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Autobiografias em Quadrinhos ou Autoficções em Quadrinhos?

As graphic novels atuais estão muito ligadas à autobiografia, ou melhor, à escrita de si, contando histórias que marcaram a vida dos autores e suas relações com essas histórias. Mas chamar um quadrinho de autobiografia é correto, será que não existiria um termo melhor para descrevê-los? Vamos ver a seguir.

Para começar, vale dizer que os quadrinhos não são autobiografias, no sentido literário da palavra. Essa acepção serve mais para definir histórias de si contadas por grandes nomes que ficaram para a história e que são contadas em uma estreita ordem cronológica. Ou seja, aquelas histórias que são quadradonas. Os quadrinhos, como usam recursos de fora da própria história dos personagens, fazem referências a outras histórias, usam de hipertextos e, acima de tudo, se usam de uma narrativa fragmentada, acabam caindo na categoria da autoficção.

O termo autoficção foi cunhado nos anos 70, quando Serge Doubrovsky publicou seu livro Fils:

MARuna“Autobiografia? Não, isto é um privilégio dos importantes do mundo, no crepúsculo de suas vidas, num belo estilo. Ficção, de acontecimentos e fatos estritamente reais; se se quiser, autoficção, por ter confiado à linguagem de uma aventura à aventura da linguagem, fora da sabedoria e fora da sintaxe do romance, tradicional ou novo. Encontro, fios de palavras, aliterações, assonâncias, dissonâncias, escrita de antes ou de depois da literatura, concreta, como se diz da música. Ou ainda: autofricção, pacientemente onanística, que espera agora compartilhar seu prazer” (DUBROVSKY, 1977, p.10)

Segundo o autor, a autoficção seria uma variante pós-moderna da autobiografia. Separei algumas autobiografias de quadrinhos para exemplificar como ao “autobiografias” de quadrinho são na verdade autoficções. Peguemos Desconstruindo Una, de uma artista inglesa que prefere se manter no anonimato usando o codinome Una, pelo fato de ter sido estuprada continuamente em sua infância e adolescência. Esse é o mundo que ela quer mostrar, então recorre a informações jornalísticas sobre um suspeito que rondava sua cidade acusado de assaltos sexuais. Mas ela também usa de dado técnicos sobre estupros para “ilustrar” e corroborar sua história e, dessa forma dar mais verossimilhança à sua história e convencer o leitor.

O negócio tá MAUS pra eles...

O negócio tá MAUS pra eles…

Já Art Spiegelman, autor de Maus, que ganhou o prêmio Pulitzer em 1991, conta a história de sua relação com seu pai, um ex-prisioneiro dos campos de concentração nazistas. Para isso, ele começa contando a história do pai em paralelo com a sua conturbada relação. Mas para além disso, Spiegelman usa um outro recurso, visual, de retratar os judeus como ratos e os nazistas como gatos, incorporando todo o simbolismo que esses animais possuem e mais ainda o da relação entre esses dois animais, inimigos figadais.

A quase não-reação da mãe de Alison ao saber que a filha estava escrevendo um livro sobre seu relacionamento.

A quase não-reação da mãe de Alison ao saber que a filha estava escrevendo um livro sobre seu relacionamento.

Em seguida, temos o exemplo dos trabalhos biográficos de Alison Bechdel, que, para retratar sua relação com o pai, em Fun Home e com a mãe, em Você é Minha Mãe?, abusa das referências a obras literárias e psicológicas, respectivamente. No caso da história da mãe, ela usa muitas referências de Donald Winnicott, psicanalista que pesquisou as relações intrínsecas que se dão entre a mãe e o bebê e como isso é importante para a formação da criança como indivíduo.

PARAFUSOS: DEPRESSÃO, MANIA, MICHELANGELO E EU, de ELLEN FORNEY

PARAFUSOS: DEPRESSÃO, MANIA, MICHELANGELO E EU, de ELLEN FORNEY

O último exemplo, é o quadrinho Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu, de Ellen Forney, uma quadrinho que trata de bipolaridade. Ele mostra as relações de Ellen com o mundo, mas principalmente suas relações com a arte, de onde tece seu hipertexto. Mais ainda, ela associa as artes às doenças mentais, tanto como causadoras delas como fonte de alívio para as mesmas. Então ela faz um paralelo com o humor de Michelângelo, renomado artista renascentista, que teria sido diagnosticado como bipolar, se vivesse hoje em dia.

Para John Locke, iluminista, a identidade de uma pessoa no tempo é estabelecida pela extensão de sua consciência às memórias de suas experiências e ações passadas:

“Assim, eu sei que a minha pessoa atual e a pessoa que eu era quando criança são uma mesma pessoa porque sou capaz de lembrar-me de mim mesmo enquanto criança, de minhas experiências e ações naquela época, sendo-me possível reconhecer uma sequência contínuas de elos mnemônicos a ligar aquela fase da minha vida e outras posteriores, até chegar a minha experiência consciente atual” (COSTA, 1998, p. 112).

A memória, retratada nas autoficções em quadrinhos aparece para nós como fragmentos, ela não vem inteira e cronológica, da mesma forma como os quadrinhos constroem sua narrativa: congelando um momento no espaço e no tempo. Dessa forma, a minha pessoa aumenta a percepção através da percepção do outro, e se torna uma nova pessoa, ainda que alimentada por fragmentos de entendimento, compreensão e opiniões alheias.

AUTOcapa

Ainda assim, vale dizer que autobiografia e autoficção não são a mesma coisa que um memorial. Esse último se confunde com a prática da História e também pode funcionar como uma espécie de curriculum vitae para candidatos a determinados cargos e competências, mas também como forma de elucidar fatos que foram omitidos pela história oficial.

Agora você sabe que a maneira certa de dizer não é autobiografias em quadrinhos e, sim, autoficções em quadrinhos. Abraços submersos!

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6 comentários

  1. Stefano diz

    Tomara que criem 1 graphic falando do infame campo de Jasenovac.
    Era tão horrendo que causou nauseas na própria Wehrmacht

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