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[RESENHA] Obrigado, Caro Logan

Desde que li alguns quadrinhos clássicos do Wolverine, fiquei com o pé atrás no assunto ligado ao mutante. Já havia algum tempo que ia ao cinema com a esperança de identificar um Logan que eu curtisse da mesma maneira eu curtia quando lia histórias violentas e animalescas sobre o Carcaju.

Apesar do mau desenvolvimento da sua recente morte nas histórias em quadrinhos, lançada em 2014, sua despedida trouxe em mim um sentimento de partida. Há um bom tempo que não lia nada de heróis e ao ler a morte do mutante que mais me interessava senti uma despedida que representava a minha relação com o gênero dos collants: “tá na hora de aceitar que, além de você estar ficando velho, os personagens estão morrendo (mesmo que seja pela décima vez)”.

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O mesmo aconteceu no cinema com a despedida de Hugh Jackman como o herói bichano. Minha ida para o cinema, quando criança, para ver X-men jamais me deixou. Eu me lembro de cada cena; lembro-me de cada personagem; lembro exatamente do meu sentimento quando vi pela primeira vez o Carcaju mutante. E agora no cinema, de alguma maneira, me despeço do herói que me rendeu meu primeiro bonequinho (horrível, de plástico), antes mesmo dele se chamar action figure.

Mas o sentimento nostálgico é justificado pela eficiência cinematográfica com que o filme Logan (2017), dirigido por James Mangold, é apresentado. É um filme seco, sem ter a intenção de bagunçar a tela com luzes vindas do céu, ou antagonistas com voz afetada. Os créditos iniciais já marcam a ideia do filme – apenas uma fonte branca, simples, marca a tela preta. Logan mostra-se um filme dramático, um filme para ser visto por quem gosta, além de heróis, de cinema.

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A cinematografia é sutil e bem crua, sem muitos movimentos inovadores ou de ação desenfreada. As cenas de luta, muito bem coreografadas, são acompanhadas de enquadramentos que valorizam cada golpe, cada garfada das garras do protagonista e da sua jovem versão (X-23). FINALMENTE podemos dizer que vimos a verdadeira animalidade de Logan se exaltar na tela e saltar com marcas de sangue para os olhos da nerdaiada sedenta por tripas. Logan estava lá, mais do que nunca.

Mas nem só de violência se faz um bom filme. A caracterização de Logan no cinema sempre foi marcada pelas suas relações amorosas e os dramas de suas perdas, sobretudo das suas paixões. Além disto, ao longo das suas aparições com o grupo X, o mutante mostrou-se fundamental em várias narrativas, concretizando sua relevância em filmes como Dias de um futuro esquecido (2014), em que ele praticamente “carrega” a obrigação de ajeitar a bagunça criada pelas linhas temporais dos mutantes no cinema, e apresentando a despirocada relação com a Jean Grey na trilogia inicial encabeçada pelo Bryan Singer. Tudo isto, fica evidente na carga dramática da narrativa, mostrando não apenas os traumas do protagonista como o seu excessivo cuidado pelo seu mentor Xavier.

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A atuação do filme é o ponto mais alto. Por não se esgueirar um filme carregado de pirotecnias, o peso dramático e a condução do enredo estão presentes completamente nos atores. Os diálogos, as cenas de interação, tanto humorísticas como mais sentimentais, pareciam exigir do elenco um desempenho incomum para os filmes dos X-men. Professor Xavier (Patrick Stewart) está estupendo. Sua doença degenerativa, como a culpa que carrega por atos passados (que enaltecem o mistério envolto a sua doença), são elementos que aparecem na voz do protagonista, no gestual fraco e de um velhinho meio bobo, mas muito poderoso. A contradição marca a personagem justamente porque conhecemos a mentalidade de um gênio como Xavier, mas sua caracterização, agora, pende para alguém que precisa de ajuda até para ir ao banheiro. Esta dicotomia entre mestre e homem destruído é muito profunda e me levou aos prantos no cinema.

O mesmo pode-se dizer de Logan. Seu passado está presente nas rugas, no olhar cansado (e muito vermelho), no adamantium que destrói seu organismo, e nos grotescos desvios que o mutante faz quando tem de se deparar com seu passado e consigo mesmo. Mas ao mesmo tempo, sua animalidade está muito evidente. Há uma cena em que sua presença é pré-anunciada por um grunhido, um grito intenso e animalesco – arrepiou. Este me pareceu um Wolverine genuíno, que dá porrada e arranca membros, mas nutre um sentimento forte pelo seu passado na mansão X e por aqueles que perdeu ao longo da vida. Isto também se evidencia no seu medo de se relacionar com a X-23.

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A nova Wolverine não deixa a desejar. A X-23 (Dafne Keen) rouba a cena em diversos momentos, mostrando porque é um clone de Logan – sua fúria arranca cabeças e não dá espaço para muito mimimi. Mas ao mesmo tempo, ela carrega uma tentativa de se relacionar com os mutantes, dando margem para a sua esperança no Éden, onde poderá viver com os amigos que sofreram o mesmo que ela. As sequências de luta com ela são incríveis e a coreografia usa o tamanho da menina para enaltecer sua força e brutalidade. Cabeças rolam, e parecem sair de verdade das suas mãos.

O casting do filme, ao meu ver, é o ponto alto, mas o antagonismo não é muito relevante (eu não curti o vilão principal). O defeito do filme está em tentar ambientar um cenário perigoso para a jornada dos três, mas este cenário não apresenta muitos riscos, a não ser obrigá-los a peregrinar para a terra prometida. Talvez funcione para a proposta sintética do filme, mas não demonstrou muita eficiência na inserção dos elementos vilanescos-sobretudo no fim do segundo ato. Mas isto não é pior que a apresentação do laboratório dos novos mutantes, uma cena preguiçosa e mal elaborada, com direito a vídeo de celular pra explicar o porquê de alguns personagens existirem. Valha-me deus.

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No entanto, estes defeitos não diminuem o filme. O ritmo é bem construído, os espaços e diálogos entre o trio principal são bonitos e acolhedores e a trilha sonora é incrível: pesada, com notas dissonantes e o crescente em tons menores. Uma ambientação sinistra para enfatizar o drama.

Em suma, eu queria me despedir do legado de Logan no cinema sem ter que recorrer às “Origens” para descrever sua passagem. E acho que agora há um filme pra deixar na estante e reassistir, e reassistir, e reassistir, até que eu fique velho e tenha que proteger minhas crias do mundo hostil em que vivemos. Porque agora, Logan parece um pouco comigo, ou com todos nós. Valeu Logan. Obrigado por me levar ao cinema (em 2001 e em 2017) e me explicar, em ambas às vezes, porque eu gosto tanto deste universo.

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