Os Percalços da Criação do Homem-Aranha e do Doutor Estranho

Era o começo dos anos 60. A chamada Era Marvel por alguns. Stan Lee e seus companheiros traziam um novo frescor aos quadrinhos criando heróis falíveis e que conviviam no mesmo universo. Mas aos poucos a realidade MARVELhosa foi se desfazendo. No momento em que seus criadores se deram conta que suas criações não eram – e nunca foram – suas.

Ayn Rand é a fundadora da filosofia do Objetivismo. Além de pregar a importância do egoísmo e de defender uma vertente radical do capitalismo, o laissez-faire, ela teve muita influência nos anos 60, principalmente na mente de um grande criador dos quadrinhos. Esse cara era Steve Ditko, ninguém menos do que o co-criador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho.

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Depois do Atlas, a enciclopédia vai se revoltar?

Ditko começou na Marvel ainda quando ela era a Atlas, e publicava revistas de monstros. Calhou que Ditko deu um pitaco acerca de um herói novo que Stan Lee e Jack Kirby criaram, que envolvia um anel e poderes de mosca. Lee ouviu o pitaco e pediu para Ditko o recriar. Estava aí a gênese de Peter Parker, o Homem-Aranha.

O desenho e as histórias que Ditko trabalhava – Stan só fazia o argumento e, os diálogos, ele colocava depois do desenho pronto, eram muito mais soturnas e depressivas que as de Kirby. Seus personagens eram mais esquisitos, mas esguios, com um nuvem pesada sempre a lhe pesar sobre a cabeça. Isso era um reflexo do seu criador. Ditko sempre foi um cara complicado, ensimesmado, mas também era um cara antenado nas leituras em voga.

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Peter revelando sua identidade secreta pra qualquer um.

Foi assim que surgiu o Doutor Estranho: levando em conta as ondas psicodélicas que aconteciam nos anos 60, bem como a new age que vinha surgindo devagar revelando os mistérios do oriente longínquo. Os personagens estavam no mundo. Entretanto, nenhum deles eram posse nem de Stan, nem de Ditko. Todos eram posse da Magazine Management, empresa de Martin Goodman, que abarcava o selo de quadrinhos da Marvel. Esse era o grande problema.

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E essa desmunhecada, hein, Doutor?

Com o tempo, tanto Doutor Estranho quanto o Homem-Aranha, passaram a serem feitos apenas por Steve Ditko, que se tornava cada vez mais revoltado por passar muito mais de um peão de obra do que um criador. Ele fazia o lápis e a finalização em casa e mandava as páginas por correio para serem editadas pela Marvel. Foi um pouco antes dessa época que Ditko entrou em contato com as palavras de Ayn Rand.

“O criador está a serviço do seu próprio juízo. O parasita segue a opinião dos outros. O criador pensa, o parasita copia. O criador produz, o parasita rouba. O interesse do criador é a conquista da natureza. O interesse do parasita é a conquista do Homem. Ao criador é necessária a independência – ele não serve nem comanda. Lida com os homens por interlóquio livre e decisão voluntária. O parasita busca o poder. Quer cegar todos os homens juntos, em ação comum e escravidão comum”. (RAND, Ayn. A nascente. 1943).

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“Talk to the Rand!”

Claro que as palavras de Rand são bastante exageradas. Por favor não levem ao pé da letra. Este excerto faz parte de um dos seus primeiros romances, A Nascente, que trata sobre a arquitetura. Mais tarde ela partiu para os textos filosóficos, afirmando que na história da filosofia, ela só recomenda “os três A’s: Aristóteles, Aquino e Ayn Rand”. Ou seja, a sua pregação do egoísmo se confunde um pouco com o orgulho e a arrogância.

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Alô, alô Tia Leia! Se tiver ventando muito não venha de sabre de luz!

Claro que as palavras de Rand levaram Ditko a uma reflexão. Como levaria eu, você, e todo mundo que já foi explorado por um empregador. Até mesmo Stan Lee viria, alguns anos depois, pensar a mesma coisa: tanta propriedade intelectual criada, mas que só beneficia uma pessoa: a corporação. Os criadores sempre receberam menos. Claro, é importante criar, mas, como Ayn Rand propôs, com um objetivo. Mas diferente do que a filósofa propôs, esse objetivo não precisa – e nem deve – ser com propósitos egoístas: para o lucro ou promoção pessoal. Prefiro ficar com a visão desiludida de Jack Kirby quando saiu da Marvel sobre o propósito dos quadrinhos:

“Meus amigos, vocês pensam os quadrinhos em termos de revistinhas, mas estão enganados. Acho que vocês deviam pensar em termos de guerra, em termos de jornalismo, em termos de vendas, em termos de negócios. E se vocês têm a sua opinião sobre as drogas, se vocês têm a sua opinião sobre a guerra, se vocês tem a sua opinião sobre economia, acho que podem falar disso de forma mais eficiente em quadrinhos. Acho que ninguém faz isso. Os quadrinhos são jornalismo. Mas agora estão restritos à novela”.

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Com grandes personagens vem pouco retorno financeiro.

Por isso, mesmo sendo malhado todo o dia por uma vasta gama de leitores do blog no facebook e em outras redes sociais, eu gosto de trazer para eles textos com posicionamentos. Porque, como diz Kirby, quadrinhos não são só revistinhas. Eles são um espelho da nossa realidade. E é preciso sim, que eles se posicionem, trazendo mensagens, para abrir os olhos dos leitores alienados que só querem saber se quem vence a luta é o Thor ou o Hulk. Ou seja, estão restritos à novela. Vamos pensar os quadrinhos em outros termos, por favor!

Fonte: HOWE, Sean. Marvel Comics: a história secreta. São Paulo, LeYa, 2013.

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3 Comments

  1. É muito bom você postar estes textos com posicionamentos (o que é justamente um dos motivos de eu adorar esse blog, na verdade), afinal, por mais que reclamem os fãs xiitas, não tem como separar a filosofia da cultura, já que uma espelha a outra. O problema é que o caráter “elitizado” da primeira e o “sucateado” da segunda acabam gerando essa questão da novela pela própria novela (o que não quer dizer que uma história não pode ser simplesmente divertida, o ponto é que: uma hq também pode – e deve – gerar a reflexão), o jeito é ir impulsionando a reflexão mesmo, porque sabemos que Thor ganha do Hulk (zueira haha)… Ah, e muito obrigado por me dar mais um motivo para não gostar dessa mulher haha

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    1. Obrigado pelas palavras e pelo incentivo! É bom olhar além do aspecto narrativo dos quadrinhos, embora só ele já suscite muitos textos legais. Mas é poi desenfurnar a cabeça de dentro desse universo e ver como ele reflete no que acontece “aqui fora”! Abraços!

      Curtido por 1 pessoa

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