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A Narrativa das Cores nas Histórias em Quadrinhos

Muita gente considera o trabalho de cores algo de segundo escalão em uma revista em quadrinhos. Muitas editoras também, muitas vezes deixando os coloristas de fora dos créditos principais de uma revista, ou da capa de algumas edições. A verdade é que as cores são tão importantes num quadrinho quanto um texto ou um desenho, pois elas acrescentam uma dimensão maior a toda atmosfera que estamos experimentado em um quadrinho.

Pra começar eu queria falar de um cara que me fez perceber como essa dimensão da cor é essencial em uma revista em quadrinhos. Estou falando do Marcelo Maiolo, colorista brasileiro de muitas coisas como All-New X-Men, Green Lantern Corps, I, Vampire, entre outros. Foi no seu trabalho com o Arqueiro Verde ao lado do desenhista Andrea Sorrentino que a sua narrativa de cor acentuou os desenhos e o roteiro de Jeff Lemire.

CORmaiolo

Através dela, ele pontuava as ações de Oliver Queen usando a diferença de cores chapadas e a arte crua na arte-final em contraste à cor tradicional. O trio Lemire/Sorrentino/Maiolo também tem repetido a dose em Old Man Logan (Velho Logan). E, ao ver outros trabalhos ou só de Lemire, ou só de Sorrentino, a gente pode perceber que o toque de Maiolo e sua dimensão da cor fazem toda a diferença para o ritmo e apreensão da história.

“As cores podem servir para inúmeras funções narrativas. A maioria dos personagens de quadrinhos mainstream, de super-heróis para cowboys para patos, possuem um esquema de cores invariável e reconhecível. Como a estudiosa européia dos quadrinhos Ann Miller aponta, a cor pode fazer a história mais fácil de ser seguida: ‘ao permitir os personagens serem reconhecidos de um painel para outro’. A cor também pode criar ou amplificar a emoção de uma história. ‘Geralmente, raiva, violência ou qualquer painel de impacto terá cores como vermelho, amarelo ou laranja. Cores frias como azul e violeta são usada quando o tom é triste e deprimente’”. (DUNCAN, SMITH, 2015, p.123)

CORdaytrippers

Como bem me apontou meu amigo Phellip, “eu li o Repeteco, de Bryan Lee O’Malley, e tem cenas bem legais que dão uma atmosfera única para narrativa”. Ele também estuda o Daytripper de Gabriel Bá e Fábio Moon e ele me explicou que lá as cores complementares são usadas para descrever a dicotomia entre a presença e a ausência de Brás, o personagem principal da série/graphic novel. Dessa forma, a cor, que em Daytripper é feita por Dave Stewart, não tem só a função de colorir, mas de dar outras camadas para a história que muitas vezes passam despercebidas para a gente e, por isso não são tão valorizadas, mas que fazem toda a diferença. A Cris Peter, brasileira também e também colorista de quadrinhos fala sobre essa subjetividade das cores no seu livro:

CORjackkirbyrecolorized

A recolorização do Thor de Jack Kirby.

“Como colorista de quadrinhos estou presenciando um momento bem interessante quanto ao apego às cores dos fãs de quadrinhos. Ultimamente as editoras estão relançando alguns títulos clássicos de uma época na qual a colorização não era digital. Trabalhos que não vou julgar se são bons em matéria de colorização ou não, pois isso não vem ao caso. A questão é que os fãs, em sua maioria, estão detestando essas recolorizações, e isso é totalmente compreensivo, pois o clássico e nostálgico está atribuído àquelas cores, sejam elas bem feitas ou não. Existe um sentimento envolvido, um sentimento que se manifestará em reclamações com várias explicações possíveis, mas o fato é que há vínculo emocional entre o leitor e aquela antiga colorização” (PETER, 2014, p. 139)

Por outro lado, também acompanhamos um movimento contrário, de quadrinhos atuais usando cores chapadas como antigamente, entretanto seguindo uma paleta de cores, ou seja, um espectro cromático, como é o caso da revista do Gavião Arqueiro colorida por Matt Hollingsworth. Ao mesmo tempo, as cores acompanha o clima e o estilo da histórias. Por exemplo, os trabalhos de Brian Azzarello e Eduardo Risso, muitas vezes são acompanhados pelas cores sóbrias de Patricia Mulvihill, que emprestam às narrativas aquela atmosfera noir e de suspense que esse tipo de quadrinho necessita. Assim também é com as histórias de Jessica Jones desenhadas por Michael Gaydos e colorizadas também por Matt Hollingsworth.

CORmulvihill

“Usar o preto e branco ao invés de cores também pode causar um efeito no significado de uma história. Assim, por muitos dos quadrinhos mais ambiciosos e criticamente aclamados contaram suas histórias sem o uso das cores primárias, o preto e branco, ou então cores sutis (tons de sépia, tinta verde, etc.), tem se tornado emblemáticos em quadrinhos considerados sérios. Scott McCloud acredita que ‘as cores objetificam o que é subjetivo’, e enfatizam muito mais do que significam, enquanto ‘em preto e branco, as ideias por trás da arte comunicam mais diretamente’” (DUNCAN, SMITH, 2015, p.123 e MCCLOUD, 2015, p. 189,192).

CORdaredevilsoule

Claro, usar cores ou não é uma escolha do artista e da editora. Frank Miller começou seu Sin City utilizando uma dose cavalar de chiaroscuro em suas páginas. Porém, no volume final, ele decidiu acrescentar cores no trabalho como uma sequência onírica de um personagem, ou como efeitos extra diegéticos da narrativa. Mais uma vez, a cor ou a não-cor funciona como elementos para contar uma história. Ou último exemplo  é o Demolidor de Charles Soule e Ron Garney, que usa apenas três cores: o preto, o branco e o vermelho. E suas matizes é claro. É um exercício interessante e bonito da narrativa, feito por Matt Milla, para simular a visão de radar de Matt Murdock. Entretanto esse estilo, como a Cris falou acima, pode desagradar aos fãs apegados emocionalmente a um determinado tratamento de cor para histórias como as do Demolidor.


Agradeço ao amigo Phellip Willian por ter tido a ideia para esse post e fornecido alguns exemplos para ilustrá-lo.


Bibliografia:

DUNCAN, Randy, SMITH, Matthew J., The power of comics: history, form and culture. Nwe York: Bloomsbury, 2015.

MCCLOUD, Scott. Understanding comics: the invisisble art. New York: HarperCollins, 1994.

PETER, Cris. O uso das cores. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial Editora, 2014.

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