós somos muito mais complexos do que isso. A criação de Deus não é nem um pouco próxima do binário. Você pode parar com seus pés na areia mole da praias, as ondas quebrando ao redor dos seus pés, a maré subindo ou descendo, e desenhar honestamente uma linha entre o mar e a terra seca?”

Ser bissexual não é ser binário e ser queer não é abarcar todos os elementos do LGBTQI. Os bissexuais acabam sendo um nicho invisível e com mais preconceito que os gays, lésbicas e transgêneros, pois estes últimos acham que são baseados na indefinição. Quando na verdade são abertos a amar e se relacionar com todo o tipo de gente.

quecaptbiConforme este artigo baseado em uma pesquisa do The Movement Advancement Project ( MAP ), “Os Bissexuais são geralmente varridos da comunidade de gays, lésbicas e bissexuais, pois as suas disparidades específicas os transformam em dados inexistentes dentro da comunidade LGB. A sexualidade das pessoas bissexuais é ainda mais invisível na sociedade ‘aberta’; as pessoas bissexuais acabam sendo contadas como gays, lésbicas ou heterossexuais de acordo com o gênero de seu ou sua parceiro(a). Ainda assim, quando as pessoas bissexuais se abrem sobre sua sexualidade, ela sofrem níveis incríveis de violência vindos de seus parceiros; rejeição da comunidade, família e dos seus pares; e ceticismo por parte de pessoas e organizações que se voltam a ajudá-los com recursos e serviços”.

Eu mesmo já senti esse preconceito na pele. Geralmente quando falo que fico com meninos e meninas para as pessoas, elas já me olham com cara de safadeza. Migos, eu não faço surubas homéricas com 20 pessoas ao mesmo tempo. Eu fico ora com homens, ora com mulheres. As surubas homéricas, talvez, se encaixassem no poliamor. Mas deve ser complicado namorar 20 pessoas ao mesmo tempo, né? Por isso, essa ascensão da palavra queer para definir pessoas e até mesmo personagens é um erro. Um erro que invisibiliza e marginaliza ainda mais as discrepâncias que apenas desunem o movimento LGBTQI, e/ou queer, que já é desunido e cheio de guetos dentro do gueto em sua essência. Jornalistas, por favor, não usem a palavra queer para definir alguém. É um desserviço à fé cristã… opa, ao movimento queer.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

4 comentários

  1. A primeira vez que ouvi o termo “Queer” foi no Estação Plural, aquele programa incrível da TV Brasil (já viram? sério, assistam). De lá pra cá ainda não formei uma opinião, mas são textos como esses que me fazem refletir sobre os riscos da invisibilidade social no combate por igualdade de direitos civis. Resumindo, parabéns! Precisamos mesmo falar mais sobre bissexualidade.

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    • Guilherme Smee diz

      Valeu, Cristiano! A primeira vez que ouvi foi no Fun Home da Alison Bechdel e entendi o grupo Queer Nerds do orkut! Hahaha! Abs!

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