Aprendam: O Mercado de Quadrinhos Não Quer Ser Revolucionado!

Essa semana a Marvel lançou as capas de sua nova iniciativa: Marvel Legacy. Embora eu tenha gostado muito, parece que o pessoal em geral não achou nada empolgante. Lidar com a expectativa do público não é fácil, ainda mais em um mercado de produções culturais seriadas. Diferente de meios como cinema, não temos trailers de eventos de quadrinhos que, através dos quais, que podemos pesar se o buzz está exagerado ou não. É apenas o boca a boca e a internet. E isso pode prejudicar muito as estratégias de divulgação das empresas.

As pessoas julgam tudo sem antes experimentar. Querem um exemplo? Capitão América da Hidra. Quando a imagem saiu, as pessoas caíram de pau na Marvel dizendo que era uma porcaria e foi “uma porcaria” que veio silenciosamente. A Marvel não avisou ninguém de sua chegada. Com o passar do tempo e das edições de Capitão América, desembocando em Império Secreto, os leitores perceberam que aquela estratégia e que aquela história eram boas. Que as histórias eram bem escritas e que ali estava sendo preparado um grande evento que acabou elogiado por boa parte dos leitores.

NAOhydra

A internet é uma bênção e uma maldição. Se por um lado tornou nosso acesso à informação muito ágil, por outro, nossos julgamentos ficaram mais rápidos e menos analíticos. Tudo fica na base: “não li e não gostei”. Isso realmente me irrita muito, pois não é uma crítica embasada, é ridiculamente superficial. E é por isso que a crítica dos quadrinhos não é levada a sério como a de música e de cinema: tudo é julgado sem base, sem comparação, sem nenhum critério além daquele do Quico, do Chaves: “você não vai com a minha caaaaraaa?”.

NAOquico

Se por um lado, as editoras têm um abacaxi nas mãos e realizam uma má-gerência de suas novidades, os leitores e influenciadores digitais também têm uma grande responsabilidade nas mãos: bombardear um grande e bom esforço através de suas críticas generalizadas e superficiais. A Marvel foi muito criticada recentemente por se apoiar na diversidade. Os enganados nerds de raiz e trolls de internet se esqueceram que esse feito da Marvel não é para eles, mas para novas gerações de leitores. É uma forma de atrair gente que, de outra forma, não leria quadrinhos.

Nosso mercado é muito incestuoso. Quem produz compra de quem produz dentro de um círculo vicioso que não acaba, só se torna maior. Por isso, é importante novas visões sobre o quadrinho mainstream e seus conteúdos. Até para gerar influências no mercado independente de quadrinhos. Se apenas o nerd de raiz comprar quadrinhos, uma hora esse tipo de cara vai morrer. Quem vai comprar essa mídia que ele adora tanto se ela não se abre para outros públicos? É muito legal querer manter e conservar as histórias “do jeito que eu lia na infância”, mas gente, o mundo muda. Não adianta vocês querem segurar as rotações da Terra com a mão. Só o Superman faz isso e ainda só nos filmes. O tempo não volta, só avança. E você, sinto dizer, vai morrer um dia.

NAOturn

Na indústria do espetáculo, do entretenimento e da cultura, tudo é expectativa. Por isso, se faz importante saber manipular essa expectativa direito. Isso demanda um planejamento de comunicação eficiente. Por mais que Marvel e DC Comics estejam ligadas à grandes conglomerados como a Disney e a Time/Warner, elas não sabem comunicar como suas irmãs mais velhas. Elas falham fragorosamente. E o que não dizer de nossas editoras brasileiras de quadrinhos? Sem comentários. É necessário atrair a curiosidade de forma menos grandiloquente, mas mesmo assim dando pistas: teasers, trailers, migalhas que levem à grande casa das idéias e das guloseimas. Sempre, como eu digo, sem subestimar nem superestimar seu público.

NAOdivided

“Vamos revolucionar o mercado”, disseram os executivos da Marvel quando apresentaram seu plano de publicações para os lojistas sobre a iniciativa Marvel Legacy.  A estratégia já começa errado ao reunir lojistas para divulgar seus planos. Mesmo que o mercado dos EUA seja diferente do brasileiro. Quando, por exemplo, um fabricante de margarinas vai se reunir com os varejistas de redes de supermercados para ver se eles aprovam seu novo sabor? Não, o fabricante de margarinas vai fazer uma pesquisa com o seu público potencial e realizar um mercado-teste. As estratégias de venda estão todas erradas e moldam as expectativas do público de forma errada também. Não existe pesquisas de público de quadrinhos em lugar nenhum do mundo. No Brasil, não existem nem números de circulação e tiragem, quiçá algo sobre o seu público. Pesquisas feitas pela internet não contam, pois grande parte do público de banca não acessa redes sociais. No caso, essas, servem apenas como base de comparação.

NAOlegacy

Para concluir: Ninguém revoluciona o mercado de quadrinhos porque ele não quer e não permite ser revolucionado. Pelo menos não dentro do mercado mainstream. As pessoas não querem coisas novas, querem mais do mesmo. E quando as editoras vêm com mais do mesmo elas reclamam. “São loucos esses nerds!” diria Obelix. Mas as pessoas gostam mesmo de se enganar, já disseram várias pesquisas de comportamento do consumidor. Afinal, muita gente paga academia e não vai apenas para ter o conforto na consciência que está “fazendo algo” para ficar saudável, quando não está. Então, sim, o público de quadrinhos resumidamente são como sedentários que pensam que são atléticos porque pagam mensalidade na academia, mas não fazem exercícios regularmente. Principalmente no universo dos super-heróis. Não é mesmo?

Anúncios

7 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s