Um Vilão Gay Não É Um Grande Passo na Representatividade, Não!

Essa semana ficamos sabendo, através dos episódios da série de TV, Gotham, que o personagem Pingüim, um dos vilões mais clássicos do Batman está apaixonado por outro super vilão clássico, o Charada. Dizem os produtores da série que queriam criar polêmica e adicionar diversidade à série, mas, caros leitores, supervilões gays não adicionam em nada para a representatividade.

Para começar, queria explicar que o primeiro personagem gay dos quadrinhos americanos foi a Madame Fatal, criada nos anos 30. Ele era um supervilão que se fantasiava de velhinha inocente para assaltar suas vítimas. Embora não possa ser classificado como gay, era um ser kinky para não dizer queer. Os vilões do 007, James Bond, sempre tiveram algum defeito. Se não no rosto, em seu comportamento. Alguns deles eram gays. Esse caminho se seguiu com os vilões de Dick Tracy, que sempre tinham o rosto achatado, perfurado, com pústulas.

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Durante a história da literatura, muitos foram os casos de grandes vilões das novelas terem esse “desvio de comportamento”, arraigando um preconceito ainda maior com os homossexuais. Na série de TV, Law & Order SVU, é impossível não encontrar entre um episódio e outro, vários criminosos que possuem atração pelo mesmo sexo e que os leva a cometer crimes. Mas não precisamos ir longe até os Estados Unidos para confirmar essa afirmação. A novela Amor À Vida, de Walcyr Carrasco, apresentou o personagem Félix, interpretado por Mateus Solano. O personagem era tão cruel e inescrupuloso que foi chamado de Félix Bicha Má, e virou meme na internet.

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Exemplos assim não são positivos e nem geram diversidade. Apenas reforçam os estereótipos veiculados nas novelas da Rede Globo de que os gays  são venenosos e desrespeitosos. Gays supervilões são o pior exemplo de personagem que poderia existir em termos de representatividade. Justificar a existência deles com essa motivação é cometer um erro tremendo. Walcyr Carrasco justificou a criação de seu personagem Félix da seguinte maneira: “Alguém que não é aceito, que se sente diferente desde criança, nem sempre se torna uma vítima. Mas pode se transformar em algoz.”.

Isso pode explicar porque muita vezes os gays são mais ácidos com as pessoas. Gato escaldado tem medo de água fria. Quem sempre leva pedrada, acaba criando uma crosta que a protege da violência do mundo. A ousadia e o orgulho gays são uma maneira que criamos para “sambar na cara da sociedade” que sempre nos diminui e nos transforma em abjetos vilões de novela das oito. Mas tratar as pessoas que nos desprezam com o mesmo desdém não quer dizer que alguém é vilão. Ou supervilão.

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Caracterizar vilões originários de uma mídia em gays quando são adaptados para outra não é mesma coisa que transformar o Tocha Humana do Quarteto Fantástico em negro, ou ainda, o Ancião do Doutor Estranho em mulher. O terreno que a série Gotham está trilhando é muito mais pantanoso que pode se pensar em um primeiro momento.

Talvez você não saiba, mas até os anos 60, a homossexualidade era chamada de homossexualismo, com o sufixo -ismo significando doença. As pessoas “acometidas desse mal”, eram, até o século XIX curadas com furos no cérebro. Os supervilões geralmente, e principalmente os do Batman, são taxados como doentes mentais – um preconceito ainda mais difícil de ser vencido nos dias atuais. Ao associar um supervilão com perturbações mentais à homossexualidade é um perigo imenso e uma motivação a mais para que crimes de ódio possam ser praticados.

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Não estou dizendo que não deva existir supervilão gay. Claro, depende da maneira como ele é trabalhado. O Flautista, do Flash, é um ótimo exemplo de vilão gay bem trabalhado. Se não usarem a homossexualidade como desculpa para que o personagem cometa seus crimes, como é feito em SVU, isso seria interessante. mas parece que os roteiristas de Hollywood e das duas grandes editoras de quadrinhos só sabem associar homossexualidade a um desvio comportamental que vai muito além da atração pelo mesmo sexo. Afinal, né, se a pessoa tem a ousadia de amar um indivíduo do mesmo sexo, qual vai ser seu próximo passo? Roubar bancos? Sequestrar a Xuxa? Cometer um genocídio na Califórnia? Praticar orgia com extraterrestres? Pense um pouco sobre isso.

6 comentários sobre “Um Vilão Gay Não É Um Grande Passo na Representatividade, Não!

  1. Belo texto Guilherme, ainda quero escrever como vc, aborda o assunto de uma forma esplendida, sem contar no tanto de informação que vc coloca em seus textos. Quanto ao assunto, eu ainda estou tentando processar de onde tiraram isso de o pinguim ser gay, jogar algo assim só para tentar ter representatividade não faz nenhum sentido. Eu gosto muito de personagens homossexuais, alias, dois dos meus personagens preferidos são (Apolo e Meia-Noite).

    “Exemplos assim não são positivos e nem geram diversidade.” É exatamente isso, não há mais o que falar.

    Abraço!

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  2. Bom dia!
    Discordo, creio que mostrar gays bonzinhos e de plástico o tempo todo só gera mais discriminação. Não sou bonzinho e de plástico, por essas e outras o garçom acha que pode me cobrar mais caro ou deixar de dar o troco. Ser tachado de otário também é complicado.

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    1. Ueh, eu sou bonzinho e de plástico… u.u #sqn É verdade Rodrigo, eu mudei a minha opinião desde que escrevi esse post. Não radicalmente para discordar totalmente, mas parcialmente. Devem existir todos os tipos de gays nos quadrinhos e não só os lindos e bombados – barbies da buatchy. Nem só os heroicos e abnegados e também não só as bichas más falsianes. E também gays feitos de plástico! Grant Morrison adoraria! Abraços e obrigado por discordar educadamente! =)

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