Uma Volta Pelo Inferno: Kid Eternidade, de Grant Morrison e Duncan Fegredo

A maioria das histórias de Grant Morrison são assim: geram múltiplas interpretações a cada leitura. Basta escolher a sua. Esta, ainda do período inicial da Invasão Inglesa, com a reinterpretação dos personagens clássicos da DC Comics, mostra toda a verve mágica do careca inglês, que tempos mais tarde iria unir tudo isso em séries como Patrulha do Destino e Os Invisíveis.

kidfourtiesO Kid Eternidade original foi criado em 1940, na revista Hit Comics#25, por Otto Binder e Sheldon Moldoff, para a Quality Comics, casa do Spirit e do Homem-Borracha. O Kid era uma criança que vivia com seu Vovô em um barco que foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a criança havia morrido 75 anos antes do devido. Por isso foi lhe dado o poder de invocar personagens históricos já falecidos ao gritar a palavra “Eternidade”. Sim, uma espécie de cópia do Capitão Marvel, Shazam. Durante os anos 70, Kid Eternidade foi trazido para a DC Comics como o irmão perdido de Freddie Freeman, o Capitão Marvel Jr.. Ele se chamava, então Christopher “Kit” Freeman.

No clássico dos anos 90 de Morrison e Fegredo, a história dá um giro. Nosso protagonista não é o Kid Eternidade, mas Jerry Sullivan, um comediante de stand-up claramente inspirado no sucesso dos anos 90, Jerry Seinfeld. Assim como a série de Seinfeld, a minissérie do Kid Eternidade também é uma história que fala “tudo sobre nada”. Afinal, é uma história sobre o Caos e o caos é o tudo e o nada ao mesmo tempo. Isso explica a infinidade de cortes e deslocamentos da história na primeira parte, em que o leitor fica perdido com a narrativa pós-moderna da revista em quadrinhos.

kidstandup

Na segunda parte, Jerry Sullivan finalmente encontra o Kid Eternidade e os dois vão em busca dos Mapas do Inferno para libertar de lá o parceiro do Kid, o Senhor Zelador. Em um momento Kid diz para Jerry que a visão que temos do inferno não é constante e tudo lá muda de acordo com o momento e observador. Ao que Jerry pergunta para que serve um mapa do inferno. Mais tarde, Jerry afirma que o inferno vive dentro de nós. Logo, precisamos de um mapa do infernos para conhecermos melhor a nós mesmos.

A obtenção do conhecimento pelos seres humanos sempre foi uma disputa entre céu e inferno desde o tempo de Adão e Eva. Em Kid Eternidade não poderia ser diferente: os Lordes do Caos e da Ordem disputam a liberação de mais uma era de conhecimento sobre a humanidade. Enquanto os Lordes do Caos querem liberar esse éon ao custo de guerras e destruições, os Lordes da Ordem preferem deixar tudo como está. É nesse momento que Kid Eternidade adentra seu inferno pessoal conhecendo a verdade sobre sua origem.

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Os desenhos  de Duncan Fegredo estão bem diferentes do que costumamos ver em Hellboy, aqui ele emula o trabalho de Dave McKean e Bill Sienkiewicz. Já o roteiro de Grant Morrison lembra os Livros da Magia de Neil Gaiman, em que uma pessoa é levada em uma road storie em busca de conhecimento, mas também encara a máxima das histórias de Alan Moore “tudo que o personagem sabia sobre si mesmo era uma mentira”.

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Kid Eternidade teve várias outras encarnações na DC Comics. As mais recentes foram como membro dos Novos Titãs, um pouco antes do final da série, quando a equipe era liderada pela Moça-Maravilha. Nos Novos 52, ele teve uma série digital, através do selo National Comics, escrita por Jeff Lemire e desenhada por Cully Hamner, mas que não saiu no Brasil. Ainda não se sabe qual o papel do personagem no Rebirth da DC Comics.

Enfim, Kid Eternidade é um dos personagens mais obscuros da DC Comics revividos pela Invasão Inglesa. O interessante é que ele permanece bastante obscuro mesmo depois dessa revitalização até os dias de hoje. Mistérios da vida (e da morte). A morte é uma coisa engraçada. como diria Jerry Sullivan.

 

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3 Comments

  1. O seu texto ajudou na minha compreensão desse encadernado. Sinceramente, por vezes achei cansativo essa HQ pela dificuldade de interpretar as idas e voltas no texto somadas à essa arte densa. Outra coisa que me incomodou foi o final em aberto. Fiquei na dúvida se a dupla de artistas pretendia continuar com o título e isso não ocorreu por algum motivo.

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