As Histórias Sem Fim dos Super-Heróis e As 1001 Noites

Na clássica história árabe das 1001 Noites, Sherazade tem a incumbência de entreter o sultão contando-lhe histórias por 1001 noites para evitar sua morte. É que o sultão tinha o costume de matar as suas mulheres após passarem a primeira noite com ele. Contando histórias para o monarca, Sherazade acaba escapando de sua sina. Mas o que isso tem a ver com os super-heróis? Explico a seguir.

1001fablesAssim como as histórias das 1001 noites, os leitores de quadrinhos de super-heróis são conduzidos por um sem-fim de histórias, sem que elas se esgotem ou se acabem. Uma das grandes diferenças dos leitores de mangás para os leitores de comics é que nos mangás, as aventuras se encerram, enquanto nos comics, os personagens são dourados incansavelmente. Nas palavras do estudioso Umberto Eco, é aí que está a graça das histórias em quadrinhos: “Não se poderia reconhecer jamais a força dessa ‘poesie ininterrompue’, lendo apenas uma ou duas ou dez histórias, mas só depois de ter entrado a fundo nos personagens e situações, visto que a graça, a ternura e o riso nascem somente da repetição, infinitamente cambiante, dos esquemas, nascem da fidelidade à inspiração básica, e requerem do leitor um ato contínuo de fiel simpatia”. (ECO, 2001, p. 286)

As mais antigas revistas de super-heróis que se tem notícia, Detective Comics e Action Comics, ainda não passaram da milésima edição, ou seja, ainda nenhuma revista em quadrinhos chegou perto das 1001 Noites. Apesar de as histórias de Sherazade serem um dos primeiros indícios de narrativa seriada, ela não funcionava da mesma forma que hoje em dia nós concebemos séries, novelas e quadrinhos. Era mais como uma narrativa dentro da narrativa como Os Contos de Canterbury, ou A Noite na Taverna, livro do brasileiro Álvares de Azevedo. Para os leitores de quadrinhos, um bom exemplo é o volume Fim dos Mundos do Sandman de Neil Gaiman.

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Mas, afora os motivos industriais e de consumo dos quadrinhos e demais narrativa seriadas, por que uma narrativa precisa ser encaixada em outra? Como explicar que uma história não baste por si só e precise de um prolongamento que explique sua existência e a desse prolongamento? Segundo o estudioso de literatura Tzvetan Todorov, existe aí um paradoxo. Toda narrativa parece deixar de revelar algo, como um excedente, um algo mais que o leitor deve apenas imaginar. Algo que não é contado. O antes, o depois, o ínterim, as subtramas. Para Todorov “esse algo mais da narrativa também é algo menos; o suplemento é também  uma falta; para suprir a falta criada pelo suplemento, uma outra narrativa se faz necessária”. (TODOROV, 2006, p. 131)

1001mundosOutro paradoxo é reparado pelo estudioso Todorov. Quanto mais o leitor conhece de uma narrativa, de um personagem, menos capaz de emocioná-lo ela se torna. Qualquer desvio na narrativa de um super-herói, como casamentos, mortes, filhos, mudanças de uniformes, podem gerar polêmicas no fandom, mas dificilmente causará uma emoção pungente como levar o leitor à lágrimas.  Todorov diz que “quanto mais esse suplemento é consumido no interior dessa narrativa, menos essa narrativa provoca reação da parte do leitor”.

Um terceiro paradoxo é estabelecido por Umberto Eco. Ele afirma que “uma cultura de entretenimento jamais poderá escapar de se submeter a certas leis de oferta e de procura”, (ECO, 2001, p. 60) ora, quadrinhos fazem parte da cultura de entretenimento e o seu conteúdo é desenvolvido de acordo com suas audiências. Para que os super-heróis não morram – e nesse caso seria uma morte comercial -, eles devem se fixar na cabeça do leitor como arquétipos, ou seja a soma de determinadas características que formam um personagem, ao mesmo tempo que devem se desenvolver em suas histórias e avançar no mesmo ritmo que as mudanças no status quo mundial. Segundo Eco, a personagem de quadrinhos de super-heróis deve “imobilizar-se numa fixidez emblemática que a torne facilmente reconhecível; mas como é comercializada no âmbito de uma produção ‘romanesca’ para um público que consome ‘romances’, deve submeter-se àquele desenvolvimento característico”. (ECO, 2011, p. 251)

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“O Superman deve, portanto, permanecer inconsumível, e todavia consumir-se segundo os modos de existência cotidiana. Possui as características do mito intemporal, mas só é aceito porque sua ação se desenvolve no mundo cotidiano e humano da temporalidade. O paradoxo narrativo, que os roteiristas do Superman têm, de algum modo, que resolver, mesmo sem estarem disso conscientes, exige uma solução paradoxal na ordem da temporalidade”. (ECO, 2001, p. 253)

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Para concluir, Todorov (2006, p. 132)  explica que toda narrativa acaba criando outra, seja no seu interior, criando derivados, sequências, tie-ins, spin-offs, etc., ou externamente, com os bastidores de sua criação, os making offs, resenhas e as histórias de nossos envolvimentos com a história narrada. Por fim, Umberto Eco nos revela a resposta para a pergunta que fiz anteriormente: “Por que uma narrativa precisa ser encaixada a outra?”. Ele nos revela a resposta, pelo menos no âmbito das revistas de histórias em quadrinhos de super-heróis americanas, numa elucidação quase poética:

“Ao habituar-se a esse ato de presentificação contínua do que acontece, o leitor perde, ao contrário, consciência do fato do que o que acontece deve desenvolver-se segundo as coordenadas das três estases temporais. Perdendo consciência delas, esquece os problemas que nelas se baseiam: isto é, a existência de uma liberdade, da liberdade de fazer projetos, do dever de fazê-los, da dor que esse projetar comporta, da responsabilidade que dele provém,e enfim da existência de toda uma comunidade humana cuja progressividade se baseia no meu projetar”. (ECO, 2001, p. 261)

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Essa conclusão, amigos, não está muito longe da máxima do Homem-Aranha, em que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. O leitor tem uma responsabilidade sobre a narrativa e ela é baseada no seu poder de escolha: continuar ou não a leitura? É essa escolha que vai modificar ou não sua visão de mundo sobre seu papel no mundo humano. Vai ser essa escolha que lhe proporcionará o escapismo necessário para se desligar da realidade e a enxergar com um olhar renovado, com novos conceitos e preconceitos gerados por sua leitura e pela continuidade no exercício da mesma que ele pratica. Isso, como falou Eco, também é sinônimo de liberdade.

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4 Comments

    1. Oi Thiago! Foram Apocalípticos e Integrados (Eco) e As Estruturas Narrativas (Todorov). Ambos da coleção debates da editora Perspectiva. Abs!

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