O Problema da Defasagem na Indústria de Quadrinhos Periódicos

Você já desistiu de ler um quadrinho porque a continuação dele não vinha nunca? Eu já. E tenho desistido ao longo do tempo. Afinal, não existe memória tão boa assim que consiga reter uma história por mais de três meses sem relê-la. Vou falar aqui um pouco dos problemas dessa defasagem no consumo e na apropriação das histórias pelos leitores.

DEFzdmPra começar, dizem que para fixar um conteúdo de leitura na memória a melhor coisa a fazer é ler dois livros ao mesmo tempo. Dessa forma, se dá à mente mais tempo para processar e decantar as informações como também para fazer conexões intertextuais entre uma leitura e outra e, assim, estabelecer mais riqueza para os conteúdos que se está fruindo. Por isso, eu sempre começo um livro, depois começo outro, sempre intercalando leituras. Até porque se fixar e se tornar obcecado por uma coisa só é muito chato.

As leituras periódicas, aqui representadas emblematicamente pela indústria de consumo dos gibis de super-heróis, permitem essa “decantação” da leitura. Esperar que a leitura se sedimente no nosso cérebro para que possamos fazer conexões com o próximo capítulo. Esse tipo de leitura vem dos folhetins dos jornais, onde grandes literatos como Dostoiévski e Machado de Assis produziam suas obras, seriadas, um capítulo por semana. Entretanto, para que a narrativa seja acompanhada seriamente e que não se perca na cabeça dos leitores, ela precisa ter uma regularidade em espaços não tão grandes, principalmente para manter o interesse do leitor/consumidor nas obras oferecidas.

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Trago um exemplo que tem dissipado completamente minha vontade de continuar lendo: Batman: O Cavaleiro das Trevas 3. Fazem mais de três meses que não saem edições originais desse quadrinho no Brasil, de forma que eu nem me lembra mais o que está acontecendo na história que, por sua vez, é bastante esquecível. O descaso e a defasagem chegou a tal ponto que eu simplesmente desisti de comprar os capítulos seguintes. De qualquer forma, esse é tipo de obra que cabe a máxima “vou comprar o encadernado depois!” e, olha, não foi por falta de insistência da minha parte.

Outro caso é a publicação pingada de certos materiais da Vertigo, como DPF e ZDM, por exemplo. ZDM teve seu primeiro encadernado publicado em 2008, quando a Vertigo começou pela Panini. Estamos em 2017 e seus 11 encadernados originais ainda não foram completados. São quase dez anos. Isso, numa graduação, seria jubilamento. Se os acadêmicos não podem esperar uma formação educativa, por que os consumidores deveriam esperar uma publicação em quadrinhos? Para se ter uma ideia, li o ZDM desde o começo e fiquei muito empolgado com o quadrinho. Mas essa empolgação tem diminuído exponencialmente com o delay em novos lançamentos e a conclusão da história. Porque, sinceramente, eu não consigo lembrar de todos os personagens quase dez anos depois. Nesse tempo, dizem, dá mais do que o período que todas as células do nosso corpo demoram para serem todas substituídas.

Mas isso não é um fenômeno exclusivo da indústria brasileira de quadrinhos. A raiz desse problema mora mesmo nos Estados Unidos e na demora dos artistas – pagos, graças a Zeus – para fazerem seu trabalho periodicamente. Existem muitos casos que poderiam ser citados e, inclusive o CBR já fez uma bela matéria sobre hiato na produção de quadrinhos. Mas o primeiro que me vem à memória é do mesmo autor do Cavaleiro das Trevas 3, que é Frank Miller. O seu polêmico e horripilante Grandes Astros: Batman & Robin: O Menino Prodígio nunca foi concluído. Programado para doze edições, saíram apenas dez. Outros artistas célebres por atrasos são J. M, Straczynski, Jeph Loeb e o Cineasta Kevin Smith, bem como o grande chefão da Marvel, Joe Quesada, que atrasou tanto NYX quanto Demolidor: Pai.


Entretanto, isso é privilégio de grandes empresas monopolistas e de artistas de renome internacional. Nunca que uma editora de esquina deixaria seu quadrinho defasar mais de três meses, pois ela sabe que ao se comportar assim vai perder o interesse – e o pior -, o poder de compra dos seus leitores. Nunca que uma pessoa que quer que seu webcomic seja conhecido ao redor do mundo vai deixar de publicá-lo por uma semana na plataforma escolhida. Perda de interesse dos leitores é perda de dinheiro. Mas o que são algumas centenas de reais ou de dólares para uma empresa multinacional ou para artistas milionários? É apenas troco. Mas, para nós, leitores, é o dinheiro suado de nosso trabalho, que muitas vezes deixamos de comer para comprar gibi. Apresento-lhes, mergulhadores, o capitalismo canibal que não se importa nem um pouco com você. Beijinhos no ombro!

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6 Comments

    1. Sim. Estamos em final de abril (uma semana pro fim) e nenhum checklist, nem da Marvel, nem da DC, saíram ainda. E o pior é que na Comix as mesmas revistas já estão à venda. Qual será o problema, então? =P Abs!

      Curtido por 1 pessoa

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