Aprendendo a Transcender: Corpos, de Si Spencer e Vários Artistas

Alguns corpos encontrados no mesmo lugar da cidade de Londres, porém em diversos espaços de tempo da história humana. Passado, presente e futuro. Quatro detetives investigando a origem dos corpos e o paradeiro do assassino dessas mesmas vítimas. Mas estranhas coincidências e símbolos estabelecem uma ligação entre estes cadáveres. Somente os detetives que aceitarem sua verdade chegarão ao fim da história.

CORcapaEste quadrinho do selo Vertigo da DC Comics é escrito por Si Spencer, do ótimo John Constantine: Hellblazer: A Cidade dos Fantasmas e desenhado por vários artistas. O artista Dean Ormston acompanha um detetive assolado por seu desejo sexual durante a época de Jack, o Estripador, 1890. Seu estilo lembra uma mistura de Mike Mignola com  Frank Quitely. Em 1940, o desenhista Phil Winslade, mostra um detetive judeu, vindo de campos de concentração na Polônia, sobrevivendo na Londres em plena ebulição dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Os desenhos de Winslade são interessantemente retrôs e dão um clima bastante sombrio à história.

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No ano de 2014, Meghan Hetrick, mostra uma policial muçulmana “inglesa até os ossos”, investigando um corpo encontrado no meio de uma manifestação racista. Achei que os desenhos de Meghan são os que menos casam com a história, são muito fofinhos para uma história de crime. Já em 2050, um pulso fez com que as pessoas na terra perdessem a memória longa e curta, mas a jovem Maplewood precisa entender o que faz um corpo no porão em que vive lendo livros infantis. Os desenhos aqui são da nova sensação, Tula Lotay. As cores de todas as partes são do experiente em quadrinhos de crime Lee Loughridge.

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Conforme a história vai se desenrolando percebemos que todos os crimes possuem o mesmo modus operandi e que um símbolo se repete em todos eles. Esse símbolo remete a uma seita muito antiga, que se refere ao deus Mitra, uma entidade muito antiga, mas cultuada secretamente no submundo de Londres por muitos anos a fio.

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Seitas se transformam em cultos e se utilizam de rituais. Tudo isso vai ao encontro da religião. A palavra religião vem do latim religare, que significa estabelecer conexão. Muitos símbolos religiosos e o deus Mitra, uma entidade hindu-mesopotâmica, estão envolvidos na história, entremeados por um símbolo que lembra a letra “E”, três riscos cortados por um quarto. O simbólico, em sua acepção original, significa um elemento representativo que reúne de forma visível algo invisível. Já o diabólico, seria aquilo que rompe com essa representação, afastando uma coisa da outra.

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Mitra, ou Amigo, é o deus do Sol, da sabedoria e da guerra na mitologia persa. Foi incorporado tanto à mitologia hindu quanto à romana ao longo dos anos. Representava também o bem e a libertação da matéria.  Era uma das mais populares divindades persas. Com sua adoção pelos romanos, tornou-se especialmente popular entre os soldados, que lhe ofereciam touros. Embora Mitra tenha sido o principal oponente do cristianismo nos seus primeiros tempo, ele também pode ser associado com Jesus Cristo. Também possui o papel de redentor e porta chagas de um sacrifício pela humanidade. Seu culto estava associado a uma existência futura e espiritual, completamente libertada da matéria. O culto era celebrado em grutas sagradas onde o principal acontecimento era o sacrifício de um touro, cujo sangue fazia brotar a vida, propiciando a imortalidade. nada muito diferente do cristianismo.

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Alguns povos da Ásia Menor atribuem a Mitra o título de “primeiro mensageiro”. Portanto, Mitra, em suas diversas forma e símbolos, sobreviveu por séculos na adoração da humanidade e muito mais, em culturas diferentes que vão da Europa ao Japão, do zoroastrismo ao budismo. Nada mais interessante que ele fosse peça-chave de uma história que atravessa os tempos.

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Fiz essa citação a Mitra e essa explicação toda, para que você fique sabendo disso antes de ler a história, mas também para que possa retornar a ela depois de concluída a leitura. Pode fazer com que o significado da história fique mais amplo que apenas uma história de crimes que atravessa as épocas. Corpos tem um significado transcendental, apocalíptico, no sentido de transformação e também no sentido de prever e evitar o fim de mundo(s).

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4 Comments

  1. Excelente, já havia feito uma pesquisa por conta própria mas gostei muito do seu texto. Li e reli, e após o contexto a mensagem de amor da história fica mais clara. E em tempos de intensa polarização, mais necessária. “Saiba que você é amado(a)”.

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