Como a Arte Moderna Foi Salva Pelo Pato Donald

Certamente você já deve ter visto as artes que estampam esse post. Elas pertencem a um movimento da arte moderna muito popular nos anos 60: a pop-art. Ela foi fundada por Andy Warhol, o cara que cunhou a frase “No futuro, todos terão os seus 15 minutos de fama!”. Outro ápice desta escola de arte foi Keith Haring, que fazia sua arte no metrô de Nova York. Mas nenhum deles se aproximou mais dos quadrinhos do que Roy Lichtenstein. E é dele e do seu trabalho que vamos falar agora.

gngpopartPara traçar um paralelo com os quadrinhos, em sua época, Roy Lichtenstein era visto como um vilão pelos seus colegas artistas e pelos estudiosos da arte. Muitos o acusavam de apenas fazer cópias, reproduções de quadros de histórias em quadrinhos. Diziam que ele não era original Ao mesmo tempo, que muitos artistas de quadrinhos reclamavam por terem seu trabalho copiado.

royromEra época da Batmania na televisão, por causa do seriado do Homem-Morcego na televisão. Os SOC, TUM e POFs estavam em voga. Roy cunhou um dos seus mais famosos quadros “WHAAM!” nesta época. Ao mesmo tempo, Stan Lee estampava selos de “este é um quadrinho pop-art” na capa das revistas da Marvel aproveitando a fama (ou a infâmia) de Lichtenstein.

A galeria Tate Modern, de Londres, foi a primeira a comprar um quadro do artista em 1966.

“Era difícil encontrar uma pintura que fosse desagradável o suficiente de forma que ninguém quisesse pendurar na parede. Todo mundo estava pendurando qualquer coisa. Era quase aceitável que alguém pendurasse uma pintura rasgada com tinta pingando, todos estavam acostumados com isso. A única coisa que todo mundo odiava era a arte comercial; aparentemente eles não odiavam as duas suficientemente”, explica Roy.

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Uma aceitação precoce da Pop-Art pode ser vista no editorial da revista SMASH! #79, de agosto de 1967:

“Todos os recentes quadrinhos (depois de anos de uma incrível negligência de alguns cabeças-de-ovo que acham que sabem demais) são coisas “IN”!! Você pode ver o que eles significam por todos os lados que olhe! O design feito na hora de pôsteres e anúncios, as páginas editoriais das grandes e grossas revistas… tudo isso mudou da noite pro dia para o estilo de arte dos quadrinhos e das ilustrações, do estilo de quadrinhos ao usarem os balões de fala para transmitir uma mensagem! E isso não é tudo! Renomados pintores da pop art encontraram suas inspirações tais quais os bons e velhos almanaques! A Tate Gallery (e você pode ter algo muito mais alta-cultura do que isso) adquiriu recentemente uma pintura caríssima do pintor Roy Lichtenstein chamada ‘WHAAM!’ que é baseada em um pedaço de uma tira de quadrinhos de aventura! È desse jeito que as coisa são hoje em dia! Todo mundo está na onda! Quadrinhos são DIVERTIDOS! Quadrinhos são ESTILOSOS! Quadrinhos são TENDÊNCIA! Nós sempre falamos isso há muito tempo, certo? Mas não é legal?… saber que nós estivemos espalhando tendências o tempo todo!”

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Tudo isso levou o crítico Alastair Sooke a escrever um ensaio, que foi publicado pela Penguin Books, que é intitulado como nosso post Roy Lichtenstein: How Modern Art Was Saved By Donald Duck (Como a Arte Moderna Foi Salva Pelo Pato Donald). Em sua introdução, nada a ver com o Pato Donald (mas para os civis que não entendem quadrinhos, Pato Donald é sinônimo de quadrinhos), Sooke diz que as revistas de guerra e de romance da DC Comics do começo dos anos 60 forneceram um grande material para que Lichtenstein fizesse suas pinturas. O crítico também afirma que as imagens dos gibis que Roy utilizou eram “lixaredo” e que o artista tinha transformado-as em exuberantes e empolgantes obras de arte. Sendo que o artista da pop art apenas copiou e remixou a arte de Irv Novick adicionando cores e onomatopéias que não estavam lá. Mas a essência continua a mesma. É dessa forma que os “cabeças-de-ovo da lata cultura”, como diz nossa citação acima tratam os quadrinhos e a arte. Enquanto um é “lixaredo”, o outro é “exuberante”. Porém são essencialmente a mesma imagem, guardadas as proporções.

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David Gibbons, co-criador de Watchmen, em uma entrevista para a BBC e a à Tate, deu a seguinte declaração enquanto discutia com Alastair Sooke sobre a importância ou não do trabalho de Roy Lichtenstein:

“Bem, eu acho que há um erro fundamental no que você está afirmando, e estaria no fato que os quadrinhos não tem nada a ver com uma imagem única, tem a ver com uma série de imagens e é a justaposição de uma imagem com outra que concede a eles poder. Isto [a obra do pintor] é como uma citação, é como se fossem três notas no meio de uma sinfonia”.  

Gibbons criou uma arte para parodiar o quadro mais famoso de Roy, que o quadrinista inglês batizou de “WHAAATT!”:

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O legado de Roy Lichtenstein foi que ele criou um estilo. Talvez não de arte, mas de design, que é a cópia da cópia. Outro dia mesmo eu estava vendo o Multishow e no programa de reforma de salão de beleza utilizaram o estilo pop-art para compor a decoração do salão. Claro que nem a pop-art, nem Roy Lichtenstein, muito menos Irv Novick foram citados no programa. E sim “vamos dar um ar bem pop para o seu salão!”.

Esta matéria foi adaptada de um artigo no blog de Paul Gravett.

EM TEMPO: O Rafael Barletta me passou o link do site Desconstruindo Roy Lichtenstein, que mostra de onde veio toda a “inspiração” do artista. São inúmeras obras calcadas nos quadrinhos.

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