Será Mesmo Que Diversidade Não Vende?

No último mês, os executivos de vendas da Marvel Comics acusaram a diversidade dos seus personagens como fator das baixas vendas das suas revistas.Enquanto isso, a DC Comics, com títulos quinzenais dos seus medalhões está dando de lavada na concorrente no quesito vendas. Mas será mesmo que diversidade não vende?

Bem, gente, pra começar, eu absorvi muito antes de escrever esse post, por isso não está saindo no calor do momento. Também por conta das tarefas do mestrado que estão me consumindo bastante, apesar de eu estar adorando. Mas eu acho que o monstro não é tão grande quanto pintam, não e sim, um subterfúgio dos executivos comerciais para tirarem o corpo fora das suas responsabilidades. E, como sabemos, com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. Vamos lá.

O MERCADO DE QUADRINHOS NOS ESTADOS UNIDOS

Antes de mais nada, você precisa saber que o mercado de quadrinhos dos Estados Unidos não é como o mercado brasileiro de quadrinhos. Lá existe um sistema chamado mercado direto. As revistas não são vendidas em bancas como aqui, nem em livrarias e muito menos em supermercado. Se você quer um gibi da Marvel ou da DC você precisa procurar uma comic shop. Lá elas servem como termômetro do mercado. Pois é nela aonde os leitores compram suas revistas, como num sistema de encomenda, de assinatura e sob demanda. Se o lojista vê que uma revista está tendo muitos pedidos, ele encomenda mais.

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A política que a Marvel vinha utilizando com os lojistas era de dar incentivos para que eles comprassem mais números 1. Se você der uma olhadinha na nossa matéria sobre a Bolha Especulativa dos Anos 90, vai saber que esse tipo de política comercial deu início a uma das piores crises dos quadrinhos. Entretanto, após muitos vendedores terem acusado a Marvel de praticar tais ações, os executivos da Casa das Ideias vieram a público acusando a diversidade dos títulos como causa das baixas vendas. Não creio que seja o caso, mas da política agressiva da editora em empurrar títulos para os lojistas e deixá-los descontentes com estoques de revistas em suas lojas.

Por outro lado, se a Marvel quer um público novo, ela não deveria insistir no Mercado Direto e, sim, buscar alternativas de vendas para suas revistas fora das Comic Shops, como as livrarias, que tem visto um aumento de mais de 20% nas vendas de graphic novels e TPBs a cada ano. Isso sem mencionar as lojas virtuais como Amazon e Barnes & Nobles. É nas livrarias tanto físicas e virtuais que se esconde o público novo, o público leigo, ávido por novidades. Nem todo mundo sabe onde fica a Comic Shop da sua cidade, se é que ela tem uma mas, ao alcance de um clique, eles podem comprar um quadrinho que nunca ouviram falar antes.

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Essa é uma das razões que a Amazon Brasil está dando de lavada nas livrarias de grandes lojas, que estão encolhendo em seus lucros. A distribuição de gibis e livros de quadrinhos dificilmente chega nas cidades do interior do Brasil e, quando chega, apenas poucos títulos são oferecidos. Na minha cidade natal, no norte do Rio Grande do Sul, existe apenas uma banca, e eu não vejo quadrinhos lá que não sejam Disney e/ou Turma da Mônica. Isso leva o pessoal do interior a procurar a internet e não às comic shops físicas. O mercado de encadernados de quadrinhos tem crescido exponencialmente no Brasil, não é a toa que a própria Livraria Cultura abriu a sub loja Geek Etc… para vender esse tipo de produto e assemelhados.

Mas tem outro fator nessa corrida pelo ouro dos leitores nos Estados Unidos. Kevin Smith apresentava um reality show, Comic Book Men, que mostrava o dia a dia de donos de Comic Shops nos Estados Unidos. O pessoal retratado lá eram lojistas saudosistas, conservadores, rednecks, e que provavelmente votariam em Donald Trump. Um bom exemplo é o personagem Stuart, dono da loja de quadrinhos da Série Big Bang Theory. Caras com pensamento como esse não são um público que irá incentivar a diversidade nas histórias em quadrinhos, pelo contrário. Entretanto, indo a uma convenção de quadrinhos se perceberá como o perfil do atual consumidor de quadrinhos é mais diverso impossível. Basta saber como chegar nele, tema de casa que os marketeiros da Marvel não tem feito.

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MERCADO DE NICHO DENTRO DE UM NICHO

Aí entramos em outra questão delicada. Os quadrinhos são e sempre foram – a partir do mercado direto – um mercado de nicho. Vender quadrinhos com personagens diversos seria se tornar o nicho do nicho. Mas nós sabemos que existe espaço para todo mundo. Inclusive, o autor Chris Anderson em seu livro A Cauda Longa afirma que a segmentação e o mercado de nicho são o futuro da economia.

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O site Mundo Negro apontou o seguinte sobre o Black Money, o poder de consumo dos negros: Os afro-americanos contam com várias opções de bancos fundados e presididos por empresários negros. O OneUnited Bank é o maior deles, foi criado exatamente com o intuito de mensurar o poder de compra da população afro estadunidense e canaliza-lo para gerar empregos, construir negócios e aumentar a riqueza. Mesmo com todos os possíveis questionamentos, lá eles utilizam o poder econômico como uma ferramenta de protesto. Recentemente após as constantes mortes de jovens negros americanos, criou-se um movimento chamado de BankBlackChallange.  

A ação tem como objetivo gerar migrações econômicas, ou seja, os negros movimentavam seus investimentos de “bancos brancos” para os “bancos negros”. Este movimento contou com a adesão de negros famosos, como os cantores Usher, Killer Mike, Solange Knowles. Outro exemplo, foi o aumento na venda de camisetas do jogador Colin Kaepernick nas lojas da NFL. O atleta ficou mundialmente conhecido depois que se recusou a levantar para cantar o hino americano em protesto à opressão aos negros. Segundo a consultoria Etnus, especializada no estudo de perfil dos consumidores negros, a população negra movimenta anualmente algo em torno de 800 bilhões de reais.

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Outro caso é o aumento de poder de consumo das mulheres, não apenas de consumo, mas de decisão, afinal, muitas delas conduzem sozinhas uma família. Segundo uma pesquisa encomendada pela FIESP, pelo instituto Data Popular, os três grandes protagonistas da nova classe média brasileira são as mulheres, os negros e os jovens. O seu gerente Márcio Falcão declarou o seguinte: “A renda das mulheres cresceu, nos últimos dez anos, quase o dobro se comparada a dos homens, o que se deve ao acesso ao mercado de trabalho”, relatou o gerente do instituto. Já 75% das pessoas que ascenderam para a classe média nos últimos anos são negros, é preciso olhar para esse mercado.”

Já o mercado gay, o também chamado pink money, mostra que os gays consomem 30% mais que os heteros. Não é de hoje que você vê grandes marcas por aí se posicionando totalmente a favor aos direitos da população LGBT, e podemos citar empresas como a Netflix, o Boticário, a L´Oréal e a C&A. “Sem filhos em sua maioria, os casais homossexuais têm sua renda revertida para cultura, lazer e turismo”, disse à IstoÉ Dinheiro o inglês Paul Thompson, fundador da LGBT Capital. Com sedes em Londres e Hong Kong, a companhia é especializada em administração de ativos e em consultoria financeira e empresarial dirigida à comunidade de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Os gays movimentam de de US$ 3 trilhões ao ano.

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No Brasil, de acordo com as estatísticas, esse público é formado por cerca de 18 milhões de pessoas, com renda média de R$ 3.200. Pertencentes, em sua maioria, às classes A e B, eles movimentam cerca de R$ 150 bilhões por ano no País, segundo a consultoria InSearch Tendências e Estudos de Mercado.

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O diretor da Quorum Brasil Informação e Estratégia, Claudio Silveira, em apresentação para a FIESP concluiu sua análise falando da necessidade de quebrar barreiras na questão do consumo para esse público. “Para chegar a esse consumidor, é preciso criar uma comunicação específica e também vencer a questão de preconceito”, explicou.Fechar os olhos para a diversidade, ou então fazer boicote a ela, veicular opiniões contra minorias, transformá-las em bodes expiatórios só vai fazer uma coisa por uma empresa: minar suas chances de conseguir um público – e o melhor – um dinheiro a mais.


iludidaMiga executiva da Marvel, não culpe a diversidade, tá. Para que tá feio, muito feio. Como diria a Magali: “Coitada! Outra iludida!”. O problema dos quadrinhos – seja nos Estados Unidos, mas principalmente no Brasil –  nunca foi o conteúdo das histórias, nem gerenciar suas finanças, mas sim, uma comunicação clara e forte com seus leitores. Acho que precisamos melhorar muito nesse quesito, não é mesmo leitores brasileiros de histórias estadunidenses? =P

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2 Comments

  1. Que post incrível Gui!!! De fato, o nicho do nicho é um grande investimento, até porque o público que gera é mais sólido e fiel que o consumidor comum… O que me parece é que a Marvel não esperava que a Dc reinasse novamente nas vendas e ficou completamente perdida… Culpar os consumidores limpa as mãos da empresa e também não deixa ela mal vista no mercado (não lembro agora se a Marvel tem o capital aberto…). Agora é a Marvel que precisa do seu “Renascimento” e o grande problema é que isso não tem como ser por outro mega-evento porque isto já está saturado… A Dc arriscou que nem a Marvel fez uns anos atrás e deu certo pra ela essa vez, quanto a diversidade, é só olhar as futuras revistinhas mensais do Renascimento aqui no Brasil pra ver que vende: Arlequina, Mulher-Maravilha e Detective Comics são estreladas por personagens LGBT, sem contar que teremos DUAS mensais focada apenas em personagens femininos xD
    (E menino, em que história a Magali fala isso?? Nunca tinha visto kkkkk)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Valeu, Arth! Pois é, é uma questão que envolve várias variáveis e não só diversidade. Quanto a Magali, eu não sei, foi meu irmão que me passou. Abraços! =)

      Curtido por 1 pessoa

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