Cavaleiro das Trevas: Uma História Real do Batman, de Paul Dini e Eduardo Risso

Nesta graphic novel, o aclamado escritor das revistas e do desenho do Batman, Paul Dini, conta como, com a ajuda do universo do Homem-Morcego, se recuperou depois de um brutal ataque que desfigurou seu rosto e seu corpo.

Cavaleiro das Trevas: Uma História Real do Batman conta uma história autobiográfica de Paul Dini, desenhista e animador da série do Batman que ficou famosa entre os anos de 1993 e 1996. Na história, é mostrado como Dini vivia em um mundo fora da realidade enquanto criança e como isso continuou enquanto adulto. Após sofrer um fracasso amoroso, ele perambulava à esmo em um parque, quando foi atacado por dois marginais, espancado brutalmente e assalto. A HQ mostra como ele se recuperou, segundo o autor, com a ajuda dos personagens do Universo do Batman.

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Nesta graphic novel vemos como Paul Dini sempre foi bastante panaca. Desculpem a palavra, mas é tudo que a história me faz concluir. O mundo e a realidade não gostam desse tipo de pessoa. Este não é o lugar para elas.  Paul Dini ficava esperando que a salvação venha dos céus cinzentos de Gotham e não que ele mesmo possa buscar ela ativamente. Conversando com personagens do universo do Batman enquanto sofria o pior ataque da sua vida. Isso é uma doença psicológica que não consegue distinguir a realidade da ficção. Às vezes, para as pessoas saírem desse sonambulismo escapista elas precisam tomar um soco bem forte da realidade. E foi o que aconteceu com Dini.

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Os vilões do Batman estavam certos. Infelizmente este mundo é deles. Neste mundo não há espaço para a imaginação, para o devaneio e para viver à parte. Não podemos viver imaginando que um Batman vai surgir e nos salvar de bandidos e vai evitar que morramos. Nós precisamos agir para mudar a realidade, trazer condições sociais para que foras-da-lei não se multipliquem e não existam mais. Não adianta encarcerar bandidos, não adianta matá-los. Lembre da Hidra: corte uma cabeça e duas tomarão o seu lugar. É preciso educar e fazer trabalhos contínuos nas comunidades que originam os marginais.

Claro que Dini, aqui, representa o americano médio. Se essa história se passasse no Brasil, nem ele teria tido atendimento psicológico na infância – que parece que não serviu para nada – e muito menos teria vivido tão distante da violenta realidade dos subúrbios quanto na história (quando ele estava enraivecido por uma mulher ter lhe dado o fora sem ele nem ter tentado ficar com ela). O primeiro reflexo do autor, como bom americano, foi ir comprar uma arma. Depois, foi treinar tiros. Ao mesmo tempo que o Batman – herói que jurou nunca usar armas – o incentivava com tipos de armas para usar.

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Muita coisa é explicada quando sabemos que Paul Dini é o criador da Arlequina. A Arlequina foi uma personagem criada no desenho do Batman dos anos 90, o mesmo que Dini ficou famoso por fazer. Lá, ela era um capacho do Coringa e, como o Tom, de Tom & Jerry, ou o Coiote, do Papa-Légua, ela sempre acabava se dando mal – geralmente prejudicada fisicamente e desprezada pelo Coringa. A razão? Arlequina não tomava as rédeas de sua vida. Ela era dependente do Coringa, ela era a macaquinha do circo do Coringa e fazia todas as suas vontades, não importando o quanto isso a machucasse. Dini sempre foi vítima de sua exacerbada imaginação, sendo levado por ela a fazer coisas que o machucassem. Buscando refúgio na imaginação, Dini negou a realidade e, como ele mesmo diz, se vitimizou, como se tivesse de, a todo momento, pedir desculpas ao mundo pela sua existência. Ele sabia que, se estava sendo castigado era porque merecia. Da mesma forma que a Arlequina.

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Eduardo Risso, entretanto, faz seu melhor trabalho de que tenho conhecimento. Ele não só emprega o seu famoso estilo com o chiaroscuro nessa graphic novel. Risso também dá uma dimensão aos seus desenhos pintados de uma maneira que eu nunca tinha visto. Ele usa cartum, ele usa hiperrrealidade e o seu traço trivial. E todos funcionam muito bem nessa história, que, como diz o título, é baseada num acontecimento real. Risso também faz incríveis novas versões e novos visuais para os vilões de Batman, que combinam muito com o teor da graphic novel.

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Entretanto, acho que em termos de mostrar uma história de superação de obstáculos, de lições de vida e da ajuda de personagens famosos para isso, esta graphic novel peca muito. Ainda mais se comparada com uma outra que veio muito antes, chamada É Um Pássaro…, que conta como o Superman ajudou Steven T. Seagle a lidar com o problema da doença hereditária da coréia de Huntington na sua família. Embora os desenhos de Teddy Kristiansen sejam diferentes dos de Eduardo Risso, a condução da história e das emoções que ela produz em nós são muito superiores a esta história de Dini. Ao mesmo tempo, o Superman – herói com que Steven não se identificava nem um pouco – é muito mais solar e engajante que o sombrio e depressivo Batman. Se você leu Cavaleiro das Trevas: Uma História Real do Batman e gostou, peço encarecidamente que vá atrás de É um Pássaro… e veja todo o potencial de uma história de superação real pode ser tocado com a ajuda da alegoria de um super-herói.

 

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