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A Memória Coletiva e Geracional dos Leitores de Quadrinhos

Por que existe tanto conflito entre os nerds dos quadrinhos quando o assunto é validar uma ou outra geração de super-heróis? Por que muitos insistem em categorizar certas pessoas como leitores de quadrinhos raiz e leitores de quadrinhos nutella? Isso é facilmente explicado através do funcionamento da memória coletiva do ser humano que, ao contrário do que a maioria pense, não é estanque, mas flutuante.

Qual é o melhor Lanterna Verde? Hal Jordan? Guy Gardner? John Stewart? Kyle Rayner? Simon Baz? Jessica Cruz? Ou até mesmo Alan Scott? Isso vai depender, certamente, da idade da pessoa que você perguntar. Para uma geração, o Lanterna definitivo é aquele que sua memória guarda mais afeição, também aquele com que sua geração teve mais contato e que foi legitimado como Lanterna Verde.Vamos pegar os preceitos de Maurice Halbwachs, um dos grandes teóricos da memória social e coletiva para explicar melhor como funciona esse mecanismo.

Green Lantern #100

Green Lantern #100

“A ideia que representamos mais facilmente, composta de elementos tão particulares quanto pessoais quanto quisermos, é a ideia que os outros fazem de nós; os acontecimentos de nossa vida que estão sempre mais presentes são também os mais gravados na memória dos grupos mais chegados a nós. Assim, os fatos e as noções que temos mais facilidade de lembrar são do domínio comum, pelo menos para um ou alguns meios. Essas lembranças estão para ‘todo mundo’, dentro desta medida, e é por podermos nos apoiar na memória dos outros que somos capazes, a qualquer momento, e quando quisermos, de lembrá-los” (HALBWACHS, 1990, p.49).

Dependendo do contexto em que um indivíduo está e foi colocado, ele irá valorizar determinados valores. Aquele personagem que se identificar mais com os valores de suas gerações – ora, por isso os personagens de quadrinhos têm legado, mudanças de uniforme e comportamento e muitas vezes de alter ego – será legitimado como aquele que mais apela aos afetos e conflitos do leitor.

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“Diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda de acordo com o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meio. Não é de admirar que, do instrumento comum, nem todos aproveitam do mesmo modo. Todavia quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influências que são, todas, de natureza social” (HALBWACHS, 1990, p. 51).

Mas como personagens como o Lanterna Verde Alan Scott, hoje em dia não é o favorito de praticamente ninguém? Isso se explica porque a geração que lia as histórias desse personagem, morreu ou está morrendo e o personagem não teve força suficiente para sobreviver para as próximas como alguém de peso. Assim, alguns valores e personagens se mantém de geração para geração, outros, acabam se perdendo no caminho, mas não são completamente esquecidos, apenas não possuem o mesmo peso que partilhavam antes com o público.

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“A memória coletiva, (…), é o grupo visto de dentro, e durante um período que não ultrapassa a duração média da vida humana, que lhe é, frequentemente, bem inferior. Ela apresenta ao grupo um quadro de si mesmo que, sem dúvida, se desenrola no tempo, já que se trata de seu passado, mas de tal maneira que ele se reconhece sempre dentro dessas imagens sucessivas. A memória coletiva é um quadro de analogias, e é natural que ela se convença que o grupo permanece, e permaneceu o mesmo, porque ele fixa sua atenção sobre o grupo, e o que mudou, foram as relações ou contato do grupo com os outros. Uma vez que o grupo é sempre o mesmo, é preciso que as mudanças sejam aparentes: as mudanças, isto é, os acontecimentos que se produziram dentro do grupo, se resolvem elas mesmas em similitudes, já que parecem ter como papel desenvolver sob diversos aspectos um conteúdo idêntico, quer dizer, os traços fundamentais do próprio grupo. (HALBWACHS, 1990, p. 88).

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As relações dos leitores de quadrinhos com o mundo em que vivem e, no próprio consumo dos quadrinhos, acabou mudando, por isso, são necessários personagem que ressoem essa mudança de relações e que representem o mundo contemporâneos e seu valores. Não faria nenhum sentido que na nave da Liga da Justiça, Vixen e John Stewart, ocupassem os lugares dos fundos, por serem negros e porque negro tem que saber o seu lugar. WTF? Mas muitas mentes atrasadas pensam assim. São aquelas que não entraram em compasso com os valores que o seu grupo de leitores de quadrinhos passou a legitimar ao entrar em contato com outros grupos tão diferentes e tão iguais de novos leitores de quadrinhos, que pedem outras relações com sua mídia. Essa mudança de pesos e valores entre gerações é que causam o abismo geracional e várias discussões nas redes sociais de que histórias são “boas” ou não. Triste é que as pessoas não conseguem relativizar isso tudo por esse véu. Abraços tolerantes e submersos!

 

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