O “Complexo de Vira-Lata” dos Quadrinhos

Em 1950, em pleno Maracanã, a Seleção Brasileira foi derrotada pela Seleção Uruguaia de Futebol, na final da Copa do Mundo daquele ano. Uma crônica do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues atribuiu a derrota do time brasileiro à uma espécie de trauma, que batizou de viralatismo. A seleção só se recuperaria do choque em 1958, quando ganhou sua primeira Copa do Mundo de Futebol. Mas isso não se aplica somente ao futebol ou aos brasileiros. Aqui, vamos ver como isso se aplica aos quadrinhos.

Para Rodrigues, o fenômeno se espalhava para outros campos: “por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. Mas não são só os brasileiros, ou quiçá os produtos tupiniquins que sofrem deste complexo, podemos verificá-lo em uma mídia inteira, que é o caso dos quadrinhos em relação às demais artes e mídias.

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Sempre se perguntou: os quadrinhos seriam arte? Seriam uma forma de literatura? Conforme vimos neste link, quadrinhos não são literatura. Mas são sim, uma forma de arte, uma arte comercial, mas ainda assim, uma arte. Talvez por carregar esse estigma de produto, que é reproduzido aos milhares, e que perde sua aura de arte, como bem destacou Walter Benjamin, é que as pessoas não dão o devido valor a essa forma de expressão humana.

Entretanto, essa valorização é relativa e pode ser encarada de várias maneiras. Pierre Bourdieu em seu livro A Economia das Trocas Simbólicas cunhou o termo Bens Culturais, que são os produtos que trazem Acumulação Simbólica para um grupo social. Acumulação Simbólica quer dizer que aquele produto ou expressão possui uma carga de significado para uma sociedade que passa a ser valioso para ela.

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Se fossemos analisar pelo valor econômico, ou seja, o dinheiro, existem alguns quadrinhos que valem menos de dois dígitos de moeda, como os gibis de banca, alguns que valem um preço elevado e são acessíveis a apenas uma parcela abastada da população, como as graphic novels e os quadrinhos de leilões, que, assim como obras de artes famosas, são avaliados em milhares de dólares por sua importância histórica e/ou contextual.

Mas na acepção da sociedade, os quadrinhos são uma forma de expressão menor. Por que razões isso pode ter acontecido? As principais razões são políticas. Durante a Segunda Guerra Mundial os gibis norte-americanos atingiram seu ápice. Os gibis do Superman vendiam 2 milhões de cópias por mês durante os tempos de guerra. Isso era explicado com a máquina ideológica dos aliados insuflando sua venda, seja na ajuda para a compra de bônus de guerra, como como material de propaganda e mais ainda como panfleto para animar as tropas que estavam do outro lado do Atlântico.

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Essa ideologia se dava através da dominação dos profissionais. Como os super-heróis vendiam muito, eram criadas as shops, onde, num modelo de produção que deixaria Ford orgulhoso, os quadrinistas dividiam as tarefas, para vender páginas de quadrinhos à preço de banana para as editoras. Esse posicionamento dos profissionais dos quadrinhos, uma herança das revistas pulp dos anos 20 e 30, como subservientes à editora, ajudou a desvalorizar a produção de quadrinhos e a criação de personagens.

Lembremo-nos da célebre história em que Jerry Siegel e Joe Shuster venderam os direitos do Superman junto com suas primeiras tiras pela irrisória quantia de cento e trinta dólares. O crédito, seja ele moral, por escrito ou financeiro, aos roteiristas e artistas dos quadrinhos só veio se concretizar em 1975 quando Neal Adams criou a primeira associação de produtores de quadrinhos.

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Entretanto, quem vai dizer se quadrinhos são, ou merecem ser qualificados como arte, como uma mídia plena? Assim como na arte, existem forças que legitimam uma obra como Arte ou não. Para isso existem marchands, galerias, críticos, museus que fomentam o mercado da arte e fazem com que ele circule. Entretanto, num mundo dos quadrinhos isso é muito escasso. É possível contar nos dedos o número de museus dedicados a essa expressão humana. A crítica aos quadrinhos ainda não é estabelecida e não é levada a sério como a do cinema.

Os estudos sobre quadrinhos estão sempre evocando outras artes e mídias porque não existe uma teoria específica para os quadrinhos por ser uma expressão híbrida, transcultural e intercultural. Os marchands dos quadrinhos são apenas velhacos matreiros que estão atrás de dinheiro fácil e que acabaram gerando bolhas especulativas no mercado como a que ocorreu nos anos 90. Por fim, diferente da arte ou da literatura, é muito difícil que um trabalho de quadrinhos seja redescoberto e valorizado ou ainda descoberto como uma grande virtuose do meio.

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Esse complexo de vira-lata dos quadrinhos, acaba se multiplicando quando aplicado aos quadrinhos brasileiros. Há quem acredite que, para um quadrinho ser bom, é preciso existir super-heróis. Assim, se criaram os super-heróis brasileiros. Um produto que não funciona em nossa realidade, pois ele não teve a mesma historicidade e contextualidade do surgimento do super-herói americano. Segundo Humberto Mariotti: “No Brasil, e não só aqui, o nacionalismo cultural inclui a aversão à leitura, e sobretudo àquilo que muitos consideram a mais execrável de todas as atividades: pensar, refletir e discutir ideias com outros também dispostos a fazer isso”. Isso inclui dizer ou pensar que quadrinho bom são os de super-heróis, quadrinhos de apelo simplório, que não levam à reflexão e, quando levam, ela não é discutida ou assimilada pelo público médio brasileiro exatamente por sua aversão à leitura e a uma interpretação discutida com mais profundidade.

Mariotti conclui afirmando: “Como todo reducionismo, esse também produz resultados obscurantistas. Essa limitação nos leva, por exemplo, a imitar o que a cultura americana tem de pior (a massificação, a competição predatória, o imediatismo) e a não procurar aprender e praticar o que ela tem de melhor (a pontualidade, a objetividade, a pouca burocracia)”. Se os quadrinhos – tanto os brasileiros quanto os demais – não levassem em conta os pontos pejorativos da cultura americana, mas sim os pontos positivos, nenhum dos dois sofria de complexo de vira-latas e os quadrinhos seriam bens simbólicos legitimados.

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Referências:

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.

MARIOTTI, Humberto.O Complexo de Inferioridade do Brasileiro. Instituto de Pesquisa BSP. Consultado em 4 de janeiro de 2014.

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3 Comments

  1. Belo texto Guilherme. De fato não há necessidade de se buscar “autenticar” os Quadrinhos por meio de critérios literários. É uma linguagem autônoma que se ampara por imagens e texto. Estou ministrando uma disciplina sobre o Fantástico no mestrado aqui na UFG e inclui a graphic novel A METAMORFOSE do Peter Kuper para análise após que eles lerem a novela de Kafka, justamente para que eles percebam como uma obra é releitura da outra enquanto que os quadrinhos permitem novas experimentações literárias, te jogando pra dentro da história.

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    1. Oi Alexandre! É isso aí! E inclusive A Metamorfose é uma das HQs mais adaptadas dos quadrinhos. Tem do Crumb, do Kuper, em Mangá, enfim, tem inúmeras versões para serem vistas, lidas e comparadas! Sem falar que o Kafka nunca diz que inseto é o tal inseto, então é interessante ver o que o quadrinista depreende! Abraços!

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