A Sua Zona de Conforto e o Legado da Diversidade

Já falamos muitas vezes aqui de como as revistas em quadrinhos de super-heróis por um lado exigem personagem imutáveis e, por outro, faz com que eles acompanhem as transformações da sociedade. Também falamos da característica infinita das narrativas de super-heróis – elas nunca acabam, estão sempre contando mais e mais histórias desses personagens. Já falamos ainda da importância da diversidade nos quadrinhos. Hoje vamos falar sobre essa dicotomia entre imutabilidade x transitoriedade.

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E SE… o Superman se casasse?

Em seu livro Apocalípticos e Integrados, que eu cito sempre aqui, o teórico Umberto Eco falou em seu artigo sobre o Mito do Superman: que “uma cultura de entretenimento jamais poderá escapar de se submeter a certas leis de oferta e de procura”, (ECO, 2001, p. 60) ora, quadrinhos fazem parte da cultura de entretenimento e o seu conteúdo é desenvolvido de acordo com suas audiências. Para que os super-heróis não morram – e nesse caso seria uma morte comercial -, eles devem se fixar na cabeça do leitor como arquétipos, ou seja a soma de determinadas características que formam um personagem, ao mesmo tempo que devem se desenvolver em suas histórias e avançar no mesmo ritmo que as mudanças no status quo mundial. Segundo Eco, a personagem de quadrinhos de super-heróis deve “imobilizar-se numa fixidez emblemática que a torne facilmente reconhecível; mas como é comercializada no âmbito de uma produção ‘romanesca’ para um público que consome ‘romances’, deve submeter-se àquele desenvolvimento característico”. (ECO, 2011, p. 251)

“O Superman deve, portanto, permanecer inconsumível, e todavia consumir-se segundo os modos de existência cotidiana. Possui as características do mito intemporal, mas só é aceito porque sua ação se desenvolve no mundo cotidiano e humano da temporalidade. O paradoxo narrativo, que os roteiristas do Superman têm, de algum modo, que resolver, mesmo sem estarem disso conscientes, exige uma solução paradoxal na ordem da temporalidade”. (ECO, 2001, p. 253)

O fator legado e a mudança de manto dos super-heróis tem sua origem no final da Era de Ouro, que se encerrou no fim da Segunda Guerra Mundial. Depois dela veio a Era de Prata, em que Flash, Lanterna Verde e demais heróis foram reimaginados com um background de ficção científica.

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Flash e Lanterna Verde. Da Era de Outo (esquerda) e da Era de Prata (direita).

“A destruição provocada pelo conflito, que deixou países destruídos e um número devastador de mortos, abalou as expectativas sociais. Já não havia mais esperança de ver os problemas sendo resolvidos por heróis universais. A noção maniqueista de bem contra o mal já não importava, pois se percebia que a linha que separa um conceito de outro era, e é, muito tênue. Foi necessária uma profunda mudança no meio para que o mercado se abrisse novamente e os leitores voltassem a se interessar” (VERONESI, 2010, p.43 e 44)

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Os Totalmente Novos, Totalmente Diferentes Vingadores: símbolos da atual diversidade nos quadrinhos.

“O leitor de quadrinhos pós-moderno deixou de apreciar a aventura e passou a procurar temas mais reflexivos e abstratos. As histórias têm, agora, total independência em relação a tudo o que havia sido feito, tanto no sentido de negação quanto no de incorporação. Por isso, personagens podem morrer e reaparecer diversas vezes sem que precise dar uma explicação para isso. Eles também podem ser desonestos, sombrios e fracassados. O prazer de ler passa agora pela variedade de histórias, pela capacidade de estar sempre em transformação. Seja pela ironia e bom humor, seja pela incitação da libido, seja pela nova atitude do (anti)herói, as comic strips do pós-industrial encontraram uma maneira de adentrar no imaginário dos leitores levando a eles seres falíveis, tão humanos quanto eles” (VERONESI, 2010, p.45)

A influência da pós-modernidade, uma época em que as certezas inexistem, para os quadrinhos é essa hibridização de referências que vêm das mais diversas áreas do conhecimento das mais diversas partes do globo. A transformação não vem de uma vez, ela vai transformando as mídias de entretenimento aos poucos. Esse fator da dicotomia entre imutabilidade do heróis e a transitoriedade das narrativas de quadrinhos seriados é explicada pelo estudioso da comunicação Edgar Morin:

“Uma vez que as necessidades de assimilação afetiva se dirigem em primeiro lugar aos heróis dos filmes (e também dos quadrinhos), as estrelas foram o primeiro objeto desta transformação. Certamente os heróis continuam heróis, isto é, modelos e mediadores. Mas, combinando cada vez mais intimamente, e de forma variada, o excepcional e o habitual, o ideal e o cotidiano, eles passam a oferecer pontos de apoio mais realistas” (MORIN, 1989, p. 13).

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A Brasileira Jéssica Cruz e o muçulmano Simon Baz: os atuais Lanternas Verdes da Terra.

O legado e a passagem do manto não é algo de hoje. Peguemos o exemplo do Lanterna Verde. Na Era de Ouro, ele era Alan Scott, magnata das telecomunicações. Na Era de Prata, Hal Jordan, piloto de caças de testes da  força-aérea. Na Era de Bronze, esse papel foi dividido entre o arquiteto negro John Stewart e o professor de educação física Guy Gardner. Nos anos 90, o desenhista Kyle Rainer usava sua imaginação visual para dar vida aos construtos verdes. O Alan Scott da Terra 2, é gay, hoje em dia.  Atualmente os Lanternas Verdes do planeta Terra tem um caráter mais diverso, refletindo as tendências sociais, assim como seus antecessores. Temos Simon Baz, um muçulmano americano, que já foi preso e Jéssica Cruz, uma brasileira que já foi abusada sexualmente.

Ou seja, quem não está aberto para o diverso, não está aberto para o avanço e não está disposto a viver no mundo em que vivemos, mas talvez em algum recôndito de um passado inacessível:

“A marca registrada da pós-modernidade é o pluralismo, ou seja, a abertura para posturas novas e tolerância de posições divergentes. Na época pós-moderna, já não existe mais a pretensão de encontrar uma única forma correta de fazer as coisas, uma única solução de fazer as coisas, uma única narrativa que amarre todas as pontas. Talvez pela primeira vez desde o início do processo de industrialização, a sociedade ocidental esteja se dispondo a conviver com a complexidade ao invés de combatê-la, o que não deixa de ser (quase que por ironia) um progresso (CARDOSO, 2000, p. 208 e 209)

Se a palavra complexidade é tida como sinônimo da forma que vivemos hoje, ela entra em confronto com a simplicidade com que as histórias em quadrinhos eram produzidas e são encaradas nos dias atuais. Talvez por isso muita gente não aceite a diversidade e a passagem de manto dos super-heróis. Elas querem tempos mais simples, em que as narrativas dos quadrinhos serviam apenas para jogá-las para fora do mundo onde vivem, sem ter que se preocupar como que ocorre no mundo real. Ao colocá-las frente à questões prementes, essas pessoas se afastam dessas narrativas porque elas os confrontam, elas exigem deles mais do que uma simples leitura superficial e os tiram de sua zona de conforto.

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Template do Sequential Tart em 2017.

Um exemplo de leitoras que querem ser tiradas da zona de conforto – e mais – querem tirar você, seu irmão, seu cachorro e periquito de lá são as meninas do site Sequencial Tart. O site fundado em 1997 tem como missão mostrar que diversidade é importante, mas não só a diversidade retratada nas revistas de super-heróis. Elas querem dizer que leitoras mulheres, gays ou negros não querem somente UM TIPO de quadrinhos, eles querem ver diversidade também na forma que são retratados. Afinal, pode existir uma leitora que seja mulher, negra e gay ao mesmo tempo. No site, elas buscam mostrar que a leitoras também tem poder aquisitivo e tentam quebrar o estereótipo do corpus de leitura que se tem das mesmas. na publicação on-line, suas articulistas querem destacar o trabalho de quadrinistas e editoras mulheres que muitas vezes passam despercebidos pelos leitores em geral. Para isso publicam análises, críticas e entrevistas sobre o trabalho destas pessoas e os trazem à público no site.

Um dos quadrinhos do início do século XXI que reflete essa  vontade de maior participação do leitor de quadrinhos no entretenimento que consome, é Frequência Global, de Warren Ellis, que  retrata uma organização multirracial e multinacional de pessoas comuns que contribuem com serviços quando solicitadas:

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Aleph, personagem de Frequência Global.

“Ellis rejeita os poderosos semideuses e grupos de elite da tradição dos super-heróis; em vez disso, retrata o equivalente do século XXI às brigadas de incêndio voluntárias. Ellis concebeu a história na esteira do 11 de setembro como uma alternativa ao clamor por maior poder estatal e restrições paternalistas às comunicações: a Frequência Global não imagina o governo salvando os cidadãos de qualquer mal que os aflija. Em vez disso, como explica Ellis, ‘em Frequência Global, nós mesmos nos salvamos’. Cada edição enfoca um conjunto diferente de personagens, num cenário diferente, examinando o que significa para os membros da Frequência Global, pessoal e profissionalmente, colaborar com o seu trabalho por uma causa maior”. (JENKINS, 2009, p. 333)

O quadrinho de Warren Ellis mostra que no século XXI a cultura da participação está mais ativa do que nunca. Afinal, a gente até anda comprando nossos quadrinhos em campanhas de crowdfunding como o Kickstarter e o Catarse e alguns de nós pagam para se tornarem personagens em histórias dessas campanhas de arrecadação de recursos pela internet. Participar, seja criticando ou apoiando um quadrinho na internet é uma cara dos novos tempos dessa mídia. Por isso aceitar a diversidade seja dentro ou fora das histórias é importante. Afinal, você quer que sua opinião seja lida e entendida pelo receptor lá na outra ponta. Então, que tal você olha para o lado e começar a fazer o mesmo? É o primeiro passo para longe da Zona de Conforto!

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A seita que dói menos!

Bibliografia:

CARDOSO, Rafael. Uma introdução à história do design. São Paulo: Edgar Blücher, 2000.

ECO. Umberto. O Superman de massa. In: Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2000.

JENKINS, Henry. Cultura da vonvergência. São Paulo: Aleph, 2009.

MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

VERONESI, Márcia. Quadrinhos na internet: abordagens e perspectivas. Porto Alegre: Asterisco, 2010.

 

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