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A Evolução do “Grande Inimigo” nos Quadrinhos de Super-Heróis

Os quadrinhos de super-heróis estão sempre travando uma guerra. A diferença é que com o passar dos anos e das eras, o “grande inimigo” retratado nos quadrinhos de super-heróis vai mudando. Eu gostaria de falar aqui um pouco sobre essa necessidade dessas publicações de tratar o inimigo como uma massa amorfa e homogênea e como isso influi na nossa cultura. Cidadãos “de bem”, acesse a seguir!

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Cidadão V “de bem”? Há controvérsias!

Cidadãos “de bem”, pois bem. Essa é uma expressão que me arrepia os cabelos. Quem, em sã consciência pode se dizer do bem o tempo todo? Nem nas revistas dos super-heróis esse argumento não cola, muitos super-heróis já se depararam com seu lado negro e, longe de cidadãos “de bem” perceberam que tem muito potencial para serem cidadãos “do mal”. Aliás, todos nós já percebemos. Só que tem gente que tem medo ou não tem coragem de admitir.

A verdade é que se eu sou o bem, o outro e, tudo que ele representa, significa o mal. Tudo aquilo que nos escapa das mãos e do controle é o mal. E isso, de certa forma, é verdade. Desde a árvore do conhecimento de Adão e Eva é assim. Quando eles tiveram a chance de conhecer o outro como ele realmente é, foram expulsos do paraíso. E assim, começaram as guerras. Assim, o mundo foi tomado do maniqueísmo, a dicotomia constante entre o bem e o mal que assola as revistas de super-heróis. Isso é bastante presente hoje, mas já foi pior.

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Hit the Hitler!

Durante a Segunda Guerra Mundial, o ápice de vendas dos quadrinhos, os nazistas se tornaram o foco dos esforços dos super-heróis. Os nazistas eram uma massa amorfa e homogênea de um povo que devia ser odiado pelas atrocidades que cometiam contra os americanos. Mas até então, os nazistas eram uma ameaça estrangeira no sentido territorial. A guerra acontecia em outro front, e não na américa, então heróis como o Superman, não lutaram diretamente. Outros, como o Capitão América foram até Berlim. E o Tocha Humana, pasmem, até deu cabo de Hitler.

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“Nosso apartamento, um pedaço de Saigoooon!”

Mas como fim da guerra, outra pairava no horizonte. Era a Guerra Fria, uma batalha que acontecia por baixo do pano, de ideologias entre as duas maiores potências mundias, os capitalistas dos EUA e os socialistas na URSS. Entretanto, agora a guerra não estava longe, pois o comunista poderia ser qualquer um. Poderia se o vizinho que você dá bom dia, ou o seu colega de trabalho. Oh, o horror! Os comunistas estavam infiltrados entre nós, mas não sabíamos. A guerra, então, se tornou paranóia e nossa relação com os outros se tornou mais fria que a guerra travada. As origens dos heróis da Marvel estão muito baseadas na guerra contra os comunistas. A gênese de Homem de Ferro e Hulk são muito baseados na ameaça vermelha, o que atestam seus inimigos como o Abominável, o Dínamo Escarlate, o Gremlin, a Viúva Negra, entre outros.

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Steve Rogers deu nota 0 para o novo Pânico no Rotten Tomatos.

Com o fim da Guerra Fria nos anos 90, os inimigos passaram a ser ainda mais estrangeiros nos quadrinhos. Mas antes de falar deles quero chamar atenção para a data de 11 de setembro de 2001. Foi a partir dessa data que a menção do povo muçulmano começou a se tornar sinônimo mundial para terroristas. E os terroristas, diferentes dos comunistas, ativaram a paranoia para níveis ainda não vistos de preocupação com o outro e o alheio. Qualquer um poderia ser um homem-bomba e se explodir do nosso lado levando nossa casa, nossa tradição, nossa família e nossa propriedade. Qualquer um poderia mandar um envelope cheio de antraz para uma repartição pública e envenenar nossos documentos. Assim, o Capitão América e demais heróis passaram a  declarar uma guerra contra o terror.

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Oráculo já tinha gravado o Temer muito antes do Joesley.

Só que, numa sociedade baseada na informação, o que aconteceria se o outro roubasse nossos dados, nossa identidade e nossos documentos – enfim, todas nossas informações -, e passasse a viver nossa vida ou a de um outro? Clonagem de cartões de créditos, perfis fakes nas redes sociais, uso indevido de dados numéricos, falsificação de digitais com dedos de borracha, eram e são perigos da era digital em que vivemos a partir de meados dos anos 2000. O grande inimigo são os hackers, do anonymous, os vândalos depredadores, que não sabem mais o que é propriedade privada. Personagens tanto do bem, como a Oráculo, como do mal, como o Calculador,ou o supercomputador Solaris em DC Um Milhão ou ainda o Irmão-Olho e seu exército de O.M.A.C.s em Crise Infinita, passaram a representar esse tipo de inimigo homogêneo, amorfo e, que agora era pior, não sabíamos que cara dar a ele, pois poderia adquirir qualquer identidade. Inclusive a nossa própria!

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Vamo invadí! Vamo invadí! Vamo invadí!

Então que, voltando ao ponto onde parei, desde os anos 90, os alienígenas vêm tomando o papel de comunistas, de nazistas, de muçulmanos e de hackers no universo dos quadrinhos. Em histórias como a dos Marcianos Brancos, da Liga da Justiça de Grant Morrison, ou na Invasão da DC ou ainda na Invasão Secreta da Marvel. Os alienígenas se revestem de todas as qualidades citadas anteriormente. Eles são uma força genocida como os nazistas, eles estão infiltrados como os comunistas, eles possuem armas de destruição em massa como os muçulmanos/terroristas, e eles sabem tudo sobre nós e podem se passar pela gente como os hackers. Mas os alienígenas geralmente guardam uma qualidade que nenhum desses antigos inimigos possuem. Eles não são como a gente. Eles não são humanos. Não sabemos do que eles são capazes. E nesse sentido, eles são nossos superiores. E essa, amigos soldados “de bem”, é a verdade difícil de engolir.

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O.M.A.C. = Odebrecht Massivamente Abocanhando a Corrupção

De certa forma, o que nos é “estrangeiro”, o que nos é “alienígena” e usa o prefixo “xeno”, é, em síntese superior a nós mesmos. Porque o alheio e o outro nos escapa ao entendimento, estremece nosso ser, nos coloca em conflito por existir e o pior de tudo: tem uma capacidade absurda de nos transformar em algo igual a ele. Infelizmente ou graças aos deuses, essa mimética, é uma das mais bonitas capacidades humanas. É isso que formou nossa cultura: a exposição ao diferente.

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Eu não estou aqui querendo defender nazistas nem alienígenas, mas levantar um questionamento de que o ser humano, na maioria das vezes não para pensar que a cultura do nós versus eles não constrói nada, nem nunca construiu. Como diz aquela frase, mais ou menos assim: “Fácil é dar ao povo uma face do que odiar, difícil é colocar o povo a se questionar”. Falar povo aqui, já é uma generalização absurda que dá face a todo nazista, comunistas, muçulmano, hacker e alienígena. Só que tão fácil de dar ao povo alguém a odiar, também é fácil dar a essa massa amorfa e homogênea, alguém para se inspirar, para se espelhar. Mas são tempos sombrios, babe, e como no filme da Mulher-Maravilha, parece que Ares paira sobre nós incitando ao conflito. O negócio é tentar parar, contar até dez e refletir o que fazer antes que um conflito destrua a relação que pode render belos frutos para nós e para os alienígenas que nos rodeiam.

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