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Al Capp, Ferdinando e As Soluções Para os Problemas do Mundo (?)

Vai e volta, os quadrinhos são uma tela em que a crítica social ocorre. Seja nos quadrinhos da Turma da Mônica ou no universo dos super-heróis, seus autores estão sempre contestando a realidade. Mas teve um quadrinho que, para quem conhece mais a fundo a história dessa mídia, sempre foi sinônimo de arte sequencial e crítica social. Se trata de Ferdinando (Lil’ Abner) de Al Capp, e é sobre ele que vamos falar agora.

Ferdinando (Lil’Abner), de Al Capp, foi um quadrinho muito popular entre os anos 50 e 70, principalmente nos Estados Unidos. A força de Ferdinando e Al Capp estavam em criticar socialmente o modo de vida capitalista e americano, sendo que, por mais que Capp tenha se tornado conservador em seus últimos anos, sempre tenha sido visto por muitos como socialista. Nos anos 80, até mesmo Umberto Eco usou das tirinhas de Ferdinando como objeto de seus estudos.

O DIA DA MARIA CEBOLA

Uma das histórias mais populares de Al Capp na década de 50 foi “O Dia da Maria Cebola”, se tratava de um costume, na vila onde Ferdinando mora, de que, uma vez ao ano, as mulheres podem correr atrás de homens para torná-los seus maridos. Aquelas que conseguem agarrá-los casavam-se com eles. Esse dia teve origem quando Maria Cebola, a mulher mais feia da vila, Brejo Seco, conseguiu se casar com o homem dos seus sonhos. Nosso herói, Ferdinando, com eternos 18 anos, tinha medo de casar e, portanto, Violeta (Daisy Mae), seu par romântico, sempre se preparou fisicamente para alcançá-lo na corrida.

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Parte da história do Dia da Maria Cebola, retirado do livro SHAZAM!, de Alvaro de Moya.

Para se ter uma ideia do alcance de Ferdinando, em 1950, mais de mil jornais publicaram suas tiras e seus leitores chegavam a 60 milhões de indivíduos. O Dia da Maria Cebola foi instituído em mais de uma dúzia de universidades americanas, sem dizer de algumas instituições não-oficiais. No Brasil, o maior impacto que Ferdinando teve foi em Mauricio de Sousa que, inspirado nele, criou Piteco, o homem das cavernas que foge pra sempre do casamento com Thuga.

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Al Capp na capa da revista Time. Nesta capa de Ferdinando, reparem como os traços de Capp eram sensuais tanto para as mulheres como para os homens.

OS SHMOOS

As principais críticas sociais que Al Capp fez foram os seres imaginários que inventou para a série de Ferdinando. Como os Shmoos, serezinhos brancos cujo corpo produzia carne, ovos, leite, couro e tudo mais. Para abatê-los bastava ter vontade de comê-los. “Eles botam ovos por qualquer motivo! Também dão leite! E, assados no espeto, são a melhor carne de vaca que existe… fritos, se transformam em apetitosas galinhas ou em qualquer carne branca que desejar! E não são despesa, pois não comem absolutamente nada!”, diz o ancião que apresenta os Shmoos para Ferdinando.

Ferdinando, então, passa a distribuir Shmoos pelo mundo, afinal eles eram a solução para a falta de recursos, uma vez que se reproduziam rápida e numerosamente. Entretanto, a popularização dos Shmoos acabou provocando uma crise na indústria alimentícia.. Os ,agnatas das indústrias resolveram se reunir e traçar planos para acabar com os Shmoos. Foi assim que decidiram caçá-los e a extingui-los.

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O vale dos Shmoos.

Al Capp usou os Shmoos como uma alusão ao planeta Terra: um ser que provia ao ser humano tudo que ele necessitava, mas que, aos poucos, através do lucro e da ganância do ser humano, acabou sendo dilapidado e servindo para outros interesses que não fossem a estrita sobrevivência dos mesmos.

Os Shmoos ficaram muito conhecidos mundialmente. Além de estrelarem um desenho animado próprio, também dividiram outro com Fred Flintstone e Barney Rubble, da Hanna-Barbera. Foram feitos milhares de produtos derivados dos Shmoos, como brinquedos e até cereais e salgadinhos. Uma grande ironia, uma vez que o que Al Capp criticava acabou se tornando algo benéfico para ele.

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Os produtos derivados dos Shmoos e sua aparição em Os Flintstones, da Hanna-Barbera.

OS KIGMEUS E AS ÁGUIAS CARECAS

Outra bela criação de Al Capp, outra metáfora magnífica foram os Kigmeus. Serezinhos vindos da Austrália que foram um mote para a paz mundial: eles adoravam serem chutados, por qualquer razão que fosse. Assim, através de seus sentimento masoquista, os Kigmeus acabavam com todas as brigas no mundo. Mas mesmo com a paz mundial conquistada, a indústria bélica, as forças armadas e as forças de manutenção da lei precisavam ser alimentada e, novamente, o Kigmeus foram caçados e extinguidos.

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Os Kigmeus e as Águias Carecas.

Um terceiro animal fantástico do universo ficcional de Ferdinando eram as Águia Carecas das Eslobóvia , trazidas aos Estados Unidos por um acordo de “compartilhar o frio”, enquanto os estrangeiros deveriam dar seus víveres aos Estados Unidos. A Eslobóvia foi anexada aos Estados Unidos e a livre circulação de seus recursos e população começou a ocorrer. O problema é que, na presença das Águias Carecas, as pessoas eram impedidas de mentir. Assim, os dias de vacas gordas dos advogados, dos publicitários, dos atores, estava com os dias contados, mas também de toda moral e ética dos americanos. Então o acordo com a Eslobóvia teve de ser anulado.

Essa incrível sensibilidade de Al Capp faziam de seus quadrinhos únicos e, apesar de apreciados por muitos, eram REALMENTE entendidos por poucos. Com o fim da Guerra Fria, os quadrinhos de Ferdinando pararam de ser produzidos. Hoje, é difícil de serem encontrados, pelo menos em exemplares novos. Seria uma boa que alguma editora brasileira voltasse a publicá-los.

Fonte:
VIANA, Nildo. Quadrinhos e Crítica Social: O Universo Ficcional de Ferdinando. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2013.

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