Escritor da Vertigo Se Assume como Mulher Trans

Personagens trans não são nada comuns nos quadrinhos. Criadores de quadrinhos trans são menos comuns ainda. Entretanto, temos alguns casos notórios tanto no Brasil quanto no mundo. A última a se assumir trans foi Lilah Sturges, antes conhecida como Matthew Sturges, grande colaborador de Bill Willingham em séries derivadas de Fábulas, da Vertigo.

Eu me lembro quando escrevi um post aqui no blog sobre personagens trans dos quadrinhos. Foi muito difícil encontrar personagens que não eram produto da fantasia que os fazia mudar de sexo, como Xavin dos Fugitivos ou Nuvem, dos Novos Defensores. Alguns poucos, desde então, ficaram mais familiares aqui no Brasil, como Rebis, da Patrulha do Destino e Lorde Fanny, d’ Os Invisíveis, ambos da mente de Grant Morrison. Também naquela época eu não tinha nenhum(a) amigo(a) trans. Hoje tenho e conheço e reverencio a luta delas para serem reconhecidas e terem seu lugar ao sol.

Lorde Fanny, travesti brasileiro, por Brian Bolland
Lorde Fanny, travesti brasileira, por Brian Bolland

Uma delas, a Luiza Lemos, uma querida, que lançou seu quadrinho Transistorizada na CCXP 2016, contando como foi sua transformação. Ela chegou a ser matéria do site Vice.com ano passado. Luiza, além de ter um texto cativante, possui um traço muito legal, fazendo dela uma quadrinista completa.  Claro, além de Luiza, temos uma grande representante das pessoas trans, gays, lésbicas e bissexuais que é a cartunista Laerte, que aos 57 anos e três filhos, assumiu a transexualidade, trazendo ainda mais esse assunto à baila. Uma boa questão principalmente no mundo dos quadrinhos, conhecido por ser LGBTfóbico tanto na parte da produção quanto pelos leitores.

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Laerte Coutinho

Nos quadrinhos americanos, talvez o maior exemplo sejam as irmãs Wachowski, Lilly e Lana, criadoras da trilogia Matrix dos cinemas, filme que ficou famoso por ser estrelado por Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss e Lawrence Fishburne. Elas também são responsáveis pela cultuada série de TV do Netflix, Sense8, escrita pelo quadrinista J. Michael Straczynski. A série ficou conhecida por uma cena de sexo grupal na piscina entre os protagonistas da trama. Lana escreveu algumas revistas em quadrinhos para a Image Comics, como Doctor Frankenstein.

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Entretanto, no selo Vertigo, também temos Rachel Pollack que substituiu Grant Morrison na Patrulha do Destino, onde introduziu a personagem Coagula, uma transexual. O último trabalho dela nos quadrinhos foi em 1998 em uma antologia da Vertigo. Em 2015, Pollack foi diagnosticada com câncer e está respondendo bem ao tratamento. Ela enfatiza o especto revelatório da transexualidade dizendo que ” a mulher trance-sexual (sic) sacrifica sua identidade sexual como homem, sua história pessoal, e finalmente a própria forma do seu corpo em favor de um conhecimento, um desejo, que potencializa todas as provas e conhecimentos racionais”.

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Lilah Sturges

Em 27 de dezembro de 2016, o roteirista então conhecido como Matthew Sturges veio à público assumindo-se como mulher trans, contando que já havia começado o tratamento com hormônios há meses. Matthew agora assumiu o nome de Lilah e vem postando mensagens de motivação e superação endereçadas a  pessoas trans, e sobre a forma como vem sendo o recebimento da notícia pelas pessoas em geral e sua família na sua conta do twitter.  Lilah foi saudada por diversos amigos da comunidade dos quadrinhos como Marc Andreyko, Cullen Bunn, Chris Roberson, Paul Cornell e Mark Buckingham.

Entre os trabalhos mais famosos de Lilah Sturges estão suas colaborações com Bill Willingham em João das Fábulas, na incrível série Casa dos Mistérios e na sua passagem pelo título da Sociedade da Justiça. Ver o nome “Lilah”, no lugar de “Matthew” no twitter (eu sigo ela) me chamou a atenção e fui ver do que se tratava. Estranhei em primeiro lugar porque sempre soube que Bill Willingham era um cara muito conservador e que não defendia as pessoas LGBT, muito pelo contrário. Logo, uma pessoa associada a ele, era de se estranhar que se assumisse trans. Pensei que poderia ser uma aposta ou trote, mas aparentemente não é, visto os textos de Lilah no Twitter, são muito encorajadores e reais. Ela mesma respondeu uma DM que mandei no Twitter tecendo elogios ao tradutor de Casa dos Mistérios no Brasil, Érico Assis. Lilah disse também que espera poder convencer a Marvel ou a DC para que ela escreva ou crie algum personagem transexual para sua publicações.

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Ao assumir seu status como transgênero, Matt/Lilah dá um passo enorme dentro dessa indústria tão hermética a novidades quanto a dos quadrinhos e, principalmente, dos quadrinhos americanos. Matt já era um roteirista estabelecido, com muitos fãs de seus quadrinhos e, ao se tornar Lilah, vai dar uma visibilidade para as pessoas trans nos Estados Unidos dentro ou fora do mundo dos quadrinhos. Esse movimento é tão bom quanto o que a Laerte ❤ fez aqui no Brasil. Por favor, amigos, palmas para Luiza, Laerte e agora Lilah! Que tenhamos pelo menos 10% da coragem dessas guerreiras quando formos enfrentar a vida e nossos inimigos, sejam eles supervilões ou uma entrevista de emprego.

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