Os Problemas e as Soluções da Fantasia nos Quadrinhos

Quadrinhos, em sua maioria são baseados na fantasia. Claro, existe a alta fantasia, aquela estilo Senhor dos Anéis que envolvem dragões, magos e peripécias em mundo estilo medieval. Mas a fantasia faz parte da nossa fantasia de leitor e nos ajuda a mergulhar na história. Mas possui seu lado bom e seu lado ruim. Aqui vou falar um pouco sobre isso.

fanmumiaPara que possamos penetrar na história de um livro, de um filme ou de um quadrinho, precisamos estabelecer um pacto com a leitura. Esse pacto se chama, conforme os estudiosos da narrativa o nomearam, “suspensão da descrença”. “O leitor deve saber  que o que está sendo narrado é uma história imaginária, mas nem por isso deve acreditar que o escritor está contando mentiras” (ECO, 1994, p. 81).

Vou contar uma historinha pra vocês. O primeiro filme que fui assistir de bando na minha época da faculdade foi O Retorno da Múmia (2001), com Brendan Fraser e Rachel Weisz (sim, eu sou velho!). O filme é recheado de coisas insólitas, desde uma múmia que volta à vida, a seres compostos por escaravelhos e barcos voadores no deserto. Bem, acabado o filme, nós, como bons estudantes de comunicação, fomos discuti-lo. Uma das minhas colegas disse que aquele era um filme impossível e que não convencia ela porque era fantástico demais.

Nesse caso, a minha colega não havia usado da tal “suspensão da descrença”. Ela não havia feito um pacto com o filme antes dele começar. Ela o assistiu o tempo todo com desconfiança e, ao invés de aceitá-lo como é, ela não suspendeu sua descrença, assim, o filme pareceu “fantástico demais”. O que quero dizer é que não existe fantasia demais ou fantasia de menos. O que existe, por outro lado, são recursos narrativos que podem cansar o leitor ou espectador e dar essa sensação de que “forçou a barra”.

fanfunhome

Segundo Umberto Eco, o verdadeiro atrativo de qualquer ficção, seja ela verbal ou visual, é nos encerrar nas fronteiras de seu mundo, estabelecendo para nós os limites e as regras do mesmo. Assim, ela faz com que nós, de uma forma ou outra, a levemos a sério. Tudo isso só é possível, porque toda boa ficção traz elementos do mundo real e os personagens reagem como se vivessem no nosso mundo – guardadas as proporções.

“Temos de admitir que, para nos impressionar, nos perturbar, nos assustar ou nos comover até com o mais impossível dos mundos, contamos com nosso conhecimento do mundo real. Em outras palavras, precisamos adotar o mundo real como pano de fundo. Isto significa que os mundos ficcionais são parasitas do mundo real’ (ECO, 1994, p. 89).

fanwatch

Portanto dizer que obras como Watchmen e Planetary são “super-heróis no mundo real”, é um grande equívoco. No mundo real, Nixon não se demorou no poder mais que um mandato, enquanto nas páginas de Watchmen ele está no poder até 1986. Mesmo quadrinhos autobiográficos, como Fun Home ou Retalhos não são mundos reais. São narrativas ficcionais, uma vez que seus autores se ocupam de recursos narrativos, visuais e estilísticos para ir e voltar no tempo ao seu bel-prazer. Esse fator, entretanto, não impede que o leitor deixe de se identificar com os personagens e estabelecer para estes um recorte do mundo real que ele, o leitor, aprendeu a conhecer para que eles morem.

fanwarUm exemplo de quando a ficção invade a realidade foi a locução que o ator, diretor e produtor de cinema Orson Welles fez do livro A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. A cena narrada mostrava uma invasão de Nova York pelos triplóides, alienígenas marcianos. A narração, difundida pelo rádio em cadeia nacional, era tão vívida e as palavras de Wells tão convincentes, que muita gente lá nos Estados Unidos da década de 30 acreditou que sim, o país estava mesmo sendo invadido pelos marcianos. Esta história depois foi homenageada por Alan Moore e Kevin O’Neill no segundo volume da Liga Extraordinária.

Essa é uma das maravilhas da suspensão da descrença que, pode, sim, ser prejudicial, como fazer uma lavagem cerebral nas pessoas. Algumas pessoas que não sabem interpretar as ironias veneram anti-heróis como Lobo, Juiz Dredd, Justiceiro e, por que não dizer, o Batman, achando que a violência extrema deles que os escritores e desenhistas passam nas HQs é algo a ser louvado, quando na verdade seus criadores estão estabelecendo uma crítica feroz à violência descabida nestas histórias. O infortúnio é que muitas vezes alguns roteiristas e desenhistas também não sabem interpretar essa ironia e acabam construindo histórias ainda mais truculentas. Isso é o que acontece quando o leitor ficcional traz a informação errada do mundo real, seus valores e seus parâmetros.

fandredd

Umberto Eco diz que acha que lemos histórias de ficção “porque nos dá a confortável sensação de viver em mundos em que a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece mais traiçoeiro” (ECO, 1994, p. 97). Esse é o problema de algumas pessoas com o mundo real: elas não sabem relativizar. Acreditam que o mundo é feito de mocinhos e bandidos e, os que não concordam com elas, é claro, são os “carinhas do mal”. Vivemos em um mundo em que o maniqueísmo – a separação entre bem e mal – é cada vez mais presente, seja na cultura popular que consumimos e não é à toa que filmes de heróis estão em alta, seja nas discussões nas redes sociais, sejam elas políticas ou não.

Os produtos da cultura popular, sejam eles romances, gibis ou filmes, geram nos aficcionados uma grande carga de expectativa e, se ela não é atendida, gera uma grande negatividade para seus produtores, que nenhuma suspensão de descrença pode acalmar. E você sabe qual é o problema com a expectativa, não é? É que ela é feita de fantasia. Construímos na nossa mente um mundo imaginário onde todas as coisas ou dão muito certo, ou dão muito errado. Diferente da realidade, que não é uma coisa nem outra. ode ser bom pra mim, pode não ser bom pra você.

fanstrange

A diferença entre o mundo ficcional e real entra mais ou menos dentro dos parâmetros da nossa expectativa comparada com a realidade: uma delas possui limites no que tange às possibilidades, a outra, aparentemente, não. Essa é a função da narrativa de ficção, principalmente daquelas que se aproximam dos mitos, como a literatura fantástica ou os quadrinhos de super-heróis: encontrar uma forma no tumulto da experiência humana. O nosso limite, para aceitarmos a fantasia de uma história, é do tamanho da nossa experiência com o mundo real.


Bibliografia:

ECO, Umberto. Seis passeios pelo vale da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Anúncios

2 Comments

  1. Parabéns pelo texto e os exemplos elencados. Apenas teria usada “fantástico” no título ao invés de “fantasia” para abarcar melhor as obras citadas, visto que Fantasia como está sendo apresentado é mais utilizado na crítica inglesa no original Fantasy, enquanto o Fantástico indica o modo narrativo que engloba várias vertentes como o Gótico, a FC, a Fantasia e o Realismo Mágico.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s