A Fama e o Culto ao Autor de Quadrinhos

 

Dentro do universo dos quadrinhos, alguns autores se destacam e, sim, possuem uma certa fama com seu público leitor. Mas o que é a fama? Como começou esse culto aos autores? E nos quadrinhos, como isso funciona? Vamos saber agora.

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A deusa Fama

Segundo Andy Warhol, o famoso artista da Pop Art, “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama”. É o que vemos hoje com a efemeridade dos reality shows, onde pessoas são famosas em um ano e, no outro, já são esquecidas. A origem da palavra Fama,é que ela era uma deusa romana com cem olhos, cem ouvidos e cem bocas, para poder divulgar os feitos dos heróis.

Mas dentro da sociedade a fama está associada ao ritual de rememoração dos mortos. Essa rememoração podia se dar de duas formas. Pietas: a obrigação dos familiares em perpetuar a memória e o nome dos mortos. Já a Fama era a memoração gloriosa conquistada para si mesmo, ao longo da vida, através de nosso feitos. A fama era uma forma de se imortalizar antes da morte, ou seja, tornar-se imortal, vivo na memória das pessoas.

Existem três condições para a fama: grandes feitos, registro documental e a memória da posteridade. No decorrer dos anos, a memória acabou muito mais dependente do registro dos poetas do que dos feitos de seu protagonista. Entretanto, com a secularização da cultura e da cidade, a partir do iluminismo, no tempo da escrita, a eternização e a fama não se dão mais sobre quem é retratado na escrita, mas sobre o próprio autor. Assim, na Inglaterra Elisabetana, os historiadores e poetas adquirem um valor equivalente na rememoração e escrita da História. Assim iniciou-se o culto ao autor, com um dos primeiros a serem cultuados tendo sido William Shakespeare com suas peças populares e encenadas na língua inglesa vulgar e não em latim.

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Ralph Fiennes em Shakespeare Apaixonado

Já o culto ao artista se deve muito à Igreja Católica, que empregou milhares de pintores para retratar suas histórias, a bíblia e os santos, durante o renascimento. Essa valorização das artes fez surgir o papel do mecenas, os “patrocinadores” dos artistas, que os levava a produzir obras para coleções particulares. Esse patrocínio também tem a ver com fama e memória, uma vez que as ricas famílias pagavam aos artistas também para retratar suas famílias em grandes pinturas, algumas delas se tornaram muito famosa, como os retratos das famílias Bórgia e Médici.

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A posteridade dos heróis na revista The Just.

“ A lembrança cultural do nome próprio é um privilégio altamente exclusivo; isso foi reafirmado também pela pesquisa feminista no exemplo da instituição de autoria. barbara Hahn demonstrou que ‘o nome de um autor não é natural, mas efeito da escrita de um sistema específico de produção de textos’. A questão de inclusão de algo ou na memória de curto prazo do mercado literário ou na memória de longa duração dos textos culturais canônicos depende das instituições sociais da consagração e da excomunhão, da honraria e do ostracismo. A pesquisa feminista insiste em que o senso comum compreenda que a ‘grandeza’ é um predicado, uma característica feita por homens para homens”. (ASSMANN, 2011)

Nos nossos amigos quadrinhos, embora desde o tempo das sunday strips muitos autores terem sido celebrados, como por exemplo Alex Raymond, que criou personagens de suma importância como Flash Gordon e Agente Secreto X-9 , passando pelos quadrinhos europeus de Guido Crepax nos anos 50/60, nos anos 70,  Neal Adams liderou uma geração de artistas que reivindicaram seus direitos e seus devidos créditos, a grande fama arrebatou os seus artífices a partir da década de 80, quando os quadrinhos mainstream se tornar mais profissionais e com aproximações literárias. Era a chamada invasão inglesa. Essa foi a época em que o mercado de quadrinho superaqueceu e, por isso, causou uma bolha especulativa que acabou por desvalorizar toda a produção.

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Gaiman e Moore

Isso mudou um pouco o comportamento do leitor de quadrinhos, que antes comprava as revistas pelos personagens e agora os adquiria por causa de nomes como Alan Moore, Neil Gaiman e Frank Miller. Até então, o texto era mais valorizado do que a arte nos quadrinhos. Entretanto, nos anos 90, na Era Image, quando os desenhos começaram a se sobressair aos textos e as pessoas começaram a comprar revistas por causa das grandes imagens de homens trabuquentos e mulheres voluptuosas, isso mudou um pouco de figura. Quase como numa cultura voyeur, nada mais do que uma aproximação da próxima década, a de 2000, em que os reality shows como Casa dos Artistas e Big Brother Brasil se popularizaram, levando às pessoas a experimentarem a extimidade dos outros, essa intimidade exposta e externa.

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O casamento de Gebbie e Moore.

O culto aos artistas e a fama, hoje se configuram mais não na glorificação de seus feitos ou de suas obras e façanhas, mas na sensação de participação do público na vida dos autores, como um reality show constante, em que todos precisam ler suas últimas obras e conhecer as minúcias de suas vidas. Um bom exemplo foram as fotos do casamento de Alan Moore e Melinda Gebbie, que Neil Gaiman participou. Será que a cara da fama e da memória dos nomes está mudando? O que será que ficará dos costumes de nossa geração para a posteridade? O que os menestréis do futuro cantarão sobre nós e as pessoas que idolatramos? Só o tempo dira.

Leia mais sobre o assunto neste link sobre A teoria do Autheur e o Culto aos Autores.


Bibliografia:

ASSMANN, A. A secularização da memória: memória, fama, história. In: Espaços da recordação, Campinas: Unicamp, 2011.

GOMBRICH, G. H.. A história da arte.  Rio de Janeiro, LTC, 2011.

Agradeço ao professor Renato Ferreira Machado por elucidar sobre esse assunto e o texto de Assmann em aula.

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14 Comments

  1. Rapaz esses seus professores não sabem nada da história dos quadrinhos. Os artistas de quadrinhos já gozavam de celebridade muito antes dos anos 1980.

    Al Capp foi indicado (ironicamente, lógico) por John Steinbeck para o Nobel de literatura; Jack Kirby tirou fotos com os Beatles, Robert Crumb desenhou capas de discos de Janes Joplin, de quem era amigo e compartilhava a fama entre os hippies; Jodorowski foi guru da contra cultura na Europa, Eisner foi tão famoso em vida que nas primeiras convenções de quadrinhos, ainda nos anos 1960, ele era tão ovacionado que desistiu de criar quadrinhos para o exército americano e foi fazer as graphic novels, criaram um prêmio com o nome dele. Bob Kane também posou com estrelas da TV e cinema nos anos 60, quando da Batmania, retornou depois nos anos 80/90, com os novos filmes de Batman. Harvey Pekar era presença constante no programa de David Letterman. Todos esses artistas eram imensamente conhecidos.

    Stan Lee, então, nem se fala, andava entre as celebridades, mudou-se para a California para morar ao lado de celebridades de Hollywood e tentar chance no cinema, na alta literatura, tirava fotos e fazia parcerias com astros do rock (Kiss, por exemplo), dava entrevistas na TV, radio, palestras em universidades e era reconhecido por onde passava.

    Cara, acho que você tá por fora.

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    1. CLARO que os professores não fizeram a intersecção com os quadrinhos. Fui EU quem fez. Mas se eu tou tão por fora, por que tu acessa o blog e ainda comenta? =/ MIAU!

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      1. Este ensaio fala sobre o culto a escritores de quadrinhos, não sobre fama, que é o mote desse seu texto, não tente se esquivar, autoria não tem a ver com fama. George Herriman (Krazy Kat) já assinava seus trabalhos em 1913. Winsor Mccay (Little Nemo) em 1905. Os quadrinhos anteciparam em muito o conceito de autoria, muito antes do cinema. Assim como a fama veio muito antes dos anos 1980, como já provei.

        Desenhista, escritor, esse papel pode ser uma mera convenção industrial ou subjetiva. O que interessa saber, o que já provei com dados, é que os autores de quadrinhos já são reconhecidos como, e famosos por, desde muito antes da época que você citou.

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      2. Como as pessoas interpretam como querem quando estão procurando pelo em ovo. Vou ajustar o texto, para que as autoridades em sapiência parem de me amolar, então. Abraços por trás!

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  2. Guidinho, era uma vez, muito tempo antes em 1962 em um lugarejo muito distante chamado cidade de PARIS, foi quando o Jean Claude Forest dava autógrafos na rua e seu álbum “BARBARELA” era nome até de drinques famosos, (editado por Eric Losfeld na casa publicadora LE Terrain Vague que depois publicou Druillet, Caza e a “catedral dos quadrinhos” Saga de Xam), depois virou filme do Dino de Laurentis com uma tal de Jane Hanoi Fonda, “Barbarela” era inspirado na atriz hoje ativista de direitos dos animais Brigite Bardot .
    Vc vai insistir que o culto (marketing) ao Autor de Gibi começou com estes ingleses Allan Moore e Gaiman e ignorar o tanto que o Mauro Tavares deu de dicas acima sobre o culto a CRUMB e a sacrosanta fonte do saber WIKIPEDIA: – “O uso que Al Capp fez da língua foi tão revolucionário que o escritor John Steinbeck o indicou para o Prêmio Nobel de Literatura”.
    Sim sou um dos “professores” idiotas que lecionam Artes, para tanto tenho mestrado e doutorado na ECA da USP e Livre Docencia pela UNESP, ou seja, tenho primeiro grau completo mas isto de per si não pre-desqualifica meu texto ! Olha minha estrevista ao Jo Soares no Youtube para me xingar melhor e mais gabaritado !http://calazanista.blogspot.com.br/2015/10/flavio-calazans-e-barbarella-de-jean.html

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    1. Mas geeente, não entendi nada. Tu tu apoiando o reaça das HQs ou contestando? Porque foi ele quem chamou meu professor de idiota e tá catando pelo em ovo. E se procurasse melhor, teria encontrado dois artigos que fiz sobre a Barbarella e sua importância. Ai, ai… Vou ter que ler o livro do Sakamoto pra aprender a me virar nessas situações. =P Abs!

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  3. Triste, lamenento mas vc não vale a pena, continue assim e insista no erro mesmo recebendo tantas dicas, sugiro ler o código de ética dos jornalistas, caso deseje ter alguma reputação de mínima honestidade científica.
    E o mundo não é reducionista e supersimplificador a ponto de uma dialética maniqueísta de PRETO-BRANCO cobrir todos os matizes ontognoseológicos como o dificil conceito de AUTORIA desde o escultor Fídeas !

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    1. Não sou jornalista e nem pretendo ser, deuzulibre, esse aqui é um blog de opinião, muito mais de desinformação, que de informação como a Globo se diz. A mesma que apresentava o Programa do Jô. O que me admira é um cara que é doutor vir aqui dar respaldo para um notório reaça dos quadrinhos, que acusou até o Omelete de ser de esquerda, que é desafeto de 8 entre 10 artistas e convivas da área. Que importância tem um blog de opinião de quadrinhos para um renomado doutor, que apareceu ATÉ no Jô, meldels? Assim eu fico me achando, gente! Quem está fazendo dicotomias aqui são vocês, amigos! Pra ficar no palavreado chato, opa, academicês para parecer importante. Eu não para de me surpreender como a cara dos trolls da internet pode adquirir vastos semblantes (ó a expressão, que linda!) e miríades (!). No final, que perde pontos de reputação nessa história não sou eu. Eu já parto de baixo para cima, não de cima para baixo. Afinal, considerava o prezado senhor alguém de respeito, porém, mudei meu conceito. Uma pena. Mas respeito é assim: leva-se anos para consegui-lo e segundos para perdê-lo. Infelizmente não é uma questão de conhecimento, mas de posicionamento. Abraços.

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