Personagens de Quadrinhos Podem Ser Sexualizados SIM!

A polêmica da semana foi a comission da Mulher-Aranha que o quadrinista erótico italiano Milo Manara fez para o polêmico desenhista americano Frank Cho. Uma ilustração que, conforme você pode ver, destacava elemento da super-heroína que geralmente não são mostrados. Isso levantou uma discussão de que personagem de quadrinhos não devem ser sexualizados. Eu acho que podem sim. E aqui digo a razão.

chochoMANARA x CHO

Em primeiro lugar precisamos compreender o contexto. Contexto, como se sabe, é tudo. Milo Manara vem da escola européia, foi um dos pioneiros do erotismo nos quadrinhos italianos nos anos 70 e 80, respaldado pela Barbarella de Jean-Claude Forest e inspirado pela Valentina de Guido Crepax. É famoso pela série erótica O Click, em que, com o apertar de um botão, a protagonista atinge o orgasmo. Em 2014 Manara foi chamado para fazer capas das heroínas da Marvel – antes disso ele desenhou a série X-Men: Garotas em Fuga, com roteiro de Chris Claremont. Chamar Manara para fazer esse trabalho foi um grande erro editorial, como eu já discuti nesse link. O problema não está em Manara e seu estilo, mas nos editores da Marvel chamarem o artista para compor uma capa de seus produtos como porta de entrada para novos leitores e leitores novos.

chorun

Frank Cho sempre fez sucesso com suas mulheres voluptuosas, tendo iniciado seu trabalho na tirinha Liberty Meadows, em que a protagonista da série era uma mulher bem fornida de atributos. Depois de fazer algumas capas para a Marvel e DC Comics, ele causou estertores quando foi chamado para escrever e desenhar uma minissérie da Shanna, a Mulher-Demônio, em que autor e editora prometiam que a personagem apareceria nua em pêlo. Não foi o caso. Mais para frente, Cho mudou seu estilo, se aproximando mais de Paolo Eleuteri Serpieri, o criador de Druuna, e fez algumas capas que destacavam as bundas das personagens Mary Jane e Feiticeira Escarlate, mas ambas foram censuradas pela Marvel. Com o tempo, e depois de tantas censuras, Cho começou a produzir comissions em que, além de fazer personagens de quadrinhos com grandes atributos, também fazia-as falando ofensas e impropérios para as mulheres e para o movimento feminista.

Como você pode ver há uma diferença de posicionamentos. Enquanto Manara, apesar dos posições em que retrata suas mulheres, não exagera em suas medidas e busca o erótico em primeiro lugar, Cho parte para as ofensas e realça seios e traseiros das mulheres apelando para o lado pornográfico da coisa. E sim, existe diferença entre o erótico e o pornográfico.


ADEQUAÇÃO (CAPAS X FANARTS)

Em meio a essa polêmica essa semana, fui excluído de um grupo do facebook  por defender Milo Manara. Eu acho que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Sendo radical dessa maneira, não vai estar se comportando melhor do que alguém que xinga mulheres de feminazis. É preciso ouvir as opiniões, principalmente aquelas que não chegam chutando a porta e ofendendo todo mundo. Mas, ok, o que eu posso fazer? Era um bom grupo.

choshanninha

Mas vamos falar de adequação. Essa é uma palavra que aprendemos durante a faculdade de Publicidade na cadeia de Mídia. Ou seja, você deve anunciar determinados produtos em determinados veículos, para que eles façam sentido para os consumidores. Ninguém vai anunciar Bom Bril na revista da Joyce Pascovich, por exemplo. Da mesma forma, ninguém vai colocar na capa de uma revista em quadrinhos de super-heróis dois super heróis fazendo sexo oral. A escolha de Manara para as capas da Marvel, e a aprovação das mesmas, foi um erro de adequação. Essa não é a proposta da Marvel. Não faz parte da sua missão, da sua visão ou dos seus valores. Se fosse uma revista da Vampirella ou da Lady Death, poderia passar despercebido.

chodeth

Isso, entretanto, não impede que super-heróis e super-heroínas sejam sexualizados, ainda mais em tempos de internet em que o erótico e o pornográfico pulam na nossa frente como janelas pop-up. Existe uma lista de regras da internet, e uma delas, a regra 34, expõe que tudo que foi criado no mundo é passível de uma versão pornográfica enquanto na internet. Não vejo nenhum problema quando pessoas fantasiam sexualmente com heróis e heroínas e façam shipps deles (aqui e aqui), é saudável – e não doente e sujo como algumas pessoas puritanas pensem – e, para isso produzam fanarts e lindas artes com heróis nus ou praticando sexo. As Tijuana Bibles estão aí desde o começo dos quadrinhos para comprovar isso. O problema seria se algum dia víssemos isso sendo comercializado para crianças pelos grandes conglomerados de entretenimento. Por exemplo: imagine se o Mauricio de Sousa e seu estúdio produzissem uma Graphic MSP erótica da Tina. Isso é errado e inadequado – no sentido comercial de adequação.


MUDANÇA DE PÚBLICO

Outro fator que deve ser levado em consideração quando se trata de super-heróis é que seu público mudou. Ele não é mais formado apenas de crianças e adolescentes. A sua maioria são pessoas que estão na idade universitária para cima. Crianças e adolescentes não costumam consumir quadrinhos, mas filmes e animações. Ao passo que esse consumo de super-heróis por um público essencialmente adulto, leva a variações desviantes, como eram as Tijuanas Bibles no começo do século XX.

No novo milênio, a onda é filmes pornográficos de super-heróis, que tem se tornado uma mina de ouro para produtoras de filmes do gênero como a Vivid, que faz filmes pornõs heteros. Mesmo as produtoras de filmes gays, já tem um filão para esse tipo de consumo. A MEN.com já criou uma marca guarda-chuva para suas produções que contam com porn parodies de heróis como Capitão América, X-Men, Pokémon e Flash. Se isso não é um sinal de mudança de público e de que essas demandas devem ser respeitadas, eu não sei o que é. Sinceramente, querer bloquear heróis ou heroínas de serem sexualizados por adultos demonstra uma enorme frigidez.

Entretanto outra coisa é se comportar como Frank Cho e ser chauvinista e misógino com as mulheres, pregando mensagens de ódio pela internet e nas suas artes. O sexo existe para ser celebrado, comemorado e praticado nas suas diferentes formas e apresentações. Estabelecer uma relação de superioridade – e aqui essa superioridade se explicita no sentido de orgulho e arrogância – sobre um gênero, apenas demonstra a fragilidade do produtor em lidar com o tema. Mostra a fraqueza de um homem, no caso Frank Cho, ou de homens que os apoiam em lidar com mulheres fortes e numa vontade de demonizar as mulheres que vem desde os tempos bíblicos, passando pela caça às bruxas, chegando ao machismo atual. Oprimindo ainda mais um gênero que muitas vezes têm se provado superior aos que se dizem grandes espécimes de machos alfas.

E para citar um exemplo de mulher forte e que peita críticas de frente, deixamos vocês com a resposta da desenhista gaúcha, Ana Luiza Koehler, que faz trabalhos para o mercado franco-belga, para encerrar a polêmica Frank Cho e Milo Manara, ou a #macho.

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14 Comments

  1. Bom texto, complexo, bem complexo.
    Eu acredito que tudo tem hora e lugar. No X-women do Manara na verdade eu fiquei até decepcionada porque eu queria sexo e muito sexo.
    Todavia eu acho, algumas, críticas das feministas válidas sobre retatação do corpo e objetivicação.
    Sempre tive uma variedade boas de corpos masculinos, nem todos galãs gostosos, mas as mulheres praticamente todas possuem corpos de atrizes pornôs. Poxa, os heróis tem corpo atléticos, mas quando eu terei a heróina com corpo atlético, e o que não falta são mulheres atletas lindas.
    Eu gostava de videogame, e amava fighting games, cara reparem no casting de personagnes femininas de King of Fighters, você tem uma gostosa peituda tipo a Mai, sim, mas você tem uma mulher com corpo andrógino, King, magrela alta sem peito, Vanessa, e assim vai. Os comics não, é só gostosonas e em poses que para punheta.

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    1. Quadrinhos não são pra representar pessoas normais, os quadrinhos são uma idealização, se pegar na fonte é a ideia dos quadrinhos lá com Superman, Mulher Maravilha, o auge físico do homem e da mulher, e todos os super heróis seguiram assim, pois eles são superhumanos, agora personagens comuns que compõe a história, tem vários tanto femininos quanto masculinos com corpos normais, é isso que até hoje pelo visto as pessoas não entenderam, já jogos e animes, coisas de oriental em geral, eles tem esse conceito de representar pessoas de verdade, e os poderes geralmente não estão tão atrelados a forma física dos personagens, questão de estilo, se todo mundo ficar chorando pq quer ser representado, vai ter que lançar um Superman magricela, pra representar os homens que tem corpo mirado e por aí vai, não da pra notar como esse pedido de representação é tolo, passa mais sobre o psicológico de quem pede esse tipo de coisa, do que sobre a arte em si, pessoas com personalidade fraca, baixa estima, carência e etc… Não da pra esperar que personagens que são artistas marciais, acrobatas, atletas profissionais, contorcionistas, sem mencionar semi-deusas com a dádiva da beleza dada por Vênus, tenham corpos de pessoas normais.

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      1. Quero um herói ticudo! Pode? Isso nunca teve, vamos criar? E Superman magrinho já teve: o do Flashpoint! Abs!

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  2. Frank Cho apenas contra atacou, se não ficassem perturbando ele, e fazendo lobby pra censurar a arte dele, ele não teria agido dessa forma, toda ação tem uma reação, o cara está lá fazendo o trabalho dele, desenha mulheres voluptuosas pq existe demanda pra esse tipo de arte, aí vem um monte de gente mala e começa a atrapalhar o cara, por causa dessa palhaçada quantos contratos e dinheiro o cara não perdeu? Um desenhista como ele, não fosse a hipocrisia, puritanismo e moralismo de quem não tem moral, estaria chovendo contratos pra ele, já que tornaram a vida do cara mais dificil, não vejo nada de anormal na reação dele.

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    1. Um pouco sim, um pouco não. Vamos dizer que a reação dele foi um tanto exagerada, e bem, recebeu a resposta nos mesmos termos. Abs!

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  3. Bela resenha , é como você falou “existe diferença entre o erótico e o pornográfico.” . Eu sou muito fã do Milo Manara e quando escolheram ele para a capa da Marvel eu sabia que foi um erro dos editores, não do Milo , afinal ele iria fazer o que ele sempre fez : Sensualizar . E até onde li ele , ele sempre tratou com muito respeito as mulheres e usava o erotismo para criticar esse padrão higienizado que as pessoas levam a vida;

    Eu não conhecia esse Cho e valeu por apresentar , parece que ele precisa de atenção e se algumas mulheres se incomodam com a arte dele então é elas o problema e precisamos desrespeita-las.

    Infelizmente a internet é assim :/

    PS: Agora quando eu precisar explicar sobre esse caso do tio Milo vou linkar esse post hehe

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  4. Cara, é um interessante texto, você se abre a um discussão mas você peca em alguns termos como:
    Erótico x Pornográfico
    Sensualizar x Sexualizar.
    Existe problema sim em sexualizar, transforma o personagem em apenas um material para vender, como a ultima capa do novo titulo do homem de ferro, que tem uma garota de 15 anos sexualizada, que ainda nao é uma falha do desenhista e sim dos diretores de arte, pois isso é uma discussão que deveria ter acontecido na formulação da personagem que mesmo nao sexualizada voce nao identifica em nenhuma arte uma garota de 15 anos e a capa continua sendo um erro dos editores, o artista segue um roteiro, tem sua fama pelo seu traço e marca registrada o estúdio não escolheu aleatoriamente o artista, os diretores de arte tem total culpa nisso. Defendo que Milo não teve total culpa na capa com mulher aranha, uma que ele apenas seguiu um roteiro aprovado pela Marvel como comentei a cima e outra que ele sabe desenhar mulheres de qualquer maneira possível, então a capa nao foi cancela pq os diretores de arte nao quiseram. O Manara sensualiza seus personagem em total contexto a sua arte se casa com roteiro e situação, ao contrario do Cho que apenas sexualiza sem contexto nenhum com a desculpa que esta “parodiando” o Milo, eis a diferença de uma história eróticas para uma pornográfica.

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    1. Pois é, mas não acho que me perdi nos termos, hehe! Quanto à RiRi Williams, a gente conhece tão pouco da personagem que ainda não posso julgar. Mas sim, os editores tem uma enorme parcela de culpa e não só na caracterização dos personagens seja por um desenhista ou roteirista, como na coesão e na coerência das histórias dentro do enorme universo que são as duas grandes editoras de quadrinhos de super-heróis. Cho é um idiota. Um baita artista, mas um idiota, como muitos inclusive da cena nacional. fazer o quê, né? A gente compra o desenho, não a pessoa, graças a Deus. Abs!

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  5. “A escolha de Manara para as capas da Marvel, e a aprovação das mesmas, foi um erro de adequação. Essa não é a proposta da Marvel. Não faz parte da sua missão, da sua visão ou dos seus valores. ” Concordo, mas pessoalmente acho que isso dá a entender que a sexualização das personagens aconteceu como um caso isolado nessa capa, o que não é verdade. A gente vê aquilo em comics da Supergirl, Aves de Rapina, X-Men, etc.
    E ainda, existe uma grande diferença entre sensualizar uma personagem de forma que essa seja uma característica (como Hera Venenosa, por exemplo) e sexualizar, ou seja, transformar uma figura feminina em mero produto visual. Eu não tenho problema nenhum com uma personagem que use roupa curta, desde que exista um motivo para tal. O problema existe quando o traço que é dado a personagem é feito apenas pra tornar ela um produto sexual sem contexto. O problema é deixar o torço de uma personagem de uma forma erótica no meio de uma luta. O problema é marcar a virilha e dar traços adultos a uma personagem de 15 anos. O problema é dar traços eróticos a uma personagem que não a sensualidade como característica (como 90% das personagens femininas). Ser sexy nunca foi o problema.

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    1. Sim, Jenny, concordo! Certas coisas deveriam ser restringidas às fanarts e aos fanfics, que às vezes prestam o serviço de sensualizar e sexualizar muito melhor do que a pretensão da editoras. O problema mesmo, como você falou, é essa institucionalização do sexo nas Big Two e o pior, dando vasão apenas às fantasias masculinas heterossexuais. As editoras ainda não compreenderam como é vasto e diverso seu público. Abraços!

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