O Design da Página de Quadrinhos

Os estudos da História da Arte e do Design podem ajudar um quadrinista a compor o layout das páginas dos seus quadrinhos. Porém, também é preciso entender como se dá a leitura e a compreensão das palavras e imagens, sejam em separado ou em adição, para que a página de um quadrinho seja processada na nossa mente. Este artigo fala um pouco sobre estes estudos e processos.

“Diferente da figura estática da ilustração publicitária ou dos personagens de desenhos animados da televisão, os personagens dos quadrinhos existem como parte de uma sequência visual situada no espaço e no tempo, como um tipo de mapa de momentos. Cada momento (ou união de momentos estritamente relacionados) passa a estar marcado pela borda do quadro e o autor os distribui de acordo com os espaço disponível e conforme os requisitos da história. O teórico Neil Cohn define o quadro como ‘unidade de atenção’, uma vez que cada um deles é, decerto, um recurso que convoca e dirige a atenção do leitor.  A partir do fato de que os quadrinhos e as graphic novels são lidas ao invés de vistas, o design da página que fomenta a clareza do movimento de esquerda para a direita e de cima para baixo (o posto ao mangá tradicional) adquire uma importância vital, exceto quando a intenção do autor é outra”.  (DANNER e WITHROW, 2009, p. 36 e 37)

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Página de Bill Siekiewicz

A leitura é um processo ativo – exige a participação de quem lê – e também é um processo subjetivo, cabe ao leitor e apenas a ele, interpretar as informações que está recebendo, selecioná-las e dar a importância que bem lhe couber durante e após esse processo. A atividade de leitura é capaz de processar não apenas informações visuais, como informações não-visuais. Entretanto, essa informação visual não necessariamente precisa ser reconhecida e decodificada pelo leitor, uma vez que é ele quem decide para quais partes da leitura dará ênfase. Também pode prever e antecipar sua leitura através da verificação de hipóteses, como  em uma narrativa.

“Vários outros modelos de leitura se constituíram através de pesquisas ligadas à psicologia, alguns  convergindo em alguns pontos, outros caminhando em direções antagônicas. Goldman sistematizou um deles, definindo a leitura como um processo seletivo, onde através mínimos indícios de linguagem percebidos, o leitor segue o caminho mais econômico: seleciona a informação relevante utilizando unidades preferencialmente de nível elevado, por exemplo, palavras em vez de grafemas, frase em vez de palavras; selecionar fontes concorrentes de informação (redundância); usa da informação anterior remota ou próxima para compreender a seguinte” (GRUSZYNSKI, 2007, p. 142)

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Uma narrativa dentro das revistas ou de forma digital, porém dividida em “páginas”, permite que o leitor controle o fluxo da leitura e escolher se quer ser apresentado ao final antes do início, ou vice-versa, saltando páginas ou sendo exposto novamente às mesmas.

“A função social dos objetos portadores de texto se traduz pelo que chamamos de ‘códigos’, isto é, por hábitos de apresentação, de formato, de paginação, cujo reconhecimento é a primeira etapa de construção de sentido, e que definem tantas formas diferentes de leitura: leitura de linhas organizadas em página, para um romance; em colunas, com continuação em outras páginas, para um jornal; parágrafos (verbetes) para o dicionário; por vinhetas aparentemente separadas, para a história em quadrinhos (…)” (CHARMEUX, 1994, p. 78)

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Você vê um Wolverine ou dois Batmans? Isso é Gestalt!

A teoria da Gestalt – desenvolvida nos anos 20 por cientistas alemães – tem como princípios a percepção de dados unitários como forma de um todo. Isso é muito importante para entender como os quadrinhos são lidos. Primeiro quadro a quadro, depois banda por banda e, por fim, página por página. A posição de um quadro, seu tamanho, entre outros elementos estéticos são importantes para dar a sensação de ritmo para uma história em quadrinhos. Ou seja, uma hierarquia para a leitura das imagens e palavras que constam na página.

A Gestalt é importante para entendermos a leitura dos quadrinhos porque ela vê os elementos não como formas invariáveis, mas como relações entre um e outro.  “A página de HQ aparece para nós tanto como um todo completo como a soma de suas partes; além disso ‘forma’ e ‘conteúdo’ não somente são inseparáveis como também se originam de modo interdependente”. (BRUNETTI, 2013, p.49)

Certamente Scott McCloud (2004), uma dos maiores teóricos do quadrinhos, se apoiou na Gestalt quando desenvolveu sua teoria das transições entre um quadro e outro das histórias em quadrinhos, gerando assim uma sensação de completude e conclusão na nossa mente, que nada mais é do que a relação dos elementos com o todo. Ana Cláudia Gruszynski fala mais sobre os princípios da Gestalt:

“Segundo a teoria, as forças internas da organização são orientadas por (1) segregação e unificação, que atuam segundo a desigualdade de estimulação; (2) fechamento, tendência de unir intervalos; (3) continuidade, impressão de como as partes sucessivas se unirão umas às outras; (4) proximidade, elementos vistos perto um dos outros serão tomados como conjuntos; (5) similaridade, igualdade entre cor, textura, tamanho, forma, etc., conduz ao agrupamento de partes semelhantes”. (GRUSZYNSKI, 2007, p. 61)

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Batman em estilo Bauhaus

Todos estes ítens são importantes para a leitura dos quadrinhos, mas principalmente nossa busca por fechamento e continuidade é o que conduz nossos olhos do início até o final de uma narrativa de quadrinhos. Dessa forma, as figuras e letras justapostas na folha do papel fazem sentido de uma história em nosso cérebro.

A Bauhaus – uma escola alemã de design dos anos 20 e 30 – propunha a funcionalidade, a universalidade e a racionalidade do design, principalmente, no caso, do design gráfico. Entre alguns dogmas da escola da Bauhaus, podemos destacar a utilização de um diagrama (grid) que assegure a ordenação do projeto e sua unidade. A maioria dos trabalhos de Chris Ware, como Jimmy Corrigan, apresentam um grid bastante ortodoxo de quadrinhos por página. Essa rigidez, além de permitir uma primeira leitura, permite que, através de outros sentidos de leitura – que não o ocidental – se obtenham outros significados para a história.

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Jimmy Corrigan, de Chris Ware

Consoante com a rigidez da Bauhaus, temos nos quadrinhos o que Ivan Brunetti (2013, p. 49)  batizou de”grade democrática”, que para ele é uma página de quadrinhos com quadros totalmente do mesmo tamanho. Dessa forma, para o autor,  todos os quadros possuem um peso e valor equitativos dentro do esquema maior da página. Nenhum quadro chama a atenção para si, convidando o leitor a entrar em um fluxo narrativo desimpedido. Brunetti justifica a beleza desse sistema dizendo que nós, seres humanos, dividimos intuitivamente nossa experiência de vida em unidades de tempo do mesmo tamanho.

Poucos quadrinhos utilizam hoje a grade democrática. Talvez os exemplos mais precisos sejam os quadrinhos infantis como os de Walt Disney e da Turma da Mônica. Entretanto, mesmo esses trazem alguma diferenciação entre seus pesos e valores, seja quando abrem uma história ou ainda quando o artista quer apresentar mais elementos dentro de um quadro, optando por um plano mais aberto.

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Página da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa

Outro pensador que certamente Scott McCloud leu, foi Jacques Derrida, um dos críticos do desconstrutivismo. O desconstrutivismo nega a organização e a forma, ou seja, era algo totalmente contrário aos pressupostos da Bauhaus, por exemplo.  Para Derrida, o importante não eram as pinturas, mas as molduras que servem de limitações para as mesmas. Ao observador comum, a moldura, ou o espaço em branco dos quadrinhos se tornam invisíveis aos olhos acostumados a enxergar apenas a figura.  Scott McCloud (2004) batizou o espaço em branco dos quadrinhos, a moldura dos quadros, como “gutter”, a “sarjeta”, afirmando que é lá que se encontra a magia dos quadrinhos, ou seja, é ela que proporciona nossa sensação de fechamento e continuidade.

Em contraste com a grade democrática apresentada anteriormente, temos a grade hierárquica, que estabelece uma importância maior ou menor para cada quadro, impondo, dessa maneira, as limitações das molduras e gerando a interação que provocam em nós, mesmo em um conjunto heterogêneo, a sensação de fechamento e continuidade, mas principalmente a sensação de ritmo de uma narrativa em arte sequencial.

“A arquitetura da página em quadrinhos pode ser austera e ao mesmo tempo brincalhona; pode nos atrair ou nos manter afastados. Quando começamos a leitura, os quadrinhos deliberadamente nos fazem percorrer a estrutura em determinado ritmo. Além disso, como acontece com os momentos de tempo, cada quadrinho existe em estado latente  em todos os outros quadrinhos – um todo mutuamente inclusivo”. (BRUNETTI, 2013, p. 54)

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Página de X-Men, por Neal Adams

O quadrinista necessariamente dialoga com o público de sua produção artística, dessa forma se faz mister conhecer como se processa a leitura e como layout da página se processa em nossas mentes. Este artigo tenta esclarecer processos muitas vezes intuitivos dos produtores de arte sequencial e levantar algumas questões sobre sobre soluções aprendidas, repetidas e automatizadas na produção de uma revista em quadrinhos.
Bibliografia:

BRUNETTI, Ivan. A arte de quadrinizar – filosofia e prática. São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2013.

CHARMEUX, Eveline. Aprender a ler: vencendo o fracasso. São Paulo, Cortez, 1994.

DANNER, Alexander e WITHROW, Steve. Diseño de personajes para novela gráfica. Barcelona, Ediciones Gustavo Gili, 2009)

GRUSZYNSKI, Ana Cláudia. A imagem da palavra: retórica tipográfica na pós-modernidade. Teresópolis, Novas Idéias, 2007.

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo, M.Books, 2004.

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8 Comments

  1. Eu considero o layout a parte mais complexa no desenvolvimento de uma HQ. São tantas decisões a considerar antes de rascunhar o primeiro quadro que é difícil saber como começar. Tenho procurado continuamente informações que possibilitem uma orientação pra pelo menos reduzir um pouco o “rabisca e apaga” até a montagem de cada página. Mas desconfio que essa sensibilidade só vem mesmo com a prática. :/

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    1. Eu também acho. Isso e saber o que cortar entre um quadro e outro. Tanto é que a minha dissertação vai ser sobre isso mesmo: elipses de tempo nos quadrinhos. Ou, basicamente, escolhas. Abraços!

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  2. Excelente texto, Guilherme!

    Sou grande fã de desenhistas gringos que fazem composições diferenciadas (Sienkiewicz, J. H. Williams III, Bermejo, Steranko, David Aja), pois acho que é o tipo de coisa que só os quadrinhos nos proporcionam, não ficar restrito a um quadro ou página pra ação fluir.
    Abração!

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    1. Valeu, Lierson! É sempre bom a gente ter domínio de técnicas e saber o que é usado constantemente para quebrar com essas propostas e inovar! Abraços!

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  3. Eu estou tentando escrever meu primeiro roteiro de quadrinhos e já li McCloud há um tempo, mas ainda estou meio perdido a como estruturar as páginas, adorei as informações e o texto… Realmente ajuda bastante, até aumentando a bibliografia do quadrinista iniciante xD

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