Quem é o Leitor-Modelo de Quadrinhos?

Você se considera um leitor modelo de quadrinhos? Ou um leitor esporádico de quadrinhos? Mas, afinal, o que seria um leitor-modelo de quadrinhos e que características ele deveria ter para alcançar tal denominação? Essas são algumas questões que vamos tentar sanar a seguir.

Segundo o estudioso Umberto Eco “o texto é uma máquina preguiçosa  que exige que os leitores façam a sua parte – ou seja, é um mecanismo concebido para suscitar interpretações” (p. 34). Entretanto, qual seria a interpretação correta para um texto? Eco diz que, nesse caso, entra em cena o leitor-modelo, que nada mais é do que o leitor ideal de um texto. Aquele que o autor teria mirado e imaginado lendo seu texto. “Esse leitor não é o que faz a ‘única’ conjectura ‘correta’. Um texto pode prever um leitor-modelo com direito a elaborar infinitas hipóteses” (p.40).

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Hulk tem a interpretação mais forte que há!

Os quadrinhos são um dos meios de comunicação que mais – senão O que mais – usa de referências para ser fruído. Sejam nas referências de imagens, representadas de modo minimalista pelos desenhistas, sejam por citações de outros quadrinhos, autores, e produtos da indústria cultural. Para que um leitor entenda por completo certas histórias em quadrinhos, se faz mister uma extensa bagagem cultural.

Por exemplo, um leitor-modelo da Liga Extraordinária e do Nemo de Alan Moore precisa ser versado no século XVIII. Além disso, precisa estar ciente de vários personagens da literatura desse período de tempo, bem como avatares da literatura fantástica nascente nos pulps do início do século XX. Não é uma tarefa fácil, ainda que de uma primeira leitura na HQ se possa apreender e entender a história. Ao menos, seu caminho narrativo. Já em As Rosas de Berlim, segundo volume de Nemo, Alan Moore nos traz uma narrativa de pelo menos dez páginas toda em alemão. Isso exige muito mais de um leitor-modelo deste quadrinho. Entretanto, nos diz Eco que:

“O leitor modelo de uma história não é o leitor empírico. O leitor empírico é você, sou eu, qualquer pessoa quando for ler o texto. Os leitores empíricos estão aptos a ler de várias maneiras,e não há lei que lhes diga como devem fazê-lo, porque em geral, eles usam o texto como veículo para suas próprias paixões, as quais podem vir de fora do texto ou podem ser suscitadas por acaso em um texto” (p. 41).

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Unglaublich!

Um bom exemplo é a interpretação da minha tia para um livro que escrevi em parceria com a Ana Clacla, que fez as ilustrações. Se trata de um livro infantil chamado Jornada Miúda. Minha tia achava que eu havia me inspirado na sala dela para compor um cenário da história. Quando, muito pelo contrário, tinha sido a Ana que havia composto toda a referência visual. Mas assim deve ser com todo autor e com todo leitor. Por vezes, os leitores se apropriam tanto de uma história que passam a enxergar partes da sua vida nela.

Da mesma forma, funciona nossa identificação com os personagens de uma narrativa, como explica Eco: “Podemos nos identificar com os personagens de ficção e seus atos porque, de acordo com um pacto narrativo, passamos a viver no mundo possível de suas histórias como  se fosse nosso próprio mundo real” (p. 67). O literato italiano também lembra que “Um mundo ficcional não é apenas um mundo possível, mas também um mundo pequeno – ou seja, um curso relativamente curto de eventos locais em algum nicho ou canto do mundo real” (p. 73).

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“Cê nunca fez nada pelos pretos, seu Lanterna Verde!”

O grande historiador da arte E. H. Gombrich costumava dizer que “o olhar inocente não vê nada”. Ou seja, não existe olhar inocente numa leitura. Toda leitura é seguida de um julgamento, ou seja, de uma interpretação. Todos guardamos uma bagagem, seja ela emocional ou cultural, carregada de pré-conceitos e pré-julgamentos para cada informação que recebemos. Por essa razão, nunca seremos o leitor-modelo de um autor, pois, ao fim ao cabo, seu leitor modelo é ele mesmo: o autor. Afinal, ele não pode se libertar dos seus próprios julgamentos e conhecimentos que usou para confeccionar a sua obra.

A interpretação final de um Grandes Astros Superman, só quem poderia dar seria um Grant Morrison. Mas, pera lá, às vezes as obras e os personagens adquirem proporções tão grandes na cultura e no imaginário humano, que passam a ser, como pontua Eco, flutuantes. Existe a versão que nossa mãe faz do Superman, uma, que o gari faz dele, outra que um político imagina como deve ser o Superman, outra, um colecionador que leu todas as histórias do Azulão, mais outra, a de um publicitário que quer usar a marca do “s”, outra, os donos da Warner Bros. e outra, um acadêmico que estuda a influência do Superman como símbolo messiânico.

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Quem é o Superman?

Assim se leva a uma outra questão. Se não podemos controlar a interpretação de uma história ou de um personagem, como podemos saber se ela teve uma condução, um início e um final satisfatório para a maioria dos leitores? Para o filósofo Paul Ricoeur “Para que a obra ainda capte o interesse do leitor, a dissolução da intriga deve ser compreendida como um sinal dirigido ao leitor para cooperar com a obra, para ele próprio fazer a intriga. (…) Pois o jogo da expectativa, da decepção e do trabalho de reordenação só permanece praticável  se as condições de seu sucesso forem incorporadas no contrato tácito ou expresso que o autor faz com o leitor: desfaço a obra e vocês a refazem – da melhor maneira que puderem”. (p. 41)

Dessa forma, não temos um leitor-modelo de quadrinhos, mas sim, um leitor ideal. Esse é aquele que trava um contrato com o autor, que faz um pacto com a leitura e coopera com ela montando as peças que o autor, ou os autores, lhe dão para resolver a intriga proposta. Assim, um leitor ideal de quadrinhos é aquele que segue as convenções da leitura da arte sequencial da forma que ela deve ser lida, seguindo a linearidade e o ritmo sugeridos pela justaposição de quadros e o peso dado a cada acontecimento conforme a disposição e tamanho dos quadrinhos.

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Será que o Edir Macedo quer me enganar com esses panfletos evangélicos?

Resumidamente, trata-se do leitor ideal encontrar seu quadrinista ideal e vice-versa. “O uso do tempo na arte sequencial como um elemento é único e um ingrediente chave para o desenvolvimento cognitivo. Os artistas sequenciais devem fazer escolhas sintáticas para encadear sequências lógicas do espaço e do tempo. A magia da arte sequencial é a capacidade de retardar ou comprimir o tempo, conduzir a mente através de uma experiência diferente do tempo que hiper estende o tempo real. Um bom quadrinho ou graphic novel pode produzir uma poderosa experiência porque o tempo que lemos na página nos atrai para o mundo da narrativa, para além de nossa experiência em tempo real”. (JACKSON, 2009, p.9)

Na verdade, não passa de uma via de mão dupla, uma faca de dois gumes, afinal, “Quando totalmente envolvido com uma obra de quadrinhos, o leitor tem tanto uma resposta cognitiva – perceber, organizar e interpretar as imagens na página, a fim de construir significado – como uma resposta afetiva, reações emocionais (por exemplo, empolgação, piedade, medo) que surgem sem esforço consciente”. Esse é o poder da narrativa dos quadrinhos, pois seja o leitor ou o quadrinista modelo, empírico ou ideal, “a compreensão dos leitores e as reações ao trabalho são o resultado de uma série de inferências sobre funções das imagens em painéis e as relações entre e com os painéis”. (DUNCAN e SMITH, p. 154)


Bibliografia:

DUNCAN, Randy. SMITH, Matthew J..The power of comics. History, form, and culture. Londres/Nova York: Continuum Books, 2009.

ECO, Umberto. Confissões de um jovem romancista. São Paulo: COsac Naify, 2013.

GOMBRICH, Ernst Hans. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2013.

JACKSON, Donald. Cognitive comics: a constructivist approach to sequential art. E-book, 2009.

RICOEUR, Paul. O tempo e a narrativa II: as configurações do tempo na narrativa de ficção. Campinas: Papirus, 1995.

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8 Comments

    1. Oi cara! Se tu procurar por quadrinhos eróticos no blog, vai achar vários links e autores para encontrar obras vendidas na internet, ou ainda mesmo que podem ser apreciadas em sites. Abs!

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  1. Olá, Guilherme! Primeiramente quero agradecer por nos possibilita ampliarmos nossa visão sobre a linguagem dos quadrinhos. Seu site é sensacional. Em segundo lugar, gostaria de saber de quem é a última ilustração, a em branco e preto, neste post. Muito obrigado!

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    1. Oi Glaydson! Valeu pelo feedback! Sempre é bom ler incentivos dos leitores! Quanto à ilustra, eu creio que seja ou da Jill Thompson ou do Mark Buckingham pelo estilo. Mas como não está assinada e no lugar onde peguei não tinha referência, não tenho como precisar exatamente. Abraços!

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