O Problema da Nostalgia nos Quadrinhos

Uma das coisas que mais me chateia em ler nas redes sociais são pessoas que dizem “não se fazem mais quadrinhos como antigamente”, mas que não se dão nem ao trabalho de ler os atuais. Realmente dá um preguiça discutir com essas pessoas que tem preguiça de ler quadrinhos mais atuais simplesmente pela desculpa do “não li e não gostei”. Mas vamos ver o que as teorias dos quadrinhos tem a dizer sobre os “conservadores” dos quadrinhos.

Para começar, chamo o escritor do livro Nossos Deuses São Super-Heróis, Christopher Knowles, para dar um panorama geral da situação atual do fandom e de como ele foi alterado pela internet e as redes sociais:

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“A Internet criou uma convenção perpétua de quadrinhos – 24 horas por dia, sete dias por semana – com seus milhares de quadros de mensagens, salas de chat e revistas em quadrinhos online. E os criadores continuam a publicar seus próprios trabalhos, seja no formato mini, seja nos econômicos formatos preto e branco. Essas condições criaram um mercado de testes, uma verdadeira panela de pressão, para uma nova cultura popular que inevitavelmente se espalhou para outros tipos de narrativa. Todo fã de quadrinhos, hoje, é um connoisseur, e a cultura dos super-heróis contemporâneos é formada exclusivamente de, por e para fãs muito cultos”. (KNOWLES, 2008, p. 135)

Dito que a indústria dos quadrinhos é um círculo vicioso com poucas oportunidades de entrada, queria pegar emprestado as definições de Apocalípticos e Integrados, do grande pensador da cultura de massa, Umberto Eco. No seu famoso livro, Apocalípticos e Integrados, sobre a comunicação de massa – essa que existia antes da internet, que era pasteurizada e te obrigava a ter de assistir OU novela OU futebol e que era bem mais fácil de controlar você, seu vizinho e a sua cidade – Umberto Eco fala um pouco sobre o papel do crítico. OK, eu vou puxar a sardinha para o lado dos quadrinhos. Umberto Eco fala que quem controla o fluxo de informações se posiciona como um Super-Homem sobre a massa: “a comunidade reduzidíssima – e eleita – de quem escreve e de quem lê, ‘nós dois, você e eu, os únicos que compreendem, e estão salvos: os únicos que não são massa’”. Isso é ser Apocalíptico: nivelar seu público por baixo, achar que ele está sendo manipulado pela cultura de massa, que são ingênuos e ignorantes, pensar que, por deter a informação, seus leitores/público são apenas um rebanho a ser guiado pela porteira.

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“Mas nesse mundo, que uns alardeiam recusar e outros aceitam e incrementam, não é um mundo para o super-homem. É também o nosso. Nasce com o acesso das classes subalternas à fruição dos bens culturais, e com a possibilidade de produzir esses bens graças a processos industriais”. Quem nunca desejou escrever e desenhar uma história em quadrinhos? Por que essa produção deve ficar nas mãos de apenas uns poucos? Aceitar e incrementar, buscar soluções e contestar o que está errado é o que fazem os Integrados. Eles agregam e tentam fazer deste, um mundo melhor.

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Em outras palavras, os Apocalípticos acham que é o fim dos quadrinhos e os Integrados creem que existem coisas boas sendo publicadas hoje e que coisas ainda melhores virão. Mas lendo o livro Reading Comics de Douglas Wolk, chegamos a outras conclusões. Não podemos comparar as revoluções de quadrinhos de 20 anos atrás, com as de 10 anos atrás e essas com as de hoje. Seria mais ou menos como comparar a invenção da roda, com a descoberta da eletricidade e finalmente com um iPhone. Cada geração teve a sua cota de melhorias e revoluções, que levaram a outras, cada uma com uma porção de avanços, mas que não podem ser comparadas.

“Vinte anos atrás, qualquer um deles estaria dando um avanço chocante para o meio dos quadrinhos; dez anos atrás, qualquer um deles estaria na crista da onda de praticamente qualquer um de seus contemporâneos. Agora, eles são mais quadrinhos que são realmente bons, o que pode significar que eles não existem mais avanços chocantes para  os quadrinhos serem submetidos”. (WOLK, 2007, p.371)

Porém, Wolk vai mais além em sua crítica à nostalgia dos quadrinhos. Ele diz que a nostalgia, especialmente aquela pela infância, é um fardo pesado para uma mídia carregar e os quadrinho vêm levando esse fardo nas costas desde que a cultura ao redor de seu consumo começou a murchar. Assim, Wolk nos apresenta o termo nostalgie de la boue, que em tradução literal significa “nostalgia pela lama”. Ou seja um sentimento arraigado, uma saudade, uma atração pelo degradado e pelo primitivo. Um exemplo é a descrição que Colombo faz dos índios de Bahamas.

“Nos quadrinhos mainstream, a nostalgie de la boue se manifesta em histórias cujo ponto principal é disparar respostas nostálgicas nos leitores antigos – personagens esquecidos da Era de Ouro trazidos de volta e integrados à tapeçaria da continuidade; ‘retcons’ ou ‘continuidade retroativas’, usados para explicar aparentes contradições nos quadrinhos antigos ou tecer conexões onde, em primeiro lugar, não havia nenhuma”. (WOLK, 2007, p. 69)

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Você se lembra daquele perfume que as indústrias Veidt, do Ozymandias, estavam promovendo em Watchmen? O nome era Nostalgia e o slogan era “Nostalgia. Ah, como seu fantasma ainda paira!”. A estratégia de marketing de Veidt transmitia uma ideia idílica de um passado diferente, meio vago, para lidar com a sensação retraída de incerteza global e a crença de um futuro instável entre a população. O contraste entre Nostalgia e perfume que seria lançado posteriormente, Millennium, faria com que o mercado consumidor se acomodasse mais efetivamente a sua nova utopia depois da ameaça da guerra nuclear.

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Bem, no mundo real a nostalgia é um veneno, como atesta Wolk. Nostalgia é um veneno de alienação das pessoas porque ao mesmo tempo que eles não sabem exatamente porque sentem tanto apego àquelas histórias bobas da sua infância como também não sabem indicar porque as histórias atuais não servem para eles e às vezes acabam confundindo as duas. Ironicamente, um quadrinho que tanto provoca nostalgia dos antigos leitores como Watchmen, é aquele que trata este sentimento com um desprezo tão parecido ou igual ao que os velhos leitores têm dos novos quadrinhos.

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4 Comments

  1. Eu já me preocupei em ser um apocalíptico das HQs e não ser mais audiência para o que é “bom” na mídia. Ainda mais que sou um baita nostálgico do que não vivi, seja porque não havia nascido, seja porque não tinha meios nem recursos pra consumir filmes, livros, HQs, etc. Mas o que me afasta de muitas HQs não é nostalgia pelas antigas, mas as soluções fáceis: as mortes-ressurreições, os retcons, as megassagas repetitivas, os caras querendo ser “visionários” a cada edição. Quando fogem desses lugares-comuns, acabo fisgado. E a série não precisa ter nem cinco anos de existência.

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    1. Eu acho que tudo bem curtir as histórias antigas, mas viver delas e não estar aberto ao novo é que é o problema. Afinal quem vive de passado é passadeira! Abraços! =D

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  2. Que post incrível!! Eu sou um eterno Integrado hahah Sempre tento monstrar algo novo e recente pra todo mundo (nem todo mundo escuta e quase ninguem vai querer saber mais sobre o que eu falei, mas né, nao custa tentar…)

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