A “Teoria do Degrau” e a Mudança de Gostos na Leitura de Quadrinhos

Quem lê quadrinhos há muitos tempo, como eu, que leio há mais de vinte anos, sabe que nossos gostos e preferências de leitura vão mudando ao longo do tempo. Por isso resolvi trazer da literatura a “teoria do degrau” para discutirmos um pouco o avanço – ou regressão – desses gostos e hábitos.

DEGescadaQuando eu falo de Teoria do Degrau, não falo aqui daquela Teoria da Escada que envolve a sexualidade e nem na Teoria da Escada Ponteana do Direito, mas sim, na Teoria do Degrau da literatura. Essa Teoria diz que nos utilizamos de paraliteraturas ou leituras mais acessíveis para galgarmos degraus rumo a leituras mais profundas. Bom, em primeiro lugar eu não quero, aqui, tratar do quadrinho como uma leitura menor e que dá acesso a grandes leituras dos clássicos da literatura mundial. Isso seria paternalista e condescendente com os quadrinhos da minha parte. O que eu quero falar mesmo se refere a como, através dos quadrinhos, acabamos buscando leituras mais complexas dentro do próprio meio. Alguns, claro. Outros preferem ficar no rasinho, porque se forem pro fundo podem correr o risco de se afogar ou de sua mãe ralhar com eles.

Falando sobre os best-sellers, Sandra Reimão, professora da USP, colocou duas formas de encarar esse tipo de leitura: “Uma primeira, que poderia ser chamada ‘teoria do degrau’ concebe a literatura trivial como uma primeira etapa, um degrau de preparação de leitor para torná-lo apto a enfrentar textos da literatura de proposta”.

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Bem, tendo exposto isto, eu gostaria de comparar esses degraus como uma evolução de gosto natural do amadurecimento humano. Vou usar o meu exemplo. Comecei lendo Turma da Mônica e Disney na infância, na Pré-Adolescência eu lia Asterix, na Adolescência eu lia Marvel e DC Comics, durante a faculdade comecei a ler Vertigo e na idade adulta o que me atrai mais são os quadrinhos independentes, nacionais e com temas mais profundos. Grant Morrison tentou fazer uma comparação parecida em seu Flex Mentallo, só que desta vez associando as Eras dos Quadrinhos com a maturidade humana (no sentido biológico, claro!).

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Dito isso, cito novamente Sandra Reimão e sua outra colocação: “A teoria do degrau se opõe ao que podemos chamar de ‘teoria do hiato e regressão’, ou seja, a afirmação de que há um hiato intransponível entre a alta literatura e a de mercado, e que esta última jamais poderá ser via de acesso à literatura maior, uma vez que a literatura de entretenimento não só não se sedimenta, como também é um instrumento de regressão de espírito , não é capaz de conduzir a uma consciência crítica autônoma, mas eternamente repete e justifica o status quo”.

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Começo dizendo que eu odeio essa separação entre alta e baixa literatura, mesmo o termo paraliteratura eu acho bastante equivocado. Acho que o gosto de quadrinhos e a vontade da pessoa em evoluir nas suas leituras e buscar mais para sua vida depende de duas coisas: disposição, ou seja, a vontade de mudar – no caso de pessoas que tiveram acesso à educação de qualidade, ou seja, a maioria das pessoas que tiveram acesso a este texto -, ou então de ter educação de qualidade e uma cultura de que precisamos sempre nos aprimorar e vencer nossas próprias barreiras – e isso é difícil de achar nas populações de baixa renda, pois como dizem, não basta só dar o peixe, tem de ensinar a pescar e muito, mais muito mais do que isso, tem de ser construída a cultura da pescaria na cabeça das pessoas e sobre essa cultura da pescaria também tem de ser inserida na mente das próprias pessoas do Projeto Pescar, que muitas vezes não a têm, e reproduzem processos e conhecimentos sem refletir sobre eles.  

 

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6 Comments

  1. Acho que isso acontece com tudo na vida, conforme a gente amadurece. Eu só ouvia rock na adolescência, hoje ouço jazz, música erudita, MPB, mas continuo ouvindo rock também. Do mesmo modo, lia Disney e Turma da Mônica, e aos poucos fui migrando para Miller, depois Manara e Spiegelman. Mas sigo comprando os MSP e Carl Barks de luxo. Ou seja, amadurecer é ampliar os gostos.

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  2. Parabéns pelo texto Guilherme. Como leitor e pesquisador do Fantástico já passei por muitos debates sobre essa questão dentro da Universidade. As pesquisas sobre o Fantástico e suas vertentes (Fantasia, Gótico, Terror, Horror, Ficção Científica e Realismo Magico, por exemplo, só começaram a se tornar visíveis nos anos 90 e nessa época Quadrinhos era Paraliteratura, usando o termo do Muniz Sodré. Isso revela o atraso intelectual brasileiro frente as pesquisas e críticas estrangeiras que sempre apontaram os Quadrinhos e obras ligadas ao imaginário como obras de arte com literariedade e não apenas com propósito pedagógico.

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    1. Pois é, uma coisa que não gosto da pesquisa em quadrinhos brasileira é que parece que ela só tem ênfase na parte pedagógica como se os quadrinhos se resumissem a um instrumento entre vários para ensinar. Só que não é só isso. Mas aí quem não dava a devida relevância para isso era marginalizado, que bom que isso está mudando. Abraços! =)

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  3. Eu sou vitima disso.
    Com o tempo eu fui aprimorando as minhas leituras com quadrinhos, mas eu fazia isso de uma outra forma. Eu lia a sinopse e arriscava, fosse o selo que fosse, com isso que conheci a Vertigo e outros selos mais ligados as HQ’s independentes.
    Mas aqui eu invoco a teoria de Greenberg (que ainda estou lendo) sobre a questão de critério de avaliação de qualidade de arte (quadrinhos são uma expressão de arte). Se você não evolui em relação a fruição do objeto artístico, você acaba se estagnando intelectualmente, vamos dizer que você fica preso a uma tradição. Romper com ela é que faz trazer melhor qualidade artística com os quadrinhos. Exemplo esse foi Alan Moore com seu Watchmen e Frank Miller com Cavaleiro das Trevas, ambos rompem com uma série de tradições pertencentes aos quadrinhos. Vejo que isso funciona com a gente que frui essas obras, subimos a escada, e rompemos com algumas leituras do passado para nos sofisticar com coisas, em termos, mais complexas. Julgo eu, é claro.

    Sobre a questão do mercado. Também sou contra essa coisas de “baixa e alta cultura”, mas não desprezo essa teoria do Adorno por completo. Sabemos que nessa enxurrada de HQ’s, existem materiais de boa qualidade estética e narrativa, mas separar o joio do trigo é algo muito complicado. Porque nesse meio há inúmeras leituras de péssimo gosto.

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