Como e Quando Julgar um Quadrinho?

Sempre odiei o fato de que nas redes sociais existe gente que diz apenas “gosto” e “não gosto”, para um quadrinho, para uma série, para um filme, simplesmente “porque sim” ou “porque não”. A pessoa não vai além da superfície e não pesquisa o contexto que aquela produção foi concebida. As artes e seus produtos derivados para a sociedade de consumo são muito mais complexos e muito menos definitivos que um sim e um não alheios e aleatórios, como se dependessem da aprovação do tal “especialista em tudo” para existir.

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Você não vai com a minha cara?

Estava lendo essa semana o livro “O Que é Arte?”, de Jorge Coli, da famosa Coleção Princípios para a prova de reingresso no curso de graduação de História da Arte na UFRGS. Achei o texto tão iluminador que decidi compartilhar alguns trechos aqui neste artigo. Sobre essa difícil questão de gosto, que levanta tantas polêmicas entre todos nós, apreciadores da arte comercial, quando é lançado um filme novo, um novo livro, é lançado um quadrinho ou uma série, Jorge Coli fala o seguinte:

“Os discursos sobre as artes parecem, com freqüência, ter a nostalgia, o rigor científico, a vontade de atingir uma objetividade de análise que lhes garanta as conclusões. E na história do discurso, na história da crítica, na história da história da arte, constantemente encontramos esforços para atingir algumas bases sólidas sobre as quais se possa apoiar uma construção rigorosa”.

Um dos primeiros pontos é definir se uma obra tem estilo. Conhecer e entender um tipo de arte é saber reconhecer os estilos de seus autores, assim conhecemos suficientemente um produtor de arte. As repetições nas obras de determinado artista vão além do objeto analisado. Por exemplo, o roteirista de quadrinhos Alan Moore gosta de inserir cenas de estupro em seus quadrinhos. É difícil encontrar uma obra dele que não tenha esse elemento. Além disso, Moore gosta de referências rebuscadas que quase sempre extrapolam o universo dos quadrinhos ou se inter relacionam com ele. Um bom exemplo disso é a sua A Liga Extraordinária, em parceria com o desenhista Kevin O’Neill.

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Odeio gente que copia, tipo eu!

Um Crítico de arte com C maiúsculo, e não um crítico de redes sociais, tem como função analisar as obras e selecioná-las dizendo o que merece um lugar ao Sol e o que não. Ele funciona como um juiz de reality show e valoriza ou desvaloriza o objeto artístico. Já um Historiador da Arte tem o papel de auxiliar o crítico que há dentro de cada um de nós a chegar a uma decisão sobre a arte em questão, apresentando seu contexto, suas especificidades, sem nunca atribuir um juízo de valor.

Mas mesmo para ser um Crítico com C maiúsculo, se faz necessário analisar a relação arte-cultura. Ou seja, a compreensão da cultura que o produziu. Assim se torna transparente que super-heróis criados por estadunidenses – seu local de criação e difusão primário – e com características americanas, funcionam melhor do que super-heróis brasileiros com características tupiniquins.

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Insira uma legenda

Os próprios super-heróis, se analisados por certa ótica podem ser considerados como objetos de arte. Eles são uma presença que nós, em nossa cultura, sabemos, pela primeira vez, detectar e nomear. São, segundo o crítico André Malraulx, os objetos artísticos que ultrapassam a história e as sociedades que os engendraram. Mesmo não sendo elementos táteis, os super-heróis se difundiram artística e globalmente dentro das revistas em quadrinhos.
Quando o artista ligado ao movimento dadaísta Marcel Duschamp apresentou um mictório como obra de arte, ele começou a questionar e a criticar o nosso sentido arbitrário de arte, mostrando que produtos “ready-made” também poderiam ser arte. Dessa forma, qualquer objeto aceito como arte, torna-se artístico. Enquanto na Idade Média e no Modernismo, os objetos de arte eram acessíveis a apenas uma elite, que encomendava e sustentava os artistas, agora disponíveis e ao alcance de nossa percepção, os objetos artísticos mudaram ou modificaram seus estatutos, funções, sentidos.

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O mictório, de Marcel Duschamp, no Louvre.

Um exemplo são as revistas em quadrinhos, que já foram associadas à Pop Art de Andy Warhol e Roy Liechestein (que usava quadros dos quadrinhos para fazer suas pinturas). O próprio Stan Lee usou o selo PopArt nas suas revistas da Marvel Comics, para mostrar que aqueles quadrinhos representavam uma vanguarda sobre o que já tinha sido feito até então em matéria de arte-consumo. Em seu livro, Jorge Coli aponta Stan Lee como um artista, para seu espanto:

“Para me distrair um pouco, discretamente tomo emprestada do meu irmãozinho uma revista em quadrinhos de terror. Mais tarde, visitei um amigo intelectual que possui magnífica biblioteca, e nela encontrei uma suntuosa edição italiana consagrada a Stan Lee, reproduzindo a mesma história em quadrinhos que eu havia lido há pouco num gibizinho barato. Meu amigo me ensina que Stan Lee é um grande artista e, por sinal, a introdução, elaborada por um professor da Universidade de Milão, confirma seus dizeres. Eu nem imaginava que uma história em quadrinhos pudesse ter autor, quanto mais que esse autor pudesse ser chamado artista e sua produção, obra de arte”.

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O POPART nas capas da Marvel

Esse estratagema que Stan Lee fez ao associar seus quadrinhos – um produto comercial, reproduzido milhares de vezes, passado de mão em mão – com a arte vanguardista, é um artifício usado também no campo das artes, na hora de trazer novidades à tona. O colecionador – seja de artes ou de quadrinhos, ou de blu-rays –  tem que ser estimulado para novas compras — as fases, os movimentos novos existem para atraí-lo.

“Mas não se pode esquecer que esse sistema, matreiro, cobiçoso, por vezes desprezível e nos limites da desonestidade, alimenta e faz a pintura contemporânea sobreviver com grande vigor”, explica Coli, “Artistas de incontestável qualidade existiram, existem e existirão graças a ele”.

Ora, o poderio da Igreja Católica nas nossas existências nos dias atuais só foi possível graças à sua disseminação através da arte sacra. A arte não é tão nobre quando se pára para analisar. Ela serviu à ideologia do nazismo, tendo o ministro da propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, realizado incríveis documentários cinematográficos. Então, não podemos nos revoltar quando os quadrinhos e suas adaptações para a tela do cinema ou da televisão seguem os preceitos de estúdios como Disney e Warner e não são “fiéis à pureza dos personagens”.

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“O Triunfo da Vontade”, documentário nazista feito para o ministro da propaganda alemã Joseph Goebbels.

Quadrinhos, cinema, séries de televisão são, aparentemente, arte. Podem parecer “alienação” num primeiro momento, pelo prazer e a evasão que provocam. Entretanto, conforme elaboramos julgamentos de gosto e procuramos encontrar um sentido e uma razão para nossas críticas, tudo isso vai transformando nossa sensibilidade. Por consequência, acaba transformando nossa relação com o mundo que nos cerca.

O poeta T. S. Eliot escreveu em um dos seus ensaios sobre a poesia, que a arte é “algo que eu não podia formular e que no entanto sentia compreender”. E mesmo para aquilo que sabemos formular, às vezes, ao assistir algo na TV ou cinema ou ler algo em um livro ou gibi, acaba criando novos sentidos para sentimentos ou sentidos velhos conhecidos nossos. Construir um mundo cheio de ambiguidades, é a riqueza da arte. Assim, fica muito mais difícil declarar apenas “gostei” ou “não gostei” para algum produto da indústria cultural.


Publicado originalmente na Revista TRENDR do Medium.com: https://trendr.com.br/arte-o-indizivel-compreensivel-f53972cb8e39#.lsw1qc3d3 

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