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A Marvel dos Anos 90 e a AIDS

Dezembro é o mês de conscientização e de combate à AIDS. O dia 1 de dezembro é o Dia Mundial de Combate a AIDS. A epidemia abalou o mundo no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Os quadrinhos, que sempre refletem a realidade, não deixaram esse assunto de fora. A Marvel abordou o assunto das mais diversas formas, algumas delas, bastante equivocadas. Mas nenhuma trouxe o assunto à baila tão exemplarmente como uma certa edição do Incrível Hulk.

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Quando eu era bem pequeno e ainda era um filho único, eu tinha uma companheira. Mas era alguém que só eu podia ver. É claro, era minha amiga imaginária. Ela se chamava Tinininha e eu me lembro de brincar com ela sobre a cama dos meus avós enquanto a cortina do quarto balançava e sol iluminava a nós dois. Essa é uma das primeiras lembranças que eu tenho da vida inteira. Mas, o tempo passou e eu fui crescendo, fazendo amiguinhos aqui e ali e me esqueci da Tinininha. Era por volta de 1986, e eu tinha dois anos, na TV alardes sobre uma doença contagiosa que saía matando pessoas a torto e a direito. Que criança não ia se assustar com aquilo? Então minha mãe reparou que há muito tempo eu não mencionava mais a Tinininha em nossas conversas. Ela perguntou:

− Gui, o que aconteceu com a Tinininha?

− Ela morreu, mãe!

− Mas, ela morreu? Mas morreu de quê?

− De AIDS!

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Se um doença assim causava esse tipo de reação em um a criança, o que dizer dos adultos? Como a Síndrome da Imunodeficiência começou a aparecer mais em homossexuais, logo a opinião pública começou a classificar a AIDS como o “câncer gay”. A geração do amor livre dos anos 70 e de Woodstock e o Verão do Amor começou a ser assombrada por uma praga invisível que não escolhe classe social, etnia e, saberia essa impiedosa opinião pública, também não escolhia orientação sexual. O preconceito com os gays nunca foi tão acirrado quanto na onda da paranóia com a AIDS, como se essa parcela da população fosse a culpada pela disseminação do vírus.

Sabe-se que uma das formas mais fáceis de disseminação do vírus HIV é através do sexo anal, devido às pequenas lacerações que podem ocorrer durante o ato. Entretanto essa não é uma prática exclusiva da população gay. O sexo vaginal pode ser tão arriscado quanto. Enquanto o sexo oral possui uma taxa de transmissão de 5%. Beijar alguém na boca rendem pouquíssimas chances de contrair a doença. A transmissão se dá através do sangue, ou seja, compartilhar seringas e transfusões de sangue também podem transmitir a AIDS. O vírus HIV morre depois de uma hora fora do organismo humano. Ninguém pega AIDS ao cumprimentar ou abraçar alguém que possua a doença.

aidcryDa mesma forma, pessoas diagnosticadas soropositivos, podem levar até 10 anos para apresentar sintomas. Um dos primeiros sintomas a ser reparado são manchas escuras na pele. Hoje em dia, o tratamento da AIDS está bastante avançado, mas ainda não existe uma cura. O Brasil é um dos países com maior população de portadores do vírus HIV e o único país no mundo em que o tratamento contra a AIDS é gratuito. A Síndrome da Imunodeficiência não é uma doença em si, mas um agravante que prejudica a produção de glóbulos brancos pelo sistema circulatório, o que deixa o organismo mais suscetível a doenças, como a pneumonia, por exemplo. Ninguém morre de AIDS, mas das complicações que a imunodeficiência pode trazer.

aidnorthstarBem, depois de tentar desmistificar um pouco a AIDS, vamos a parte que tange esse post: a relação da epidemia com os quadrinhos, mais precisamente, a Marvel. O primeiro a abordar esse tema foi o escritor Scott Lobdell, no ano de 1992,  em sua passagem pelo título da Tropa Alfa. Em uma história que era pra ser tocante, Jean-Paul Beaubier, o Estrela Polar, se assume gay após adotar uma bebê com o vírus HIV. Mas o tiro saiu pela culatra. Como falamos acima, a opinião pública estava tão convencida que os gays estavam intrinsecamente associados à AIDS que essa ligação era natural para um escritor de quadrinhos. 

O mesmo Scott Lobdell criou o Vírus Legado, uma analogia mutante ao vírus HIV durante a saga dos X-Men, A Canção do Carrasco. Lobdell estabeleceu que o Vírus Legado inicialmente afetaria apenas os mutantes, embora as formas de tramissão do mesmo nunca tenham ficado muito esclarecidas, mas aos poucos foi-se descobrindo que os humanos comuns também poderiam contrair a doença. Essa metáfora fazia um paralelo entre a situação dos mutantes nas revistas da Marvel e a dos gay no mundo real. Para saber mais sobre o Vírus Legado e outras analogias mutantes dos anos 90, clique aqui.

aidlegacyPelas mãos de Fabian Nicieza (um dos elaboradores do Vírus Legado) e o artista Pat Olliffe veio a revista Nomad #12 (inédita no Brasil), de 1993. Nela, o herói Nômade, ex-parceiro do Capitão América enfrenta uma gangue de homofóbicos que queria destruir uma clínica de tratamento contra a AIDS pois os vândalos acreditavam que os gays eram a origem da epidemia. Nesta edição Nômade e os super-heróis são galvanizados como defensores dos gays e combatentes da homofobia.

aidnomcoverNa edição seguinte, de número 13,  o Nômade enfrenta O Agulha, um criminoso serial que está infectando seus parceiros sexuais com uma injeção de um soro que contém o vírus HIV. Ao final da história, descobre-se, numa reviravolta, que Horseshoe, a namorada de Jack Monroe, o Nômade, é O Agulha e ela faz a filha de Jack, apelidada carinhosamente de Bucky, como refém, tentando injetar o HIV nela. As duas edições seguintes ainda tratam sobre HIV e homossexualidade, em que o Nômade precisa impedir que um jornal de fofocas tire do armário um senador americano. Nicieza faz um belo trabalho e talvez o mais extenso e completo sobre HIV e AIDS em um gibi de super-heróis americanos.

Mas foi em 1994 que uma história veio fazer jus às campanhas de conscientização e de sexo seguro. Intitulada “Para que as Trevas Não Sobrevenham”, a história era escrita por Peter David e desenhada por Gary Frank e foi publicada na revista The Incredible Hulk #420. O Hulk dessa vez se via indefeso contra um inimigo invisível e que não podia nem ao menos socar e esmagar. Tudo começa quando Jim Wilson, ex parceiro mirim contra o crime do Hulk e sobrinho do herói suburbano Falcão é atingido numa manifestação em uma escola que defendia a permanência de uma criança portadora de HIV nos estudos. Salvo pelo Hulk, Jim é levado ao laboratório do Panteão para estabilizar sua condição.

aidjimNas instalações do Panteão, Jim pede a Bruce Banner, o Hulk (que na época havia fundido suas personalidades e mantinha o corpo forte e verde a inteligência de um PhD) que faça uma transfusão de seu sangue irradiado pela bomba gama para seu corpo debilitado. O Hulk se lembra do acidente de carro que levou sua prima, Jennifer Walters para o hospital, a transfusão que fez para ela e sua subsequente transformação na Selvagem Mulher-Hulk. Temendo que Jim também se transforme em um monstro irracional, o Hulk nega a transfusão.

Enquanto isso, a mulher de Bruce, Betty Banner, está trabalhando em um CVV (Centro de Valorização da Vida), quando recebe uma ligação de um homem que diz ter sido diagnosticado soropositivo e que está decidido a tirar sua vida. Betty fica aflita para salvar aquela vida e passa a noite de plantão entre ligações e desistências do seu interlocutor. Ele tem muito medo do que as pessoas vão dizer dele, que pensarão que é gay. Aqui Peter David, sabiamente pontua a HQ com a opinião pública da época.

aid164No ginásio do Panteão, dois de seus integrantes treinam enquanto assistem na TV os tumultos causados na escola da criança com HIV. Heitor, que é gay, se revolta com a associação da AIDS aos gays. Ulisses, seu colega de trabalho, diz que também pudera pois os gays são promíscuos e vivem frequentando saunas. Então Heitor, cujo semblante foi inspirado no vocalista do Queen, Freddie Mercury, uma das vítimas da AIDS, desfere um soco certeiro em Ulisses afirmando que isso foi necessário pois argumentar com ele seria pura perda de tempo.

Hulk diz a Jim que resolveram fazer a transfusão de sangue, mas é um engodo entre ele e a doutora. Jim acaba descobrindo isso e, ao fazê-lo tem seus últimos suspiros de vida. Quando Hulk encontra Betty no CVV ela recebe a derradeira ligação do interlocutor. Ele estava se despedindo dela. Ao mencionar uma namorada, Betty implora para que ele diga o nome dela para que ela possa ser informada que está em situação de risco. Mas não temos tempo. Corta a cena e o carro do interlocutor está sobre uma ferrovia e o trem está se aproximando.

aiddieAo ler essa história, quase 20 anos depois, foi quase impossível eu não irromper em lágrimas. A maneira como David constrói a história, as situações e os personagens é muito comovente e correta. Em nenhum momento ele acusa essa ou aquela pessoa da situação em que se encontra. Ele apenas usa a opinião pública contra os sentimentos dos personagens que vivem a situação na pele, uma das marcas de estilo do escritor, que também tem a religião como um de seus temas recorrentes.

aidkarenEm 1999, na recém renovada revista do Demolidor pelo selo Marvel Knights, na época escrita pelo cineasta Kevin Smith e desenhada pelo chefão da Marvel, Joe Quesada, era apresentado o arco O Diabo da Guarda. Nele, o vilão Mystério manipulava Matt Murdock e seus amigos para fazer um grande ato final de sua carreira. Uma dessas manipulações foi falsificar um exame de HIV de Karen Page, a ex-namorada do Demolidor que se afundou nas drogas e na prostituição. Para manter seu vício em heroína, Karen chegou a vender a identidade secreta de Matt Murdock para o Rei do Crime na aclamada saga A Queda de Murdock, por Frank Miller e David Mazzucchelli.

Já em 2003, nas páginas de Uncanny X-Men #247, escrita por Chuck Austen e desenhada por Steve Kim, mais um escorregão. A história declara que mutantes não podem contrair AIDS. O Anjo, ao descobrir uma segunda mutação, que seu sangue poderia curar enfermos, resolve ir até um hospital e bancar o messias mutante. Conversando com os médicos, o Anjo revela “mutantes não podem pegar AIDS”, ao que o médico confirma “é verdade, não podem”.  Mais uma má ideia de Chuck Austen, um dos piores roteiristas de quadrinhos de todos os tempos. Também foi revelado em Black Panther #16, de 2006, por Reginald Hudlin e Scot Eaton, que uma tia da x-man Tempestade, faleceu em circunstâncias da AIDS e deixou seu filho soropositivo para ser criado pelos avós.

aidangelEspelhar os problemas sociais sempre foi um dos papéis e uma das características dos quadrinhos. Estes elementos não estão ali para cumprir uma agenda ou para fins beneficentes, mas porque eles geram identificação e verossimilhança para o universo fantástico em que os personagens superpoderosos estão envolvidos. Ao mesmo tempo, eles acabam desmistificando certos conceitos que de outra forma não estariam próximos dos leitores. Para quem quer ver filmes que tratem do tema, recomendo Philadelphia, com Tom Hanks e The Normal Heart, um filme do Netflix estrelado por Mark Ruffallo, o Hulk dos Vingadores, que se você não se comover com estes filmes, seu coração é de gelo. Além disso para conhecer o dia a dia de um casal que convive com a AIDS, leia a incrível graphic novel do francês Frederik Peeters, chamada Pílulas Azuis.

aidpilulasPara finalizar, não se esqueça de se proteger contra a AIDS: pratique sempre sexo seguro. Lembre-se, métodos contraceptivos não evitam a AIDS, evitam bebês. Use camisinha, masculina ou feminina. Não compartilhe agulhas e seringas. Mantenha a higiene. Realize o pré-natal para detectar a AIDS e a sífilis. Segue um link do Ministério da Saúde com respostas sobre o HIV e dicas de como se prevenir contra a AIDS.


Outros Links:

10 Pragas Mortais e Epidemias Fatais dos Quadrinhos

Quadrinhos Americanos e a Crise da AIDS (Dissertação de Mestrado de Sean A. Guynes – em inglês)

Minirresenha de Pílulas Azuis

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3 comentários

  1. Israel diz

    Ótimo post. Essa história do Hulk é extremamente tocante. Ainda nessa fase temos a história em que é revelado que o Jim tem AIDS e durante uma luta com o Speedfreak, o Rick Jones fica com medo de socorrer o Jim, por causa do sangue dele. E lá pelo final, o Hulk diz não se importar em como seu amigo tinha contraído a doença.
    Uma pena que o Peter David é tão subestimado e marcado apenas como um roteirista com viés pra comédia, quando escreve bem vários gêneros.

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  2. Pingback: OTALINK #29 | Yoroshiku!!

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