Atirando-se do Alto da Ponte. Suicidas, de Lee Bermejo e Matt Hollingsworth

Dizem que a nova Vertigo, sem a grande editora e fundadora Karen Berger, não é mais a mesma. Títulos fracos, sem apelo e que deveriam muito em conteúdo para a nascente preponderância da Image Comics em títulos de propriedade do autor. Suicidas faz parte dessa leva. Será que ele confirma essa teoria? Vamos ver a seguir.

Lee Bermejo, o autor de suicidas, é um artista ímpar. Ele causou boas impressões com seus trabalhos realistas em centenas de capas e na parceria com Brian Azzarello criando alguns quadrinhos enfocando grandes vilões do Universo DC, como por exemplo Lex Luthor e Coringa. Depois, ele escreveu e desenhou uma graphic novel do Batman, que se passa no Natal, Batman: Noel e escreveu o título We Are Robin para a iniciativa DC You. Foi nessa época que ele também lançou Suicidas.

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A série se passa em um futuro distópico na cidade de Nova Angeles, em que acompanhamos uma investigação de assassinato, ao mesmo tempo que ficamos conhecendo a história pregressa de uma dos maiores astros da cidade, o lutador O Santo. Em Nova Angeles, a maior arte e o maior esporte é uma batalha suicida entre dois competidores que se digladiam até a morte de um deles. Tudo isso é televisionado para o público da cidade e é essa coesão, promovida pelos meios de comunicação de massa que mantém a cidade sob controle e a impede de ser maculada pelos pula-muros.

Até aí tudo bem. Premissa legal e tudo e tal, que foi o que me atraiu para a revista. Mas, caros meninos, o quadrinho não cumpre o que promete. Talvez essa seja uma boa aula de como não fazer o seu quadrinho adulto. Vou dizer os motivos. A história se passa num futuro distópico, mas pelo que é contado nela, não faria nenhuma diferença se se passasse nos dias atuais ou num universo steampunk, por exemplo. Então pra que esse recurso? Da mesma forma, Nova Angeles é uma cidade sitiada, em que nem todos podem entrar ou sair, mas, de novo, de que isso importa mesmo para a história que se quer contar? É apenas para efeito decorativo, na real.

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Além de não construir direito o universo de suas histórias – e construção de Universo, que segue suas próprias leis, diferente do nosso, não é para qualquer um – Lee Bermejo também peca na construção do personagem. Não temos nenhuma simpatia pelo Santo, o personagem principal. Não queremos saber mais dele, pois o autor não nos instigou a saber. Da mesma forma, acontece um assassinato. Mas parece que ninguém na história se preocupa com isso, nem os personagens, nem mesmo o autor, então, por que raios o leitor deveria se preocupar? Só porque é uma mulher de tetas de fora?

Outro problema, mas aí talvez se encontre na parte de edição, tradução e adaptação da série – eu não li o original – o uso de termos de baixo calão. É cu pra todo lado. Na minha opinião, termos chulos não servem para serem empregados aos quadrinhos. Diferente do cinema ou do audiovisual, em que esses termos passam raspando na nossa cabeça e no nosso entendimento, ou nos livros de ficção em que temos palavras e palavras que mascaram esse tom agressivo, nos quadrinhos eles ganham uma potencialização maior. O texto é menor e além disso é intensificado pelas imagens, o que provoca no leitor uma espécie de choque. Em quadrinhos como os de Garth Ennis isso até funciona, porque tem uma raison d’être, mas num quadrinho do Lee Bermejo parece mais heterozinho de escola que quer se provar machão insultando o coleguinha.  E não tem coisa pior que heterozinho causativo. Nós, bichas, viados, boiolas, bicholinhas, sim, temos a prerrogativa do tombamento. Nós podemos, dá licença! Enfim… Palavrão em quadrinho parece uma necessidade imensa de provar que aquele quadrinho – ah, aquele sim! – foi feito para adultos.

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Agora precisamos falar sobre a arte. A arte de Bermejo é sensacional, claro, isso não tem discussão. Mas será que um quadrinho com uma pintura realista nesse estilo não perdeu o seu contexto? Não a critico enquanto arte de capa, mas será que dentro da narrativa dos quadrinhos, artes pintadas nesse estilo puxadas a Alex Ross, perdem o impacto da suspensão de descrença e da representação, ou em termos acadêmicos, da mímesis?

Lendo um gibi, ou melhor, uma página das histórias da Novíssima Wolverine, de Tom Taylor, que foi a minha leitura em seguida da conclusão de Suicidas, apenas no espaço de uma página, o roteirista consegue apresentar o universo e os personagens melhor que Lee Bermejo faz em 148 páginas. Seria uma volta da Era Image, onde a arte se sobressai ao enredo? Deixo vocês com esse questionamento, se quiserem comentar esse postulado ou deixar suas impressões sobre Suicidas e me contestar, podem deixar suas ideias. Só não vale xingar como fazem os amigos trolls que moram debaixo da ponte de onde os suicidas se atiram.

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5 Comments

  1. De fato eu achei o título bem fraco, o selo parece ter pedido a força com a saída da editora, o suicidas achei bem fraco, a história é mal desenvolvida, os personagens mais intrigantes são meio que jogados e a importância é dada aos personagens errados, a arte não me incomodou nem um pouco, pelo contrário é um dos poucos pontos autos da hq. Espero que tenha uma continuação pois foram criados várias tramas e nenhuma delas chegou perto de ser respondida e por mais que eu tenha achado a história fraca ainda me deixou curioso para o desfecho das tramas ali propostas.

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    1. Oi Marlos! Sim, o quadrinho teve uma continuação, outra minissérie de 6 partes chamada Suiciders: Kings of HelL.A. Mas sei lá, com tanta coisa no tema que se deu bem como Jogos Vorazes, Battle Royale, Senhor das Moscas, Academia dos Vingadores, é incrível como um autor consegue estragar uma premissa boa. Abraços! =)

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    1. Oi Rodrigo! Olha, achei uma arte e umas cores sensacionais e uma história bem decepcionante. Se não me engano, é o mesmo time criativo da Gwen-Aranha, que também me decepcionou bastante (embora tenha melhorado). Se não me engano DPF tem só quatro encadernado, então está acabando. Desses encadernados lançados no Brasil da Nova Vertigo pós-Berger, o que mais curti foi Coffin Hill. Sério mesmo. Abraços!

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