Caracterização: É Mais Importante a História ou o Personagem?

Muitos autores dizem que acabam colocando os personagens em detrimento da história que querem contar. Dizem que isso vale a pena quando a história é muito grandiosa para seguir uma caracterização. Um bom exemplo é Vingadores: A Queda, em que a Feiticeira Escarlate aparentemente enlouquece sem motivos e causa os eventos que levaram à minissérie Dinastia M. Mas então faço a pergunta: é mais importante a história ou o personagem?

Vamos começar falando sobre como a Marvel Comics foi concebida: personagens falhos em um universo interligado de revistas cujas histórias acontecem em cidades reais. Tudo isso serve para dar uma carga maior de verossimilhança para as histórias. Estes elementos estavam presentes desde Quarteto Fantástico #1, onde, segundo Sean Howe, em seu livro Marvel Comics: A História Secreta, é explicado que:

“Lee e Kirby fizeram o gibi evoluir a cada edição, dando ênfase ao conflitos internos da equipe disfuncional, principalmente, à melancolia imatura de Johnny Storm e à fúria e autocomiseração de Ben Grimm (seus retornos ocasionais à forma humana sempre foram passageiros, apenas uma provocação cruel frente a sua esperança de normalidade)”. (HOWE, 2013, p. 48)

carcapa
Diacho!

Em seu livro chamado Livro Ilustrado: Palavras e Imagens, as escritoras Maria Nikolajeva e Carole Scott apresentam a importância da caracterização através do diálogo:

“O diálogo entre o protagonista e os personagens secundários revela outra dimensão dele, adicionando mais camadas de informações ao estoque do leitor. Além disso, os monólogos do protagonista oferecem um modo diferente de compreender sua dinâmica. Os leitores constroem um quadro quase completo do personagem extraindo do texto informações relevantes sobre ele, fazendo inferências a partir de seu comportamento, sintetizando fragmentos de informação incluídos no texto e ampliados em sua própria imaginação”. (NIKOLAJEVA e SCOTT, 2011, p. 111)

carbitch
Scarlet Bitch!

Eu já falei sobre e critiquei muito a passagem de Brian Michael Bendis nos Vingadores (você pode ler aqui) pois a série lidava com muitos personagens e todos eles sofriam com incongruências de caracterização. O que havia sido estabelecido – perdão pela palavra monstruosa – pelo cânone, foi esquecido ou ignorado por Bendis. Mais uma vez recorro às duas autoras citadas anteriormente para enfatizar a importância da repetição e constância na caracterização dos personagens:

“Assim, as características de um personagem podem ser transmitidas ao leitor por repetição, por comparação com outros personagens literários mais conhecidos ou com pessoas reais, por contraste entre características diferentes (quase sempre boas e más), ou implicitamente, quando os leitores devem tirar conclusões por si mesmos” (NIKOLAJEVA e SCOTT, 2011, p. 111)

cartoomuch
I’m a bitch, i’m a lover, i’m a child, i’m a mother…

Em sua run nos Vingadores, Bendis foi muito criticado por fãs, críticos e por mim por escrever diálogos que não tinham caracterização, ou seja, poderiam estar na boca de qualquer um. Eram genéricos, sem marcas, sem identificação. Muitos dizem que se você tapar o personagem e ler só o diálogo, vai ser impossível identificar quem está falando. Em seu livro O Sistema dos Quadrinhos, o teórico Thierry Groensteen explica a função do balão e explica que diálogo (no balão) e personagens não podem existir um sem o outro:

“Não existe balão que não se refere, e que não se possa atribuir, a um falante conhecido ou pressuposto. A relação entre locutor e enunciado proferido é tão forte que pode falar até em um binômio funcional. Essa estrutura bipolar é um dos sistemas fecundos que organizam a leitura da história em quadrinhos. Isso se dá porque nossa percepção da cena representada e, em particular, nosso conhecimento do diálogo, não mudam conforme o lugar que ocupa o balão, seja ele abaixo, à esquerda, à direita ou acima do locutor”. (GROENSTEEN, 2015, p. 84)

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I’m a little bit of everything all roled into one!

Quero dizer antes de tudo, que adoro o Bendistalk e sua forma de deixar os diálogos mais naturais. Isso funciona lindamente em Alias, em Demolidor, Ultimate Homem-Aranha, Miles Morales e demais histórias em que o diálogo se dá entre duas pessoas. Mas parece que o careca de Cleveland se perde quando entra um terceiro ou um quarto ou um quinto interlocutor. Assim, somos levados a questionar a necessidade de utilização de determinados personagens na história, ou da utilização de mais de dois personagens na interação. Além de Groensteen afirmar que balão e personagem são interdependes, ele também afirma que a imagem tem prevalência sobre o texto:

“No binômio balão-personagem, efetivamente é a personagem que se percebe em primeiro lugar.  Como elemento desenhado e como elemento geralmente privilegiado na concepção da página, sua percepção é quase instantânea; a presença da personagem é a informação saliente que o leitor registra no instante que sua atenção recai sobre o requadro. Mesmo que ela não se saiba vista, a personagem é vista de primeira”. (GROENSTEEN, 2015, p. 84)

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Eeeepa! Rachel, o que aconteceu com teu uniforme atual? Rasgou? =P

Pra finalizar a falta de caracterização dos personagens de Bendis pode ser comparada quando um desenhista não caracteriza direito um personagem. Por exemplo: o Professor Xavier deveria estar numa cadeira de rodas, mas está em pé. Nick Fury tem um tapa-olho no lado esquerdo e não no direito. Rachel Grey está usando o seu uniforme do anos 2000 e não dos anos 2010. Talvez essa miscaracterização de Bendis não passe tão flagrante a olhos desatentos, mas aqueles que estiverem ligados vão sentir falta do seu personagem do jeito que ele é e não do jeito que o autor se lembra de como ele é.

Isso se chama continuidade. Uma coisa que é muito importante no cinema e até tem um cargo exatamente para isso: o continuista. Nos quadrinhos, esse papel, geralmente, é do editor. Mas, infelizmente não se fazem mais editores como antigamente. “No meu tempo era melhor!” UUUOOOOPPSSS! =P

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6 Comments

  1. Dá muita tristeza quando algo assim acontece (eu mesmo sou fã da Feiticeira e fico com mo dó do limbo que ela levou depois de Dinastia M) e os crossovers da Marvel são cheios disso (talvez até porque ultimamente a maioria fica pro Bendis kkk), por isso que nem costumo ler esses novos mega eventos… E isso que você falou do Bendis faz muito sentido!!! Lendo Novíssimos X-Men e Fabulosos X-Men tá tudo ok e legal… Aí veio a Batalha do Átomo meio meh… Mas ainda to pra ver como vai ser a linha dos X-Men sem ele (espero que não caia numa mesmice @.@’…)

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    1. Tadinha da Wandinha Adams! Eu realmente gosto dela, mas o Bendis a mandou pra Terra das Ostras que Cismam. E eu gosto dos X-Men dele e da Batalha do Átomo, por incrível que pareça! Abs!

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      1. “Wandinha Addams” kkk Acho que foi um acordo pra só deixar ela nas tramas dos vingadores (o horrível Fabulosos Vingadores, no caso x.x)… Abs ^^

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  2. FEITICEIRA, o nome ja diz tudo, feiticaria. Bruxaria.
    Eu era umbandista.
    E na umbanda se cultua os mortos.
    E os mortos tem uma série de guardiães que cuidam da entrada, saída e manutenção da alma dos desencarnados (que a gente chamava de Kiumba).

    Essas entidades são, digamos, drásticas.
    E pedem que se entregue a elas uma série de coisas que não convém mencionar.

    Pega teu maior medo.
    O maior horror que você tem na vida.
    Sei lá, ver a cabeça da sua mãe cortada na mesa da sua casa. Sua avó descarnada, seu pai morto num acidente de carro, sei lá.

    Esse medo, esse horror, é uma forma de energia que Exu manipula, agrega, concentra e pode ou não fazer uso magístico dessa energia. Para tanto ele pede esses materiais para que você se livre das coisas ou as encaminhe aonde ela tem que ir… ou mande em cima de seus inimigos.

    Magia é isso, é a manipulação das forças do seu Inconsciente que ficam de tal maneira agregadas que chegam a fazer efeito no plano físico, afetando desde o corpo do camarada à mente dele.

    A função da entrega no cemitério tem muitas funções mas, nesse caso, conhecer a “casa” aonde as almas habitam e, pior, VER as almas ali… te juro, eu não quero que nenhum de vocês cheguem perto das coisas que eu vi naqueles lugares. Prefiro vocês bobinhos, ingênuos e arrogantes.

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