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Sobre Como Uma Tirinha de Jornal Foi Parar no Mictório

Como uma das primeiras tirinhas de quadrinhos publicadas em um jornal ajudaram a batizar uma das peças fundamentais da arte moderna mundial? Você vai descobrir a seguir.

Mutt & Jeff, de Bud Fisher foi a primeira tira em quadrinhos no formato que conhecemos hoje. Até então, os quadrinhos norte-americanos vinham sendo publicados em páginas inteiras de jornal e coloridas, as famosas páginas dominicais, desde o advento de Yellow Kid, de Richard Felton Outcault. Entretanto, em 15 de novembro de 1907, Bud Fisher lançava a tirinha “Mr. A. Mutt Starts in to Play The Races” no jornal San Francisco Chronicle. A tirinha era sobre um apostador compulsivo que ia às corridas de cavalos no jockey.

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“Ao escolher a forma de tira para a imagem”, contou Bud Fisher mais tarde,”pensei que poderia ter uma posição proeminente dentro da página, o que acabou acontecendo, e isso alimentou minha vaidade. Também pensei que o cartum seria mais fácil de ser lido desta forma. E era, realmente”.

A primeira tirinha de quadrinhos também apresentava um recurso que ficaria famoso em todo quadrinho serializado. Era o cliffhanger, ou seja, o gancho. No último quadro da tira, Fisher dizia “Veja o que o Senhor Mutt faz consigo mesmo em suas próximas aventuras” e assim, atraia a atenção do leitor para a próxima tira e acaba fidelizando-o.

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Assim, de uma forma simples, uma nova forma de contar quadrinhos era criada: as tiras em quadrinhos. Ironicamente, pelo tema das tirinhas tratar de corridas de cavalos, muitas pessoas interpretavam as tiradas como dicas de apostas no jockey club,e corriam até lá para apostarem nos equinos mencionados nas tiras.

“A adição de Jeff incrementou o nível de humor na tira de Fisher. Os planos de Mutt agora estavam condenados para sempre devido à inaptidão de Jeff. Apesar de Mutt descontar sua frustração no seu ajudante abobado na forma de chutes, socos e objetos atirados pelo ar, Jeff nunca reclamou. Juntos, o astuto oportunista e o cara desastrado se tornaram um arquétipo universal: a dupla incompatível. A tira de Mutt & Jeff sobreviveu por mais de setenta e cinco anos, até que sua tira foi cancelada em 1985. Os dois permaneceram amigos até o final”. (WALKER, 2004, p.29)

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Mas o mais incrível de Mutt & Jeff, é que o os quadrinhos começavam a saltar da mídia impressa para o imaginário popular. Uma prova disso, dizem, foi a referência do artista Marcel Duchamp em uma de suas mais famosas obras, A Fonte. Duchamp foi um dos fundadores do movimento dadaísta, um dos movimentos mais incompreendidos e revolucionários da História da Arte. Um dos primeiros trabalhos de Duchamp foi pegar a parte da frente de uma bicicleta e acoplá-la a um banquinho. Entretanto, este novo trabalho viria a chocar ainda mais os artistas tradicionais e acadêmicos. Se tratava de um mictório, porém deitado sobre uma base e assinado “R. Mutt, 1917”. Chamou aquilo de escultura readymade, ou seja, uma escultura já pronta.

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“O nome Mutt era uma alusão a Mott, loja onde comprara o mictório. Diz-se que era também uma referência à história em quadrinhos ‘Mutt & Jeff’, que havia sido publicada no San Francisco Chronicle em 1907 com um único personagem, A. Mutt. Mutt era inteiramente motivado pela cobiça, um malandro imbecil com uma compulsão para jogar e engendrar planos disparatados para enriquecer rapidamente. Jeff, seu crédulo companheiro inseparável, era um interno de um asilo de loucos. Como Duchamp pretendia que Fonte fosse uma crítica aos colecionadores gananciosos e especuladores e aos diretores de museu ignorantes e pomposos, essa interpretação parece plausível. Assim também a sugestão que a inicial “R” representa Richard, um coloquialismo francês para “sacos de dinheiro”. Com Duchamp nada jamais era simples; ele era, afinal de contas, um homem que preferia o xadrez à arte”. (GOMPERTZ, 2013, p. 23).

Assim, como vocês veem, os quadrinhos, mais uma vez, através de sua inserção no imaginário popular, acabam ganhando dimensões muito maiores. A arte imita a vida. A vida imita a arte. E todo mundo imita as histórias em quadrinhos! Fazer o quê?

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Bibliografia:

GOMPERTZ, Will. Isso é arte? 150 anos da arte moderna do impressionismo até hoje. Rio de Janeiro, Zahar, 2103

WALKER, Brad. The comics before 1945. Nova York: Harry A. Abrams, Inc., 2004.

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por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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