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Visões de 2020, de Jamie Delano, Frank Quitely, Warren Pleece e Outros

O ano de 2020 está chegando, mas muito antes dele, em 1997, o autor da Vertigo, Jamie Delano imaginou como seria o futuro três décadas depois. O resultado é bastante bizarro, mas algumas coisas, estranhamente fazem sentido, como se fosse uma realidade alternativa do que estamos para viver. Isso baseado em decisões tomadas mundialmente, como a eleição de Donald Trump. Mais, a seguir.

 

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Sim, é um maldito GIF!

Jamie Delano se reuniu com quatro artistas que já havia trabalhado com ele na série do Homem-Animal – que será publicada em breve por aqui pela Panini Comics. Esses artistas eram Frank Quitely, Warren Pleece, James Romberger e Steve Pugh. Cada um deles desenhou uma história de 3 edições cada, totalizando as visões em 12 edições. Em cada arco de história temos a focalização de um personagem em uma localização diferente. O primeiro mostra Alex e se passa em Nova York. O segundo, mostra sua filha, Jack, em Miami. O terceiro, um dos filhos gêmeos de Jack, Ethan, em trânsito entre Detroit e o meio-oeste. Já o quarto, mostra o segundo filho de Jack, Adam, viajando da Califórnia para Nevada.

 

Aqui no Brasil, só foram publicados dois arcos da série e como minisséries. Tesão de Viver, o primeiro arco, foi publicado pela Abril e La Tormenta, o segundo arco, pela Tudo em Quadrinhos. De longe, a narrativa de Frank Quitely torna a primeira narrativa mais atraente que a segunda e ela casa muito bem com a temática da série, que falarei mais depois. Já La Tormenta tem uma arte mais noir e, talvez, por isso não casou com os temas futuristas de Visões de 2020.

Tesão de Viver é focada em Alex Woycheck, um ex-editor de revistas pornôs que só quer completar sua coleção de revistas eróticas dos anos 50 chamada Atomic Bombshells. Entretanto, no meio do caminho ele acaba pegando a praga que está acabando com todos na cidade fora das Muralhas: a chamada “praga da foda”. Essa praga, tão letal e contagiosa quanto a AIDS, provoca em seu portador uma vontade louca de transar e confere orgasmos o tempo todo em seu estado de pico. Alex, em busca de uma cura para a praga, faz negociações insensatas e acaba trancafiado na Ilha Ellis, para onde despacham os portadores da doença. Lá ele vai preparar uma revolução contra a sociedade asseada que é cercada pela Muralha.

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Segundo a história de Visões de 2020, os Estados Unidos vieram a se tornar aquilo em 2008, “quando a indiferença, a desilusão e os piquetes contra o voto da Nova Direita destruíram o tradicional sistema bipartidário e permitiram que uma dinastia intelectual feminista assumisse o poder”. Podemos ver que esse cenário parecido com o de agora. A indiferença e a desilusão depois da crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos. Uma eleição que fez contestar o que era direita e o que era esquerda, em um sistema bipartidário em que os dois lados são muitíssimo parecidos. Piquetes contra o voto da Nova Direita, estamos tendo agora, logo após a eleição de Donald Trump nos EUA. Os movimentos feministas estão se aquecendo na internet. Isso, claro, não quer dizer que teremos uma ditadura “feminazi”.

2020capa

Por outro lado, a tal muralha que Jamie Delano cita que pretende separar “privilegiados cidadãos cuidadosamente escolhidos para pilotar a economia econômica global” da ralé, está, de certa forma, nos planos de Donald Trump. O futuro presidente dos Estados Unidos quer construir um muro que separa os Estados Unidos do México, impedindo assim, a entrada de imigrantes ilegais. A imigração, como sabemos, virou uma crise não só para os Estados Unidos, mas para a Europa, que após a Guerra da Síria viu suas fronteiras serem invadidas por africanos e muçulmanos. Isso sem falar no genocídio nas travessias do Mar Mediterrâneo: mais de 6 milhões morreram tentando chegar à Europa em 2016. Isso realmente parece coisa de história de ficção científica, mas não é. É nossa realidade. A pura e cruel realidade.

 

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Mulher de Bigode, nem 2020 pode!

Já na segunda minissérie que tem como mote o tráfico de bebês, de órgãos e de pessoas e se passa em Miami, também mostra uma realidade próxima da nossa. O líder ditador cubano, Fidel Castro, morreu ano passado. Isso tem a ver com o cenário de Nueva Flórida, onde se passa o segundo arco de histórias. “Fidel Castro morreu em 2003. A Flórida, liderada por um cartel conservador multi-bilionário de famílias descendentes de imigrantes, se separou de um país que não se ressentiu de vê-la partir, associou-se a Cuba e formou o Estado Católico Independente de Nueva Florida”.

 

O título é um jogo de palavras com a expressão “visão 20/20”, que se refere à visão normal, média, ou talvez a alguma visão “perfeita” para os olhos dos seres humanos. As visões do ano 2020 nesta série, no entanto, não são boas e pintam um futuro distópico onde a maioria dos homens são inférteis, a sociedade é ainda mais segregada e as pragas correm desenfreadas. Entretanto, não deixa de mostrar a visão standard, do ser humano “normal”, que vive nesse mundo e não tem nada de especial para se destacar dos outros. A série foi compilada em 2004 pela Speakeasy, entretanto com o miolo todo em preto e branco, enquanto a série em fascículos e as que saíram no Brasil eram coloridas.

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A coletânea da Speakeasy.

De qualquer forma, Visões de 2020 é uma série que eu gostaria de ter lido até o final. Faltavam 6 números apenas. E, como foi republicada pela Speakeasy, não sei se temos chances de vê-la aqui pela Panini Comics. Enquanto La Tormenta é uma história mais chocante e bizarra do que uma história realmente boa, Tesão Pela Vida é uma história realmente boa, chocante e bizarra. E eu recomendo que você vá atrás dela. E que essas visões não cheguem a 2020, por favor!

 

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