Um Quadrinho Deve Divertir ou Passar Uma Mensagem em Primeiro Lugar?

Uma das discussões mais acaloradas nas redes sociais se deve à função primária das revistas e das histórias em quadrinhos. Em primeiro lugar, elas devem divertir os seus leitores ou devem passar uma mensagem, uma moral e educar quem está lendo uma revistinha? Esse é o dilema da vez e, a seguir, ele será destrinchado e chegado a um veredito! Come on, babe, let’s do the twist!

Será que uma criança ou um adulto vai buscar a leitura de um quadrinho com a intenção primária de se divertir ou de aprender alguma coisa com um quadrinho? Bem, não temos pesquisas sobre isso, mas eu posso dar o meu testemunho. Como eu falei naquele post contando sobre meus primeiros contatos com quadrinhos de super-heróis, eu acabei conhecendo os X-Men pelo desenho da televisão. Não estava passando a minha amada série Power Rangers, mas tinha os X-Men no lugar. Eu achei interessante a proposta do desenho. Mas só fui entender a sua mensagem depois de muitos e muitos episódios assistidos depois.

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Atenção, Rangers! É hora de citar Marx!

Claro, aprendi a respeitar as diferenças por causa dos X-Men. Acho que ninguém vai – a princípio – buscar uma narrativa, seja ela qual for,  para levar uma lição de moral, mas pra se divertir no processo. A moral é apenas a consequência. Acho que a moral pode e não pode existir em uma história. Uma narrativa não precisa de moral pra ser boa, acho que antes de tudo precisa fazer sentido, ou ainda menos que isso: precisa envolver o leitor. O leitor precisa ser chamado para ela de alguma forma ou por alguma razão que o mantenha preso até o final daquela história contada. O gibi, o livro, o desenho animado, enfim, a tal comunicação precisa entreter o leitor de uma maneira que ele não desista dela e a acompanhe até seu encerramento.

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Passando a mensagem pro Wolvie!

Ah! Mas você diz. Os X-Men foram feitos para passar uma mensagem! Olha, lendo o livro A História Secreta da Marvel Comics, por Sean Howe, a gente percebe que os X-Men foram frutos de uma época de rebuliço feito por movimentos de protesto pelos direitos civis. Eles até foram INSPIRADOS pelos movimentos sociais, mas não foram feitos para passar aquela mensagem, mas sim, espertamente, para SE UTILIZAR daquela mensagem. Talvez fosse uma revista muito avant-garde, muito à frente de seu tempo, uma vez que esses movimentos estavam ainda em franca primeira fervura.

Por isso, lendo o livro da história secreta da Marvel, lá também vai dizer que a revista dos X-Men fracassou em vendas e foi substituída pelas histórias do Surfista Prateado. A revista não atraia a atenção dos leitores, tanto é que primeiro se tornaram bimestrais e depois as revistas bimestrais passaram a trazer republicação de histórias já lançadas.

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X-Men! Pensem como eu penso! Pensem como eu penso!

A revista dos X-Men só foi fazer sucesso com o advento da revista Giant-Size X-Men #1, através da estratégia da Marvel de querer vender os personagens da editora para outros países, uma vez que os licenciamentos estavam dando muito certo. Ela havia acabado de licenciar o que aqui no Brasil ficaria conhecido como os Super-Heróis Shell, em desenhos animados curtinhos e vistos em vários países. Além disso, a toda-poderosa Hanna-Barbera havia feito um desenho animado do Quarteto Fantástico em que o Tocha Humana era substituído pelo robozinho HERBIE. E ainda vinha o desenho do Homem-Aranha e Seus Amigos.

Apesar da Marvel ter criado uma equipe multinacional de X-Men, ironicamente os personagens criados não pertenciam aos países que os desenhos animados eram vendidos. Por exemplo Colossus, vindo da Rússia, em plena Guerra Fria dos americanos com os soviéticos. E então veio Chris Claremont, que criando personagens mais esféricos e que sempre adicionava elementos de novela e de teatro nas histórias, como construir a trama aos poucos e adicionar bons ganchos para prender os leitores.

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Uma perseguição enquanto eu reflito sobre preconceito? Aí sim!

Eu até havia escrito um texto antes dessa discussão e antes de eu ler o livro de Sean Howe sobre o nascimento da Marvel, o marketing e sua estratégia de criação de tendências. Ou seja, esse texto nos leva à conclusão de que Stan Lee e Marting Goodman não estavam pensando nem na educação e nem na diversão de sues leitores. Estavam pensando sim, em sua grana, envolvendo-os em uma estratégia publicitária nunca antes vista nem em narrativa seriadas e nem dentro da sociedade de consumo de entretenimento.

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Good Man, Good Man! Very well! Take a bone here! Here!

Ademais, como o Vini, meu amigo que me fez escrever esse texto, muito bem apontou no seu vídeo, tanto os leitores que pedem diversidade, mensagens e direitos civis, quanto os leitores que são radicalmente contra, só querem se divertir e nãos e importam com cor e sexo de personagens “vão ficar sentados no sofá reclamando e não vão ler gibi nenhum!”. Vão falar de boca cheia de um assunto que entendem patavinas e nem vão contribuir com a indústria, nem com os quadrinhos e muito menos com os amigos que fazem quadrinhos. Ou seja, muito, mas muito longe do que Stan Lee e Martin Goodman gostariam, muito longe das motivações da criação dos X-Men e muito longe de contribuir efetivamente para o crescimento do mercado de quadrinhos.


Agradeço ao Sergio Vinicius por ter me chamado para perguntar sobre os X-Men, feito aquele vídeo e suscitado esse post.

 

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6 Comments

  1. A pergunta é: que quadrinho da Marvel está sendo “doutrinador”, ein? Parem aí! Está havendo um equívoco de interpretação. Já não basta grande maioria dos leitores de quadrinhos serem conservadores; eles também estão confundindo representatividade com doutrinação. Parem com isso! A tendência é que as minorias estejam cada vez mais presentes nas mídias de entretenimento. Pq? Pq as pessoas precisam se reconhecer, precisam viver aquilo. A migração muçulmana nos EUA é uma realidade tão forte que inspirou a criação de Kamala Khan. A homofobia é un problema tão sério que fez até o Homem de Gelo, galanteador das antigas, sair do armário. Capitão América negro, Thor mulher. Esta inversão de papéis é importantíssima e muitos não percebem que o q temos à frente são apenas lições de convivência e respeito, nada de doutrinação.

    Sim, os quadrinhos surgem principalmente para nos divertir; mas os quadrinhos dos anos 2010/2020 já não são os mesmos de 1960/1970 – e anda bem! Quem iria aguentar isso? Eu nao iria, sinceramente. De qualquer forma, para os incomodados, que sentem preguiça ao ver o diferente ser representado nos quadrinhos, e não somente a classe média, branca e hétero, fica a dica: leiam os clássicos, aqueles mais bobinhos da década de 60. Talvez para um conservador seja mais fácil entender que o herói tem q defender o mundo apenas daquele vilão q quer dominá-lo, já que os problemas cotidianos, de quem é oprimido por ser diferente, merecem ser ignorados aqui, afinal, é só diversão, não é mesmo?!

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    1. Oi Breno! Então, não sei se me fiz entender direito. Não quis dizer que quadrinhos com mensagem são chatos e nem que eu não leria os novos quadrinhos da Marvel. Até porque eu não acho os quadrinhos da Totalmente Nova e Diferente Marvel doutrinadores. Quem acha isso é quem não leu, como os caras da velha guarda que tu e uma monte de gente nos grupos do facebook onde eu postei esse texto comentaram que dizem “não li e não gostei”, “julgo um livro pela capa” e “no meu tempo era muito melhor”. Eu acho as histórias da Marvel atual bastante divertidas, o que elas devem ser em primeiro lugar. A mensagem tem de ficar em segundo plano. Ao se divertir com a história, ao se entreter, o leitor acaba absorvendo a mensagem (se tem mente aberta pra isso). Mas sim, tu tens razão quando diz que lugar de conservador e que odeia o novo é lendo os clássicos dos anos 60/70. E olha que a indústria de quadrinhos é cíclica, não vamos esquecer que nos anos 70 a relevância social também estava em alta. Se tu jogar “relevância social” ali na pesquisa do blog, tu vai achar um post MARA sobre isso. Então acho que o problema nem está na representatividade/doutrinação e sim na disposição das pessoas em aceitar o novo e o diferente. E, como o Viney falou, no final tanto os caras que ficam torcendo o nariz pras minorias e querem o velho de volta quanto boa parte dos que “lutam” por direitos iguais, “vão ficar sentados no sofá reclamando e não vão comprar e nem ler nada”. Ou seja, gente garganta. Que fica garganteando por aí e não faz nada pra mudar a situação. Eu simplesmente odeio gente garganta! Abraços, Breno. Espero que tenha entendido meu ponto! 😉

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  2. Acho o seguinte: sou totalmente adepto à ideia de representatividade/ diversidade em TODAS as mídias. Elas devem ser uma representação da realidade, e não a exposição de um mundo do faz-de-conta em que tudo é “belo” e “ideal”. Mas pra isso dar certo, a causa tem que ajudar na história e a história também tem que ajudar na causa. Os roteiristas, editores e executivos jamais devem pensar na bandeira antes da história, senão a chance de ficar algo meramente panfletário é muito maior do que algo que realmente contribua com a mídia em questão. O papel do cinema, televisão, literatura e quadrinhos não é esse? Entregar obras de qualidade? A diversidade é um tema importantíssimo e deve sim ser representado nas obras, mas não deve tomar a frente e tornar a obra algo panfletário, que dialogaria somente com quem milita….ou melhor, dialogaria SOMENTE com o leitor de quadrinhos adepto à causa, e não o miliatante/hater leigos que, como diz bem o texto, ficaria somente no sofá reclamando e não iria ler…

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    1. Exato, Fernando! Para que um leitor seja angariado e convencido de que uma coisa vale a pena, a estratégia é envolvê-lo na história. Isso se chama storytelling e é uma técnica que inclusive o marketing tem usado cada vez com mais frequência. Panfleto por panfleto era na época da propaganda e da URSS (e claro, dos santinhos dos candidatos). E a gente sabe bem como panfletarismo não funciona e não convence ninguém! Abraços!

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  3. É complicado, principalmente por parte da fanbase que se acha cult e se importa mais com cronologia do que a própria editora… Ainda acho incrível como a Marvel e a DC conseguem representar as minorias de forma diferente (parece até que tem um combinado: a Marvel tem um forte front de personagens não-brancos e a DC, fe personagens não-heterossexuais). Eu fiquei muito feliz com o Homem de Gelo saindo do armário, ao ponto de dar uma boa olhada no que aconteceu com os X-Men depois da bomba que foi Vingadores vs X-Men (digo a transformação que a megasaga causou nos núcleos mutantes) e acabei gostando… Sinceramente, ainda acho que um pouco desse progressismo dos quadrinhos é uma estratégia de marketing (nao que isso seja algo ruim, porque os gibis de superherois deram uma boa renovada de conceitos desde 2011/2012), mas, como vemos profissionais não brancos e não heterossexuais crescendo nos bastidores (de pouco a pouco, mas ainda sim crescendo), parece que uma parte dessa mudança é, de fato, pra valer…

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