A Importância do Humor nos Quadrinhos de Super-Heróis

Os quadrinhos de super-heróis sempre tiveram elementos de humor. Um prova evidente disso é que o nome americano dos gibis se chama comic books, dada a origem humorística das primeiras publicações nesse estilo e formato. Hoje, comics, é sinônimo de super-heróis. Claro, existem aqueles que não curtem o humor presente nos quadrinhos. “Super-herói bom não dá risada, dá socos”, diriam. Aqui vamos dar uma olhada superficial sobre o humor e como ele se encaixa nos quadrinhos.

Desde a Era de Ouro o humor está imiscuído aos super-heróis. Dada a origem cômica das revistinhas americanas, isso acabou se espalhando para os gibis de super-heróis. Nos anos 40 era comum personagens que serviam de alívios cômicos. Eles eram coadjuvantes. Eles eram os “escadas”, que davam a deixa para piadas. Esses personagens tinham bordões repetidos à exaustão. Era o caso de Etta Candy na revista da Mulher-Maravilha, dos três cabeças-ocas nas histórias do Flash – inspirados nos Três Patetas -, do Tio Marvel na histórias do Capitão Marvel. Geralmente esses coadjuvantes cômicos da Era de Ouro também tinham outra característica: todos estavam fora de forma e acima do peso.

Para conhecer melhor os Coadjuvantes Cômicos e Cheinhos da Era de Ouro, clique aqui.

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Etta, nóis!

A principal função social dos quadrinhos é fornecer escapismo para seus leitores, ou seja, garantir uma forma que eles se desliguem de seu cotidiano e embarque na narrativa das revistas e nas aventuras de seus heróis. Sabemos que nos tempos da depressão de 30, os quadrinhos tiveram seu boom. Também sabemos que o humor se faz mais necessário e mais presente em tempos críticos, de crise, como por exemplo, durante a ditadura militar brasileira, quando o humor em quadrinhos e em charges floresceu em revistas como O Pasquim e Chiclete com Banana.

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É do Marcos Pasquim da novela Uga-uga?

“O humor funciona como disfarce, como válvula de escape para a angústia, pois mostra a realidade sem seu peso cotidiano, nos faz mais leves; o humor é a leveza ante o peso e sofrimento que predominam na vida. momentos de humor são o melhor oxigênio que podemos respirar e adquirir entusiasmo”. (SLAVUTZKY, 2013, p. 66)

Existe outro fator que faz do humor tão popular. O fator psicanalítico. Sigmund Freud definia o humor como algo rebelde, opositor à realidade, um triunfo do princípio do prazer, capaz de se afirmar apesar das difíceis circunstâncias reais. O humor sempre tem um componente de contestação. Quando bem-feito é como uma catarse, porque ele faz pelas pessoas aquilo que elas tinham vontade de fazer.

As pessoas costumam se identificar com as situações de humor e, mais ainda, com personagens bem-humorados. Eles se aproximam mais das pessoas por apresentarem falhas como as que os leitores têm, não se mostrando como heróis inabaláveis e infalíveis. O humor “dá alguma coisa à pessoa que está lá na outra ponta da comunicação. Respeita sua inteligência e permite que ela possa interagir com a mensagem, completando o círculo da informação. Como em tudo na vida, o humor sinaliza e mostra que há uma pessoa real no ponto onde a mensagem está sendo emitida. Uma pessoa com entendimentos, preocupações e medos semelhantes aos seus. E é isso que faz toda a diferença”. (GOODBY, 2013, p. 78)

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One, too, three…

Talvez uma das ferramentas mais utilizada para fazer humor nos quadrinhos de super-heróis seja a paródia. Para quem não sabe, paródia é uma reapresentação de um produto da arte (uma pintura, uma narrativa, um programa de TV), pervertido de forma a produzir sentido cômico. Um bom exemplo disso são as paródias de filmes realizadas pela revista MAD. No âmbito dos super-heróis temos as famosas paródias dos universos quadrinísticos por Sérgio Aragonés, que já perverteu Marvel, DC e Star Wars. Uma das últimas paródias produzidas pela Marvel foi Secret Wars Too, uma revista cômica mostrando os bastidores de seus grande evento Guerras Secretas, produzindo, ao mesmo tempo, uma analogia que a classifica como paródia.

Leia mais sobre as paródias de quadrinhos produzidas por Sérgio Aragonés.

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Vá pra Mulher-Hulk que te carregue!

Outra ferramenta bastante utilizada nos quadrinhos de super-heróis para fazer rir é a metalinguagem. Stan Lee, criador da maioria dos personagens principais da Marvel já fez aparições em diversas histórias da editora. Metalinguagem é o fenômeno que se dá quando a história fala de si mesmo, como em Secret Wars Too. Mas como esquecer as histórias da Mulher-Hulk, por John Byrne, em que a prima do Hulk acaba matando o criador de suas histórias e, assim, encerrando sua fase no título? Para o publicitário Washington Olivetto, para fazer humor é preciso dominar o objeto sobre o qual se está fazendo piada. Os quadrinistas costumam fazer paródias e travar a metalinguagem pois sabem que esse é um meio extremamente autorreferenciador.

“Para fazer humor é preciso olhar pelo inverso. Mas para isso é fundamental entender o lado pelo qual se costuma olhar. A partir daí, o humor é grande componente para entendermos a vida. Quer queiramos quer não, para fazer um gesto de humor em relação a algo, precisamos ser críticos, fazer uma releitura da situação. É fundamental a primeira leitura. Se eu não conhecer o que estou falando, não vou saber brincar com aquilo. Só posso fazer uma piada com um determinado núcleo social se eu souber o comportamento daquele núcleo social. Caso contrário, não tenho a piada. Para tecer um comentário humorístico sobre um determinado tipo de homem ou mulher, sobre uma etnia, um tipo de comportamento, preciso saber sobre a cultura para tentar interferir”. (OLIVETTO, 2013, p. 59)

Uma das razões pelas quais o humor vem sendo cada vez mais utilizado está relacionado à depressão, ao tédio geral que vive o mundo. A Marvel, desde o sucesso de Deadpool, tem lançado inúmeras revistas com cunho cômico, como Garota-Esquilo, Gwenpool, Howard o Pato, Pastelão, Solo, Matador de Idiotas, Vingadores Centrais, entre outras. “Os fãs estão realmente abraçando o humor nos quadrinhos como nunca antes. Eles podem até comprar uma história dramática, mas eles querer rir ao longo do caminho”, declarou Axel Alonso, o atual Editor-Chefe da Marvel em entrevista para o site CBR.

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Capitão A-memé-rica

Alonso também credita o sucesso dos filmes da Marvel ao humor. “Com certeza. O humor revela a humanidade melhor do que qualquer outra coisa. Seja o Tony Stark demonstrando seu status de macho-alfa com seu olhar 43, seja Steve Rogers confiando muuuuito na sua imagem de bom-moço, ou a Viúva Negra fazendo seu caminho através de métodos insanamente perigosos – os Vingadores são definidos por, e amados por, suas personalidades, não seus poderes. E nenhum filme dos Marvel Studios confirma mais o poder do humor que Guardiões da Galáxia. Existe bromance mais caloroso que o que ocorre entre Rocky e Groot?”

Veja um artigo sobre como o cinema mudou a personalidade dos Vingadores nos Quadrinhos.

Segundo Blackwell, Miniard e Engel (2001) é preciso, além de chamar atenção do público consumidor, é preciso envolvê-lo. “O envolvimento do consumidor depende da tríade P-O-S (Pessoa, Objeto, Situação). A pessoa é o próprio consumidor, com todas as suas idiossincrasias; o objeto é a marca, produto ou serviço, a empresa; a situação realça a força do contexto em que o consumidor precisa comprar/consumir algo. O nosso contador de histórias precisa primeiro entender a pessoa, para depois fazer a propaganda com humor a fim de enaltecer o objeto e criar a situação para gerar (e aumentar) o grau de envolvimento do consumidor”.

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Vira pra lá, seu assanhado!

Mais que uma história bem contada, o filme dos Guardiões da Galáxia é um case de marketing. Ao final do filme somos apresentados à uma versão bebê de Groot, que conquista a simpatia imediata do espectador. Entretanto, não havia nenhum brinquedo ou memorabília do filme que retratasse essa versão do personagem. Os fãs, então, se mobilizaram para fazer uma petição solicitando o produto. Assim, seguiram-se diversas versões do bebê Groot, inclusive uma que dança de verdade.

A presença do humor nas histórias em quadrinhos, então, é importante em vários níveis. No psicológico, promovendo a satisfação e fidelização do leitor, quanto como um elemento que alivia as tensões cotidianas; no social, servindo como ferramenta de reinterpretação e de reavaliação da realidade; e, por fim, no mercadológico, envolvendo o consumidor com a marca e seus produtos derivados, sejam eles as próprias revistas ou memorabilia dos personagens. O humor, definitivamente, abre corações. E bolsos.


Bibliografia:

ALONSO, Axel. The importance of humour. From Spider-Man to X-Men to Guardians. Nova York, 19 set 2004. Entrevista ao site CBR. Disponível aqui.

BLACKWELL, Richard, MINIARD, Paul, ENGEL, John. Consumer Behavior. Fort Worth: Harcourt, 2001.

GOODBY, John. A utilidade do humor na propaganda. In: FEDRIZZI, Alfredo. O humor abre corações. E bolsos. Rio de Janeiro: Campus, 2013.

OLIVETTO, Washington. Uma conversa séria sobre o humor. Favor não rir.  In: FEDRIZZI, Alfredo. O humor abre corações. E bolsos. Rio de Janeiro: Campus, 2013.

SLAVUTZKY, Abrão. O humor abre portas.  In: FEDRIZZI, Alfredo. O humor abre corações. E bolsos. Rio de Janeiro: Campus, 2013.

 

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5 Comments

  1. “Etta, nóis” hahahah Enfim, a Mulher-Hulk acabou se tornando meu super-herói preferido por causa do humor e o Batman perdeu pontos conforme eu crescia (talvez) por fazer muito melodrama (ainda gosto do Batman, haters gona hate)

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