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A Criação do Superman Através do Mito da Virilidade Alemã

O período entreguerras foi um grande criador, recriador e mantenedor de mitos. Para convencer os jovens de que era necessário se alistar nas forças armadas, as nações iniciaram a valorizar ideais nacionalistas e entre eles, estava associada a virilidade do homem masculino. Essa era a verve do momento em que os super-heróis foram criados. Vamos dar uma olhada em como se deu a criação do mito da virilidade masculina.

 

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Very Viril =P

No século XIX a Alemanha, ainda em formação, havia passado pela Guerra Franco-Prussiana, em que a Prússia foi derrotada. A Prússia foi uma das regiões da atual Alemanha que deu início a um processo de unificação do país que culminou no Império Alemão. Um dos generais que lutou nessa guerra, criou a teoria da “punhalada nas costas”, em que os próprios valores alemães tinham sido a causa da derrota dos prussianos. Por isso, era necessário envolver a nação em novos e resgatados valores, principalmente de hombridade, para os alemães sobrepujarem outros povos, considerados mais fracos e afeminados, como os franceses.

Foi durante a República de Weimar que esses valores foram sendo dispersos pela população. Apesar de ter um governo progressista, capitaneado e idealizado por uma mulher judia, Rosa de Luxemburgo, a república perdeu força por causa da inflação monetária, o que abriu caminho para forçar que “restauraram” o país como o Partido Socialista Nacional, que mais para frente se tornaria o Partido Nazista estabelecessem suas ideias. Uma delas era o resgate da virilidade dos vikings, que uma vez dominaram a Germânia:

“Outro estereótipo utilizado com fins glorificadores foi o dos vikings representados com chifres nos capacetes. A Alemanha, os países da Escandinávia e a Inglaterra durante o século XIX empregaram esta imagem equivocada como suporte de um passado considerado heróico, ao mesmo tempo que garantiam identidade social aos membros das suas comunidades. Nessa época, assim como na Antigüidade, chifres masculinos eram símbolos de poder, marcialidade, vigor e disciplina”, nos diz Johnni Langer, na revista História Viva. Uma dessas lendas utilizada foi a de Beowulf, guerreiro viking que protegeu uma população do monstro Grendel, matando sua mãe. Uma clara alusão à vitória do masculino contra o feminino.

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A série Vikings do History Channel

Essa imagem era equivocada, pois apesar de os vikings terem sido um povo conquistador, não era uma cultura que sobrepujou às outras. O que os alemães do entreguerras queriam era vangloriar seus antepassados para forçar a valorização do etnonacionalismo, ou seja, a valorização do sangue. Pessoas com “sangue bom” ou “sangue puro” eram aqueles que faziam a Alemanha forte, como seus antepassados vikings. Elas garantiriam uma unidade nacional ao mesmo tempo que promoveriam a guerra para expandir seus valores e territórios.

Não por acaso, um dos símbolos do Reich era a águia. Uma ave de rapina, predatória, que estende suas asas de envergadura extensa prenunciando o ataque e envolvimento da presa. A águia também foi símbolo do Império Romano, uma das maiores forças expansionistas da história da humanidade. Ironicamente, a água também é o símbolo dos Estados Unidos da América, inimigo figadal da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

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“Eu lhes trago o Super-Homem!”

Foi essa doxa, esse meme, que estava na mente do filósofo Friedrich Nietzsche quando cunhou o termo Übermensch ou, em português, Super-Homem. O Super-Homem de Nietzsche estava além de todos os valores do indivíduo, através da sede de poder e vontade de potência, o Super-Homem devia superar a não-existência com a criatividade e teria de reavaliar ideais velhos ou criar novos. Assim, o Super-Homem, ou o homem dos novos tempos predito por Nietzsche, deveria estar em um processo contínuo de superação.

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A primeira versão do Superman se assemelhava muito mais à Lex Luthor.

As ideias da sede de poder e de vontade da potência estava na mente de dois judeus americanos franzinos, Jerry Siegel e Joe Shuster quando criaram a sua primeira versão de Superman no fanzine Science Fiction, em 1933. A história, intitulada “O Reino do Superman”, contava como o mendigo Bill Dunn era transformado pelas experiências de um professor em um ser superpoderoso, dotado de poderes telepáticos, que deseja governar o mundo inteiro. Mais tarde, em entrevistas, Siegel confessou que havia se inspirado nas idéias de Nietzsche para criar a história.

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A versão definitiva do Superman de Siegel e Shuster

A versão definitiva do Superman só saiu em 1938 no primeiro número da revista Action Comics, lá o Super-Homem era inspirado no homem-forte do circo. Ela capaz de saltar a grandes distâncias, e tinha uma força descomunal, além de outros poderes revelados ao longo das edições. Sua primeira versão foi criada poucos anos depois da quebra da bolsa de Nova York de 1929 e da Grande Depressão que se seguiu. Estudiosos dizem que o Superman foi uma resposta para o clima de desesperança que se abateu sobre a população americana.

Um super-herói, portanto, seria uma resposta otimista à uma sociedade falida. Superman seguiria a onda escapista das revistas pulp que publicaram as ficções científicas baratas e servia como uma injeção de ânimo ao povo. Em suas primeira histórias o homem de aço não combatia supervilões, mas maridos que batiam nas esposas, traficantes de armas, lobistas, turbas de linchamento, detratores das conferências de paz mundial, enfim, detratores da ordem. Essa ordem buscada pelo Superman e pelos demais super-heróis era estabelecida através da força e da violência.

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Ou seja, a criação dos super-heróis é uma resposta à desesperança nacional dos Estados Unidos, da mesma forma que os ideais nazistas foram para a Alemanha. São duas formas de etnonacionalismo. Mas enquanto os super-heróis serviram como entretenimento nos EUA, a virilidade alemã foi levada às últimas consequências no Terceiro Reich. Não devemos nos esquecer que o Superman sempre defendeu “a liberdade, a justiça e o MODO DE VIDA AMERICANO”. Fica a reflexão.


Agradeço à professora Cleusa Graebin por toda a contextualização histórica que suscitou este artigo.

 

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7 comentários

  1. Fredric Wertham fez a mesma coisa, comparou Superman ao fascismo e o nazismo.

    Interessante como as ideias de vocês são tão parecidas.

    E o Comics Code que as atitudes dele ajudaram a forjar são muito parecidas com o novo Comics Code que vocês criaram.

    auhauhauhau A história se repete!

    Neste documentário você pode ver Wertham afirmando o que eu disse:

    http://caixadegibis.blogspot.com.br/2011/03/superman-comic-strip-hero.html

    É interessante como Wertham amava quadrinhos, mas foi o primeiro “estudioso” deles e o primeiro a tentar censurar seus conteúdos.

    E vocês desses blogs são tão tão parecidos.

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    • Guilherme Smee diz

      Vocês, quem, cara-pálida? Grant Morrison já afirmou “Fredric Werttham estava certo pra CACETE!”, e é interessante ver como muitas das ideias dele ecoam hoje em dia. Algumas fazem sentido, outras não. Tudo é uma questão de contexto. Acho interessante essa dicotomia que tu estabelece de eu/vocês como se fosse o dono da verdade. Eu não disse que o Superman é nazista, apenas que eram as ideias que vigoravam na época e como elas infuenciaram a sua criação. As ideias que estão em um campo memético hoje em dia também acabam criando o “nosso” Comic Code. Tudo é uma questão de posicionamento. Eu mereço, podia dormir sem o comentário preconceituoso do reaça dos quadrinhos. =P

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  2. AH então reconheceu né? Finalmente, que bacana a sua sinceridade!

    “Fredric Werttham estava certo pra CACETE!”, e é interessante ver como muitas das ideias dele ecoam hoje em dia. Algumas fazem sentido, outras não. ”

    Resta recriar a caça as bruxas dos quadrinhos, retirando de circulação os gibis que não estão de acordo com suas ideias, relegando profissionais talentosos ao ostracismo e manchando a história dos quadrinhos com a censura involuntária por parte da própria indústria. Tirando o emprego de centenas de profissionais que não se adequam a sua agenda politicamente correta, prejudicando as vendas, cerceando a criatividade dos artistas e satisfazendo o seu umbigo viciado em babaquices.

    Parabéns, meu rapaz, você é o CARA!

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  3. Guilherme Smee diz

    Não tenho tanta certeza. Ele é mais macaca de auditório. Não é a tua que o chamam de BolsoMITO, ou seja, uma história real baseada em contos fantásticos, feitos para um povo entender um fenômeno da natureza, fato histórico ou costume social. São só histórias contadas de geração em geração e são reforçadas para o povo dar algum significado pra vida deles. 😉 Bjs!

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