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Por Que os Super-Heróis Duram até Hoje Apesar de Tantas Mudanças?

Essa semana nos vimos imersos em discussões sobre a Marvel manter ou não a diversidade dos seus personagens e como isso poderia estar arruinando suas vendas. Muitas mudanças já foram realizadas nas histórias e personagens de quadrinhos, mas a sua essência permaneceu inalterada. Como isso acontece e como isso perpassa gerações? Vamos descobrir a seguir:

Essa permanência dos super-heróis de gerações em gerações, mas alterando a sua vestimenta, seu comportamento ou etnia é um dos princípios do mito arquetípico, que já foi explicado por Joseph Campbell no livro que transcrevia sua célebre entrevista para Bill Moyers, em O Poder do Mito:

“O princípio do mito: transforma a história em natureza. O tempo e o saber nada lhe podem acrescentar ou subtrair. Qual é a função do mito? Transformar sentido em forma. De fato, nada pode proteger-se do mito; o mito pode desenvolver o seu esquema segundo a partir de qualquer sentido, não importa qual” (CAMPBELL, 2012)

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Joseph Campbell

A natureza dos quadrinhos em forma de textos e imagens justapostos e cristalizados ajudam a construir essa ressignificação de sentidos do mito perene e a estabelecer essa manutenção arquetípica. Este talvez seja outro paradoxo dos quadrinhos, mas que não é exclusivo dele, mas de toda mídia repetidora, criadora e ressignificadora de mitos: mantê-los e, ao mesmo tempo romper com eles, como bem atesta Michel Maffesoli em sua análise da fugacidade sem fim da pós-modernidade:

“Realmente, existe uma relação estreita entre os fenômenos e a vida concreta. Os poetas, os artistas, os pensadores mais sagazes, encontraram sua inspiração nessa interação, mais precisamente na expressa pela união do passado, do presente e do futuro. A imagem arquetípica cristaliza as diversas facetas da tríade temporal. É nesse sentido que é interrupção, suspensão do tempo. Há na imagem cotidiana, na imagem arquetípica, uma dimensão trans-histórica. Podemos dizer mesmo, que expressa, no dia-a-dia, uma espécie de eternidade” (MAFFESOLI, 2003).

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O herói assírio Gilgamesh

Essa perpetuação transitória, o instante eterno, que promulgou o professor francês, faz parte dos ritos. O que é a leitura dos quadrinhos senão um rito? Toda fruição de uma narrativa seriada  é um ritual e, como nos traz Maffesoli no mesmo livro, todo rito é uma forma de assegurar o mito. Nesse sentido, o ritual da leitura se dá seja no próprio sentido da leitura, da esquerda para a direita, em que a encadeação dos quadros fornece um sentido para a narrativa, ou na virada página a página, ou ainda na absorção das características que transformam o super-herói em um arquétipo e/ou num personagem próprio, de fácil reconhecimento para o leitor. O próprio ritual da leitura em si, desperta no leitor a busca por um prazer a mais, ao mesmo tempo, a leitura seriada potencializa essa vontade no mesmo. Por mais que as situações mudem, o mito do super-herói e sua fonte arquetípica se mantém a mesma desde a primeira história escrita: a saga de Gilgamesh, herói mesopotâmico.

Lembremos do mito de Prometeu Acorrentado, de Ésquilo: ao entregar o segredo do fogo aos homens, este ser foi condenado por Zeus a ser acorrentado a uma rocha e ter seu fígado comido pelos abutres. Entretanto, seu fígado regenera e os abutres, novamente, iam comer seu órgão, num trabalho infrutífero, num instante repetitivo e eterno. Agora peguemos o mito do Prometeu Moderno, o doutor Victor Frankenstein, de Mary Shelley. O bom doutor descobre outro segredo dos deuses, a imortalidade, fazendo de partes de cadáveres uma nova criatura. Nestes dois casos, temos a imortalidade representadas tanto como um castigo, quanto um segredo tão bem guardado que é de natureza divina. Foi essa dualidade que às vezes é completar e às vezes é dissociativa que tentamos demonstrar aqui.

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O Frankenstein dos Novos 52

Nem todas as histórias já contadas sobreviveram à atualidade, algumas, entretanto, persistem exatamente por evocar a natureza dos mitos. Isso também é reforçado pelo encadeamentos de histórias, como as que se dão hoje nos universos super-heróicos, uma tradição que remonta as cosmogonias de muitas religiões hoje consideradas pagãs. A leitura, ou a fruição de um enredo seriado é paradoxal e, ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição, pois ao mesmo tempo em que consumimos a história, menos temos para consumi-la e isso levará a consumos futuros. O que faz com que este tipo de narrativa seja perfeita para a sociedade capitalista.

Nos quadrinhos, o pacto narrativo se acentua, pois além de lermos os personagens também os vemos e conduzimos a duração e a direção da nossa leitura pelo tempo e sentido que quisermos, pois os temos em nossas mãos.  Se, como disse Campbell, a função do mito é transformar sentido em forma, logo a condensação do zeitgeist em forma de super-heróis se dará de uma maneira natural, de acordo com as expectativas, consumos, sociedade, culturas, costumes e comportamentos de uma determinada época.

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“A repetição ritual, a rotina cotidiana são maneiras idênticas de expressar e de viver o retorno do mito e, portanto, de escapar de uma temporalidade muito marcada pela utilidade e linearidade. Em cada um desses casos, há absorção do indivíduo, da história, da funcionalidade, por uma espécie de eternidade vivida no dia-a-dia. Esta eternidade cotidiana talvez permita compreender o assombroso romantismo das novas gerações, sua indiferença também, frente a um mundo social e econômico cada vez mais hostil, enfim, seus desejos e seus esforços para viver em uma realidade mais global, que não se reduz à realidade comercial que quer impor o filisteísmo moderno” (MAFFESOLI, 2003)

Maffesoli aqui explica como a transitoriedade influência no consumo dos imutáveis mitos narrativos e arquetípicos: este tipo de história serve de fuga para que o indivíduo embarque em um mundo imutável, menos hostil. Nesse mundo das fabulações vivemos a eternidade do dia-a-dia, cujo status quo não é construído pelas gerações passadas, mas por aqueles que são os sujeitos de mudança  que enfrentam um mundo revoltoso de modo político, econômico e social. Isso é bem demonstrado nos quadrinhos da heroína americana e muçulmana Miss Marvel cujo maior desafio é o abismo entre culturas e gerações.

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Assim, para viver uma realidade global, é preciso ir além do consumo e viver práticas que a geração anterior não compartilha, como a prática do incentivo à diversidade, à transitoriedade, mesmo que posteriormente ela se cristalize em forma de algum tipo de mito. Ao mesmo tempo, como um paradoxo vivo, os “filisteus” do comércio devem procurar na diversidade uma maneira de capitalizar com a necessidade humana de narrativas fragmentadas, não necessariamente por concordarem com essas ideias, mas porque beneficia seus capitais e, assim, seguir nesse fluxo eterno de ressignificações, legitimações, mutações e imobilidades.

 

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2 comentários

  1. Complicado… Que a narrativa seriada era perfeita pro capetalismo eu já tinha imaginado, mas envolvendo as séries de livros (a questão dos gibis ficou escondida embaixo do nariz hahah)… Sobre isso de diversidade, sei lá, a Marvel não ia dar um tiro no pé do nada… Dá medo do que pode se tornar a volta dos anos 90, mas séries como a revista solo do Homem Gelo parecem dizer o contrário… É esperar pra ver… @.@’

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